🛒 Na cauda da Europa

Porque é que compramos tão pouco online? A iliteracia digital é um problema estrutural de Portugal que tem de ser combatido com formação e generalização do acesso à internet.

Portugal tem um problema com o digital. Por alguma razão, o comércio eletrónico parece não “pegar” cá.

Reconheça-se: o esforço tem sido grande. Há cada vez mais soluções para ajudar as nossas PME a venderem online, das quais é exemplo a plataforma “Criar Loja Online”, lançada pelo Governo e pelos CTT (o nome é autoexplicativo). Já para não falar das soluções tipo “pronto-a-vestir”, como é o caso do Shopify e de tantas outras soluções do mesmo género.

Mesmo assim, ano após ano, o país continua a surgir na cauda da União Europeia (UE) em percentagem de população que compra online. E não apenas porque os nossos parceiros europeus sejam muito mais adeptos do digital do que nós. Nada disso.

Os últimos dados do Eurostat mostram que ficámos mesmo muito aquém da média dos 27 Estados-membros da UE. No conjunto europeu, 60% da população com 16 a 74 anos comprou online nos últimos 12 meses. Em Portugal, fomos apenas 39%.

Portugal superou apenas Itália, Roménia e Chipre, e igualou a Grécia e o Chipre. Se compararmos com o Reino Unido (que já não conta para a média), ou mesmo com a Dinamarca, o fosso é superior a 45 pontos percentuais. Não é um buraco. É um buracão.

Porque é que compramos tão pouco online? O problema não é de agora, por isso há já algumas explicações. A primeira tem a ver com os rendimentos. Para uma boa percentagem da população, o mês é “chapa ganha, chapa gasta”.

Mas esta não é a única razão. A verdadeira explicação é mais profunda. Estrutural até. Refiro-me à iliteracia digital, um problema que se agrava sobretudo nestes tempos de pandemia. Um plano robusto de formação digital da população é crítico para a competitividade nacional.

Dificilmente conseguiremos uma aproximação à média europeia se uma “fatia” importante dos portugueses não tem internet em casa, como tem sido exposto com o “regresso” às aulas não presenciais esta semana, que ameaça deixar tantas crianças sem acesso a um ensino acompanhado e de qualidade.

O plano apresentado pelo Ministério da Economia e Transição Digital é um bom ponto de partida para mudar o país, numa altura em que, a este nível, Portugal anda a várias velocidades. Algumas das medidas, como a tarifa social de internet, só pecam por tardias. Vejamos agora como vai ser a parte mais importante, a da implementação.

Posto isto, fará algum sentido recuperar uma outra ideia para se pôr em cima da mesa. Porque não criar um serviço universal de internet?

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