O PS fez Carneiro refém

O PS não está condenado a desaparecer, não tem de estar. Mas se continuar com disputas internas a céu aberto, nada de bom se augura.

Sempre respeitei José Luís Carneiro. Talvez por ser do Norte e da terra da minha família, Baião. Talvez da mesma forma que nós, portistas, respeitávamos os sportinguistas até começarem a ganhar. Pelo facto de gostarem do jogo, mesmo sabendo qual seria, invariavelmente, o resultado final. Sempre lhe admirei a forma como não quis esconder o sotaque, as suas origens e a coragem com que avançou para a liderança, quando mais ninguém a queria.

Contudo, não creio que alguém tenha dúvidas sobre qual será o fim político de Carneiro. Será aquilo que o partido quiser que seja: carne para canhão. Numa máquina bem oleada como o PS, o que acontecerá quando o poder estiver perto está escrito nas estrelas e José Luís tem de o saber. Em 2014, ele estava lá e esteve com Seguro.

O Congresso foi há apenas umas semanas e nunca vi um líder com tantos votos, mas tanta fraqueza política. Para os órgãos internos do partido foi fácil encontrar dissidentes e nestes dias Duarte Cordeiro esclareceu que quer manter a sua “liberdade para discordar”. Desde Mariana Vieira da Silva a Fernando Medina, coragem para avançar depois do desastre não houve, mas ruído interno em forma de comentário não tem faltado. Há uma elite do PS que achou indecoroso que alguém vindo da província tivesse o atrevimento de se candidatar e isso não será perdoado.

Contudo, as coisas não têm corrido bem. A visita à Venezuela foi desastrosa a todos os níveis, desde as redes sociais à incapacidade de criticar a ditadura. O triste filme dos juízes conselheiros do Constitucional acabou pior do que começou: perdeu um juiz e quando radicalizou a posição para o Orçamento, foi recebido com condescendência pelo Governo e pelo próprio partido.

Adicionalmente, a proposta de Tiago Antunes para Provedor é, no mínimo, petulante, sinal de um partido mal-habituado. A hipótese da ingenuidade fica por terra com as notícias de que o nome pode ser reapresentado, o que significaria total falta de decoro institucional. No topo do bolo, a cereja: o vídeo com Sánchez onde é apresentado como um “exemplo”. A piada está feita.

Custa-me a crer que este seja o verdadeiro José Luís. Parece estar refém do partido, da vontade de ir mesmo a eleições ou de algum mau conselheiro que insiste em o prejudicar. Se a ideia é apaziguar o PS, não me parece estar a funcionar. Se a escolha de Tiago Antunes era para agradar ao costismo, o resto do partido fez-se ouvir no Observador.

Há uma esquerda que vê radicais bons e radicais maus e, por sinal, tende a ser a mesma esquerda para a qual o centro-direita e a extrema-direita são um e o mesmo corpo. Vê quem pensa de forma diferente como o mal em si mesmo, avaliando a moralidade do adversário, ao invés da sua posição. Esta forma de estar era um exclusivo dos que viam portugueses de bem e os outros. Hoje, quando ouvimos a teoria da rampa deslizante de Carneiro ou a luta anti-direita de Sánchez, percebemos que já não é.

O PS não está condenado a desaparecer, não tem de estar. Mas se continuar com disputas internas a céu aberto, um líder que só fala para dentro, sempre a olhar pelo ombro, porque sabe o que a casa gasta, nada de bom se augura. Nada garante que não tenha o fim do PS francês. A política é mesmo assim. No fim de contas, durante os últimos anos, tudo no nosso sistema tem soado muito à gaulesa.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

O PS fez Carneiro refém

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião