Pequeno grande País

A agitação na política portuguesa é um ritual de lavagem do espírito, é sobretudo o ímpeto de separar os puros dos impuros.

Este país não é para jovens. Este país não é para velhos. Este país não é para pobres. Este país não é para ricos. Para quem é afinal este país? A resposta pode doer a todos os portugueses, mas tem de ser escrita – Portugal não é um país. Portugal é um lugar.

Há uma versão de Portugal que está a morrer e que persiste em apanhar banhos de sol no meio dos escombros. Respira-se apenas a ausência de autoridade e a organização da decadência e o reflexo de uma exaustão política que se torna realmente exaustiva. Há uma palavra que não se consegue encontrar para classificar este lugar de país – A palavra é respeito. A existência dos portugueses neste lugar é uma vida sem respeito ou uma vida em que o respeito foi sepultado tão fundo que não consegue sair. O fracasso parece estar a engolir este país.

Os jovens emigram à procura da dignidade e do conforto que não encontram neste lugar transformado em reserva exclusiva de inoportunidades. Os velhos abandonam-se porque não têm para onde ir e porque não têm onde ficar. Os pobres são pobres porque a pobreza é uma escolha moral. E quando se opta pela pobreza recebe-se o desprezo da desesperança. Os ricos não vivem no mesmo lugar, respiram no parque nacional do privilégio enquanto se ocupam das rendas e do planeamento fiscal. O país que é um lugar está a desfazer-se em fragmentos sociais estranhos e não conciliáveis. A fragmentação política não é obra dos políticos porque é o retrato de um país em desintegração.

A esquerda está perdida neste labirinto sem entrada nem saída. A direita percorre os corredores para ver as montras como se o país fosse um centro comercial a céu aberto. O Presidente da República enrola-se em discursos líricos sobre um país que só existe nos livros antigos de um mestre-escola. A direita não sabe ser direita porque vive uma profunda crise de identidade. A esquerda insiste na pose moralista do activismo das grandes avenidas. A direita esquece a democracia-cristã e persiste na purificação do país para regeneração nacional.

Nunca o Portugal democrático foi tão insensível, ignorante e preguiçoso na análise dos problemas do país. A política está transformada no único mecanismo de ascensão social. A política está transformada no jogo tácito dos corredores, no calculismo da intriga, na vantagem do adiamento, na negociação permanente sobre a vantagem das corporações. Na organização política do país a classe média é uma excrescência incómoda que paga os seus impostos, mas que insiste em exigir o retorno social das suas contribuições. Para esta geração de políticos, pagar impostos é o princípio e o fim da cidadania democrática.

O grande desígnio nacional parece ser o de blindar o Estado a todas as fugas, fraudes, falsificações. Na mentalidade estabelecida o país é pobre porque a fraude é a regra e a norma. Todos os políticos são insuperáveis nas suas competências, mas os portugueses são uma espécie cultural intocável pela disciplina do trabalho e da gratificação diferida. Portugal não rima com esperança.

Todo e qualquer português que se preze pretende apenas extrair o máximo do Estado e devolver o mínimo à nação. Os portugueses não querem oportunidades. Os portugueses querem a oportunidade de um subsídio. Quando um português não procura um subsídio, tal significa que estamos na presença de um cidadão corrupto. A pobreza da nação tem uma causa que oscila entre o subsídio e a corrupção.

Nesta visão política do país fica bem presente o ressentimento histórico e a demolidora ideia de uma profunda inferioridade. Para garantir a modernidade e o progresso, o país tem apenas de erradicar toda a corrupção e toda a fraude nos sistemas de assistência social. O que é fantástico é a ideia política de um país pobre que apenas sabe roubar os mais pobres. O que é ainda mais fantástico é a ideia de que um país rico só pode existir quando todos os corruptos estiverem na prisão. Com pobres à solta e corruptos em liberdade não existe prosperidade nacional. Esta não é uma ideia de país porque é o modelo de uma colónia penal.

Claro que os imigrantes só podem pertencer à classe pobre ou então usaram as falhas do sistema político e social para se tornarem ricos através da via verde da corrupção.

A agitação na política portuguesa é um ritual de lavagem do espírito, é sobretudo o ímpeto de separar os puros dos impuros. O paternalismo político democrático tem a vantagem de oprimir sem parecer que oprime enquanto finge transformar o país num exemplo de prosperidade para encanto da Europa.

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