Que sociedade estamos a construir?

  • Graça Borges
  • 29 Junho 2026

Avaliamos progresso sem perguntar, de forma direta ‘Isto está, de facto, a melhorar a vida das pessoas?’

Colocar as pessoas no centro. Esta é uma verdade inquestionável quando se fala em sustentabilidade. Basta olhar para a base da Agenda 2030 das Nações Unidas e para os primeiros dos 17 ODS, que evidenciam a dignidade humana, a qualidade de vida e a inclusão. Mesmo ao projetar o horizonte 2050, que está fortemente associado à neutralidade carbónica, mantém-se o princípio de que tudo existe por nossa causa.

Pensar a sustentabilidade no meu dia a dia, há já vários anos, por motivos profissionais, reforçou ainda mais esta convicção de que é preciso fazermos o que está ao nosso alcance para não dificultar a continuidade da humanidade.

Ao longo dos últimos 25 anos, a sustentabilidade ganhou, e bem, espaço e relevância nas políticas públicas, na gestão das empresas e no nosso quotidiano. Os compromissos assumidos, a legislação, as metas e os investimentos feitos geram progresso real, em áreas que, de alguma forma, nos tocam a todos, como a transição energética ou a economia circular. Não há dúvidas quanto a isso.

Mas, na prática, o que está em causa?

Estamos a falar das condições que nos permitem viver e continuar a evoluir enquanto seres humanos e em sociedade. Do compromisso com a saúde, com a estabilidade, com a educação, com o respeito por valores e com a capacidade de vivermos com dignidade.

Continuamos, muitas vezes, a medir demasiado e a sentir de menos. Falamos de impacto sem falar de vidas concretas. Desenhamos estratégias sem garantir equidade. Avaliamos progresso sem perguntar, de forma direta ‘Isto está, de facto, a melhorar a vida das pessoas?’

Projetando-nos em 2050, esta tem de ser a pergunta a fazer. Não apenas que metas queremos atingir, mas que tipo de sociedade estamos a construir e a deixar para as próximas gerações. Mais justa? Mais saudável? Mais preparada? Mais inclusiva? Se a resposta for sim, então a sustentabilidade tem de começar aí.

Há responsabilidade coletiva, mas também individual. Não depende apenas dos governos ou das empresas, mas de cada um de nós, das escolhas que fazemos, de como participamos na sociedade e somos empáticos com quem nos rodeia.

Os ODS lembram-nos de forma clara de que é necessário erradicar a pobreza e a fome, garantir saúde e educação de qualidade, reduzir as desigualdades. Não podem ser complementos de uma agenda que é comum a países, governos e empresas, antes ser entendidos como o alicerce, já que sem desenvolvimento humano, não há sustentabilidade que perdure.

Acredito, por isso, que o maior desafio dos próximos 25 anos será conseguir transitar de uma abordagem puramente técnica para uma visão mais humana. Menos sobre o que fazemos e mais sobre para quem fazemos.

Precisamos de uma sustentabilidade que se sinta no dia a dia, que crie mais oportunidades reais, que reforce a coesão e que devolva sentido às decisões. É um caminho que passa pela educação. Educar para compreender, para questionar, para agir, porque só com conhecimento conseguimos agir e mudar.

No fundo, quando falamos de sustentabilidade, estamos sempre a falar de nós, embora não numa perspetiva egocêntrica, mas da nossa continuidade como coletivo. E isso implica definir a forma como queremos viver hoje, evitando gerar dano para o futuro.

Nota: esta é uma coluna no âmbito do 25.º aniversário do BCSD Portugal e que pretende trazer conteúdos ligados a esta temática por personalidades de reconhecida influência empresarial ou académica.

  • Graça Borges
  • Diretora de Comunicação, Relações Institucionais e Sustentabilidade do Super Bock Group

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