Editorial

Uma notícia, um ‘off the record’ e um castigo

O Ministério das Finanças decidiu castigar o ECO por uma notícia publicada e por isso 'desconvidou' um jornalista para um encontro informal com um secretário de Estado.

O Ministério das Finanças falhou no essencial, e não foi nas contas públicas nem nas previsões para a economia, foi no respeito pelo jornalismo e pelos jornalistas, com uma decisão censurável na substância e na forma. A história é curta, mas é grave, mancha a responsabilidade política de um ministro e a responsabilidade profissional de uma assessora de comunicação que tinha obrigação de garantir princípios mínimos de respeito pela liberdade de imprensa.

O ECO noticiou esta quinta-feira, em primeira mão, que o Governo iria lançar um novo produto de poupança, os novos Certificados do Tesouro. Era ‘apenas’ mais uma notícia, suportada em informação relevante para os leitores. Cerca de uma semana antes, a partir do trabalho de investigação do jornalista Luís Leitão, o ECO tinha questionado o Ministério das Finanças e não obteve qualquer resposta, uma opção legítima de qualquer instituição, que deixou de o ser quando, já esta semana, o mesmo jornalista foi convidado para um encontro no Ministério das Finanças, em ‘off the record’, precisamente sobre o tema sobre o qual o ECO tinha questionado o Ministério.

Perante os dados apurados, a decisão editorial era evidente. O ECO publicou a notícia, sem aguardar por um encontro para o qual tinha sido convidado e cujo objetivo era explicar uma medida que já estava em condições de ser noticiada.

O que se passou nas horas seguintes é intolerável. À hora marcada, o jornalista Luís Leitão dirigiu-se ao Ministério das Finanças para o referido encontro na expectativa de obter mais informação e, ao lado de um grupo de jornalistas de outros meios, identificou-se para subir à sala de reuniões. Perante a surpresa geral, foi barrado por um GNR que, cumprindo ordens, pediu para se afastar e para aguardar por uma explicação de um funcionário das Finanças.

A explicação chegou através de um contacto telefónico da assessora de comunicação, uma humilhação pública, sem o mínimo sentido profissional. O jornalista do ECO estava desconvidado, barrado à porta das Finanças por um militar, como se fosse suspeito de um roubo, porque fez o seu trabalho e escreveu uma notícia que o Ministério das Finanças queria guardar para divulgar esta sexta-feira em diversos meios ao mesmo tempo.

O Ministério das Finanças decidiu castigar um jornal e um jornalista pela publicação de uma notícia em primeira mão ao barrar o acesso a um encontro ‘off the record’ para o qual o ECO tinha sido oficial e previamente convidado. Um Governo tem direito a escolher os meios de comunicação social a quem dá entrevistas e tem legitimidade para convidar quem entende para encontros informais, pode contestar notícias, prestar esclarecimentos, exercer o direito de resposta e defender a sua versão dos factos, mas não pode castigar jornais e jornalistas por notícias publicadas. Foi isso que sucedeu.

Jornalismo é publicar o que alguém não quer que seja publicado. Tudo o resto é publicidade”. A frase, frequentemente atribuída a George Orwell, está longe de esgotar o que é o jornalismo, mas neste caso ajuda a perceber o que esteve em causa. O ECO publicou uma notícia que o Ministério das Finanças preferia controlar, por isso foi sancionado, e foi sancionado em público, perante outros jornalistas, como se a assessora de comunicação do Ministério das Finanças quisesse transformar este caso num exemplo. Fez mal.

As condições de exercício do jornalismo, na defesa de uma sociedade informada, são cada vez mais difíceis e deliberadamente limitadoras, é o terreno em que vivemos. Aqui, no ECO, rejeitamos a estratégia de vitimização ou de fatalismo sobre o jornalismo e o que nos compete fazer. Este episódio não muda, portanto, os valores e princípios sobre os quais assenta o nosso trabalho, mas retiramos lições e consequências. Como diretor do ECO, assumo perante os leitores um compromisso. O ECO não voltará a estar presente em qualquer outro encontro ‘off the record’ no Ministério das Finanças enquanto não houver um pedido formal de desculpas de forma pública e notória, nos mesmos termos em que o jornalista Luís Leitão foi barrado nas Finanças. As notícias, essas, continuaremos a escrevê-las com independência e rigor, para servir os leitores.

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