Um mês depois do fim da OPA, EDP asfixiou EDP Renováveis em bolsa. E agora?

  • Rita Atalaia
  • 5 Setembro 2017

Foi há um mês que António Mexia viu fracassada a intenção de, dez anos depois de a colocar em bolsa, retirar a empresa de energias renováveis do mercado. Um mês depois, a EDP Renováveis ainda respira.

Passou um mês desde o fim da Oferta Pública de Aquisição (OPA) da EDP à EDP Renováveis. Apesar de ter conseguido comprar apenas 5% da subsidiária, a empresa liderada por António Mexia nunca admitiu o fracasso da operação. Um resultado que ficou aquém sobretudo pela resistência dos acionistas minoritários em aceitar o que consideraram ser um preço baixo. Estes acionistas acabaram por correr um risco, com a liquidez a cair ainda mais. Mas foi um risco que pode ter compensado, pelo menos para alguns pequenos investidores: podem agora vender os títulos (se conseguirem superar o risco da liquidez) e ganhar mais dinheiro. As ações estão acima do preço da OPA.

Foi no início de agosto que a EDP ficou com 82,56% da EDP Renováveis após a OPA. No total, a EDP conseguiu comprar 43,9 milhões de ações da EDP Renováveis, o equivalente a apenas 5,03% dos cerca de 22,5% de capital que ainda não detinha na cotada presidida por Manso Neto. Embora imprevisível, o resultado da OPA acabou por confirmar a resistência dos acionistas minoritários face àquilo que consideram ser um baixo preço oferecido pela EDP, de 6,75 euros. Esta foi inclusivamente a principal crítica lançada pelos pequenos investidores e até por acionistas institucionais da EDP Renováveis, como o fundo americano MFS e o fundo britânico Ecofin.

Ações da EDP Renováveis valem agora 6,89 euros

“Parece evidente que o pequeno acionista da EDP Renováveis, que mesmo neste contexto de falta de liquidez conseguiria transacionar um pequeno bloco de ações sem pressionar o mercado, ficou numa melhor situação do que aquela que teria caso tivesse aceite a oferta da EDP. Logo poderemos presumir a falta de justeza da contrapartida oferecida“, afirma Octávio Viana, presidente da Associação de Investidores e Analistas Técnicos do Mercado de Capitais (ATM), ao ECO.

Parece evidente que o pequeno acionista da EDP Renováveis, que mesmo neste contexto de falta de liquidez conseguiria transacionar um pequeno bloco de acções sem pressionar o mercado, ficou numa melhor situação do que aquela que teria caso tivesse aceite a oferta da EDP. Logo poderemos presumir a falta de justeza da contrapartida oferecida.

Octávio Viana

Presidente da Associação de Investidores e Analistas Técnicos do Mercado de Capitais

Esta resistência fez com que a EDP ficasse aquém dos 90% mínimos exigidos para conseguir avançar com uma OPA potestativa, através da qual iria proceder à retirada de bolsa da empresa de energias renováveis, mas nem assim admitiu a derrota. Em vez disso, a empresa liderada por António Mexia disse ser um passo em frente na estratégia que pretende levar a cabo. “Acreditamos que é um bom negócio para os acionistas das duas empresas. Faz sentido para os acionistas de ambas as empresas”, disse Mexia.

Como não conseguiu tirar a empresa de energias limpas de bolsa, a liquidez ficou ainda mais baixa. Neste primeiro mês após a OPA, o volume médio diário negociado na bolsa de Lisboa está mais de 50% abaixo da média deste ano e dos últimos 12 meses. Mas este risco não surpreende os pequenos investidores. “Era um risco conhecido. De qualquer forma, será provavelmente necessário esperar mais algum tempo, de modo a excluir o efeito de redução dos volumes transacionados geralmente observado no mês de agosto”, afirma Albino Oliveira, da Patris Investimentos, ao ECO.

Por outro lado, Octávio Viana nota que um mercado com baixa liquidez, “mais que um risco, traduz-se num maior custo de transação, nomeadamente ao nível do spread entre a compra e a venda, o impacto que a transação terá no preço (um mercado liquido tem pouca capacidade de absorver o choque da transação sem grande impacto) e o custo de oportunidade associado a ter de esperar por momentos de maior liquidez por forma a reduzir os custos descritos anteriormente. Ou seja, na ótica de um investidor numa empresa cotada, o prémio que irá reclamar para ter esse ativo será sempre maior quanto menor for o free float/liquidez”. Neste momento, o free float é de apenas 14%.

Free float é de apenas 14%

Outra OPA a caminho?

Com o fim da OPA, a menor liquidez no mercado tornará a EDP Renováveis menos atrativa para os investidores, tanto os pequenos como os grandes, o que poderá repercutir-se negativamente na cotação. Só não terá um impacto superior tendo em conta que continuará a pairar sobre a cotada o interesse da EDP, que poderá retirá-la de bolsa. Albino Oliveira nota que “um free float reduzido e baixos volumes de negociação podem contribuir para reduzir o interesse dos investidores. De qualquer forma, a EDP Renováveis continua a ser uma forma de ganhar exposição ao tema das energias renováveis”.

Mas pode não ser assim tão fácil para a EDP voltar a atacar a subsidiária. O presidente da ATM relembra que um “lançamento consecutivo de ofertas pelo mesmo oferente levaria uma distorção das regras e a uma disfunção do mercado” e que o regulador não permite, por isso, que isto aconteça. “Não obstante, é possível que a EDP procure atingir o desiderato que pretendia com a OPA (perda de qualidade aberta da EDPR e a possibilidade de utilizar uma avaliação da sua participação mark-to-model) através de outras manobras societárias”, diz Octávio Viana.

Em todo o caso, diz, “todas estas manobras deverão implicar o pagamento de uma contrapartida para quem não as queira acompanhar e, nesse caso, a EDPR deverá refletir sobre a razão do enorme insucesso que foi a OPA“.

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