PSD ganha autárquicas e tem as cinco maiores câmaras. Desde 2001 que não acontecia
Partido liderado por Luís Montenegro vence em quase toda a linha as eleições autárquicas. Entre as derrotadas da noite, a CDU foi superada pelo Chega em Lisboa por 11 votos.
O PSD venceu as eleições autárquicas, o que não conseguia desde 2009. O presidente do partido e primeiro-ministro, Luís Montenegro destacou cada um dos capítulos nos quais saiu vitorioso: mais votos, freguesias, concelhos e mandatos. E ainda venceu nos cinco maiores municípios do país.
Num contexto de vitória na maioria das câmaras, a recuperação da presidência no Porto, em Sintra e em Vila Nova de Gaia, assim como a manutenção do poder em Lisboa onde as sondagens apontavam um empate técnico, permitem ao PSD reclamar vitória de forma inequívoca.
O maior alívio terá chegado à sede da distrital do PSD no Porto (onde Montenegro acompanhou os resultados) a partir de Lisboa. “Querem que sejamos ainda mais Moedas”, disse o reeleito presidente da capital no seu discurso, antes de serem arremessadas moedas de chocolate pela sala do hotel onde a comitiva se concentrou.

Contudo, continua a não haver uma maioria na coligação de direita, que poderá ser atingida com a soma do eleito pelo Chega. Ainda que haja um “não é não” na República, esse apoio dos representantes do partido de André Ventura é suficiente para uma governação em maioria em todas as cinco principais câmaras do país. Lisboa, Sintra, Gaia, Porto e Cascais, todas com vitória social-democrata sem maioria, poderão ter a governabilidade assegurada com apoio dos vereadores do Chega à governação PSD.
Com uma indireta aos líderes partidários que falaram antes na noite eleitoral – “praticamente todos se apresentaram como ganhadores”, destacou –, Luís Montenegro não quis traçar um cenário pós-eleitoral de governabilidade, designadamente colocar eventuais ‘linhas vermelhas’ para o partido de André Ventura.

Algo que José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, não só recusou, como exigiu de forma clara e ainda antes das eleições aos seus autarcas. O apoio dos vereadores eleitos pelo Chega estará excluído da governação do PS, exigiu. Já o princípio do PSD, professado pelo presidente do partido neste domingo é o respeito da autonomia local, significando isto que cada autarca terá autonomia para formar as maiorias que entenda nas vereações.
O sucessor de Pedro Nuno Santos no Largo do Rato foi a voz de um PS derrotado. Mesmo sem contestar as perdas verificadas ao longo do país, verbalizou que “o PS voltou”. Na primeira eleição como líder do partido, Carneiro negou a “erosão estrutural” que alguns prognosticavam. “Recordo que há três, quatro meses, havia quem afirmasse que o PS iria perder 79 câmaras, o que nos levaria para as 70 câmaras”, recordou.
Num discurso em que tentou amenizar a derrota, fazendo um contraponto com os vaticínios de derrocada do partido, recordou as vitórias entre 2013 e 2021: “no quarto ato eleitoral, o PS, mesmo estando na oposição no país, está taco a taco com o Governo em número de câmaras”. Embora a referência ao Governo seja desadequada, pois quem se candidatou foram os partidos que apoiam o Executivo e, em algumas candidaturas, como as de Lisboa, Porto e Sintra, por exemplo, também incluiu a Iniciativa Liberal.
No quarto ato eleitoral, o PS, mesmo estando na oposição no país, está taco a taco com o Governo em número de câmaras.
Chegado a estas eleições na primeira posição autárquica e na liderança das associações de municípios (ANMP) e de freguesias (ANAFRE), o PS consolou-se em ficar “taco a taco na Câmara do Porto e na de Braga” e ter disputado “para ganhar” as de Lisboa e do Porto. “Isto é extraordinário à luz dos resultados que tivemos há três meses, quando alguns afirmavam mesmo que o PS tinha entrado numa erosão eleitoral e que se iria passar [em Portugal] o que se passou com o Partido Socialista francês”.
De facto, até este domingo, a diferença na contabilização autárquica entre os dois partidos era “muito significativa”, como salientou Luís Montenegro no discurso de vitória. Agora, diz o também primeiro-ministro, o PSD é “o maior” no poder local, no poder regional (governa Açores e Madeira) e na Assembleia da República.
Mas nem tudo foi positivo para as hostes laranjas. Entre as derrotas do PSD está a Câmara de Albufeira, uma de apenas três autarquias onde o Chega venceu. Algo bastante distinto dos danos que muitos temiam, de esse crescimento poder estender-se a dezenas de autarquias.
André Ventura, que iniciou a noite com um discurso efusivo, teve declarações bem mais comedidas após serem contados os votos. “Sempre disse que não há partidos de poder sem serem partidos autárquicos. Hoje demos esse primeiro passo, mas ainda estamos longe dos objetivos a que nos tínhamos proposto. Este partido já não luta para ficar em segundo nem em terceiro, este partido luta para vencer. Hoje não vencemos, mas vamos lutar para vencer”.
Sempre disse que não há partidos de poder sem ser partidos autárquicos. Hoje demos esse primeiro passo, mas ainda estamos longe dos objetivos a que nos tínhamos proposto.
De facto, chegados ao final da contagem dos 308 municípios, o Chega não se conseguiu equiparar sequer ao CDS, que manteve as seis câmaras a solo. E muito menos à CDU, embora lhe tenha infligido uma derrota dura de digerir: ficou em terceiro lugar em Lisboa por 11 votos. Essa exígua vantagem permite-lhe somar dois vereadores. A CDU fica reduzida a João Ferreira.
Recorde-se que Ventura chegou a assegurar que iria superar os comunistas. Na realidade, ficou com as mesmas três câmaras de um partido fugaz, o PRD, há exatamente 40 anos.
Seguindo a própria afirmação de Ventura de que “não há partidos de poder sem ser partidos autárquicos”, a segunda posição no parlamento obtida nas legislativas de 18 de maio (com mais de sete vezes os votos da CDU) não se materializou em poder autárquico. No Algarve, região onde já ganhou por duas vezes as legislativas, o partido ficou apenas com uma câmara em 16. Além do deputado Rui Cristina, em Albufeira, elegeu ainda no Entroncamento e no concelho madeirense de São Vicente.

O outro lado do duelo PS/PSD
A noite eleitoral não pode ser vista como um sucesso total para o PSD nem como um insucesso absoluto para o PS. Os socialistas conseguiram tirar três importantes capitais de distrito ao PSD, Coimbra, Viseu e Faro. As autarquias beirãs, duas das 26 do país com mais de 100 mil habitantes, caíram com estrondo.
Coimbra tinha sido ganha em 2021 por uma grande coligação encabeçada por José Manuel Silva, e agora passa a ter na presidência a ex-ministra Ana Abrunhosa (PS/Livre/PAN). Viseu, por seu lado, era governada por Fernando Ruas, cuja derrota, depois de uma maioria absoluta em 2021 e 24 anos de liderança entre 1989 e 2013, constitui uma relevante surpresa. O socialista João Azevedo conseguiu interromper um ciclo de 36 anos de PSD na Câmara, numa magra, mas significativa vitória por 800 votos.
O PS soma agora nove capitais de distrito e Braga ficou a menos de 300 votos num universo superior a 100 mil votantes. Tem maiorias absolutas em Bragança (que era PSD), Leiria, Viana do Castelo e Vila Real. Faro foi “tomada” ao PSD. Em Viseu, os socialistas venceram por menos de 1.000 votos em 57 mil sobre Fernando Ruas. Em Évora, o ganho ocorreu por uma margem ainda mais exígua, de 156 votos em 27 mil eleitores, frente ao mesmo partido.
Os social-democratas mantêm Lisboa e Braga, ganham Porto e Beja, continuam a ter a maioria absoluta em Portalegre e maioria relativa em Santarém, onde João Leite teve de enfrentar o socialista ex-vizinho de Almeirim.
A sul, destaque para uma “troca” entre PSD e PS, em Faro e Beja. No caso da capital algarvia, o socialista António Pina foi de Olhão, onde estava em limite de mandatos, para bater Cristóvão Norte, após o limite de mandatos atingido pelo social-democrata Rogério Bacalhau. Contudo, Pina não alcançou maioria, ficando com quatro mandatos, número insuficiente para se sobrepor à soma dos três de PSD/CDS/IL/PAN/MPT e dois do Chega.
Já em Beja, a vitória dos social-democratas constitui um feito inédito para a direita. Nunca a capital do Baixo Alentejo tinha rompido do bipartidarismo entre PS e CDU. Nuno Ferro interrompeu essa realidade que durava desde 1976. Adicionalmente, o Chega amealhou votos suficientes para um mandato.
À partida, o PSD levava vantagem nas capitais de distrito, mas o PS conseguiu igualar os pratos da balança. A CDU deixou de presidir a qualquer uma destas autarquias e os independentes, que tinham a Guarda, somaram Setúbal. Ainda que Montenegro tenha reclamado para o seu partido esta vitória, tal como em Santiago do Cacém, onde o independente que “roubou” a Câmara à CDU, tenha sido apoiado tanto pelo PSD como pelo PS.

Na capital do Sado, Dores Meira venceu e ajudou a tornar praticamente irrelevante aquele que foi o seu partido até há alguns meses. Para a CDU, este foi um dia de grandes derrotas, apesar de a coligação PCP/PEV ter conseguido conquistar algumas câmaras. Contudo, a perda de duas capitais de distrito, Évora e Setúbal, caindo de líder para terceiro e quarto, respetivamente, não é possível de escamotear. Pelo país, outra grande derrota é a inexistência de um eleito para vereador da Câmara do Porto. Nunca, desde 1976, a CDU ficara sem qualquer mandato na Invicta.
Ainda no que toca a Setúbal, a ex-autarca e militante da CDU Dores Meira, que em 2021 terminou o limite de 12 anos de presidência e foi concorrer pelo partido a Almada, regressou para se candidatar como independente. Num movimento que, contra a vontade da estrutura local do PSD, teve o apoio da sede nacional, Dores Meira, agora independente, recuperou a autarquia que era há 24 anos liderada pela CDU.
Deste período, metade foi da sua responsabilidade, quatro do presidente cessante e os demais de um autarca que, este ano, aparecia como apoiante do PS. Com esta divisão de forças entre comunistas e ex-camaradas seus agora desalinhados, a força da CDU não foi suficiente para eleger André Martins para um segundo mandato.
A piorar a situação, a CDU teve em Setúbal 11,4%, um terço da votação de há quatro anos. E ainda se deixou superar pelo Chega, apesar de o partido de André Ventura ter sido obrigado a mudar de candidato no último dia admitido por lei, em meados de agosto.
No Alentejo, a queda teve outros protagonistas. O bastião Alcácer caiu. Em Évora, a repescagem de João Oliveira, eurodeputado eleito para Bruxelas no ano passado, pautou-se por um rotundo fracasso. O eborense não chegou sequer aos 16%.
Nos demais partidos, o CDS consegue manter as seis câmaras conquistadas na liderança anterior do partido. A isso junta as coligações vencedoras nas grandes cidades, o que permitiu a Nuno Melo apresentar-se numa postura de vencedor.
Na Madeira, o JPP manteve a Câmara onde começou, em 2013, ainda como movimento, Santa Cruz.
À esquerda, destaque para o Bloco de Esquerda, que praticamente desapareceu do poder autárquico, depois de em 2021 já ter baixado de 12 para quatro mandatos.
Os eleitores escolheram neste domingo as equipas que irão governar e fazer oposição em 308 Câmaras Municipais, 308 Assembleias Municipais e 3.221 Freguesias.
No somatório, com todas as contas já fechadas, o saldo é este: 136 câmaras para o PSD (das quais só 78 a solo); 128 para o PS (das quais 126 a solo); 20 para Independentes; 12 para a CDU; seis para o CDS; três para o Chega; duas para o Nós Cidadãos e uma para o JPP.
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