Chanceler alemão propõe uma “super bolsa” europeia. Euronext e Deutsche Börse aplaudem
A Europa volta a discutir uma bolsa unificada capaz de competir com os EUA e a Ásia. A Euronext e a Deutsche Börse já deram o seu aval num raro consenso em defesa da integração financeira.
O chanceler Friedrich Merz defendeu esta quinta-feira, no parlamento alemão, a criação de uma grande bolsa de valores europeia que possa rivalizar com Wall Street, num apelo que encontrou eco imediato junto dos principais operadores de mercado do continente.
A proposta surge num momento em que a fragmentação dos mercados de capitais europeus é apontada como um dos principais obstáculos à competitividade das empresas europeias face aos gigantes americanos e asiáticos.
“Precisamos de uma bolsa europeia para que empresas de sucesso como a BioNTech, da Alemanha, não tenham de ir para a bolsa de Nova Iorque”, afirmou Merz no discurso parlamentar, referindo-se à empresa que desenvolveu em parceria com a Pfizer uma das vacinas contra a Covid-19 e que optou por se listar na bolsa tecnológica Nasdaq em 2019.
A Euronext está pronta para contribuir para o próximo nível de consolidação dos mercados na Europa para criar um pool de liquidez mais profundo que financie o crescimento das empresas europeias.
O chanceler alertou que está em causa o futuro da prosperidade europeia e se o continente conseguirá manter-se como “um ator relevante na economia global nos próximos anos ou tornar-se um peão entre os dois grandes centros económicos dos EUA e da Ásia”.
Stéphane Boujnah, CEO da Euronext – que gere bolsas em Amesterdão, Bruxelas, Dublin, Lisboa, Milão, Oslo e Paris –, congratulou-se imediatamente com o apelo do líder alemão.
“A Euronext sempre foi movida pela forte convicção de que na Europa é sempre possível ter sucesso em conjunto, em vez de falhar separadamente. A Euronext está pronta para contribuir para o próximo nível de consolidação dos mercados na Europa para criar um pool de liquidez mais profundo que financie o crescimento das empresas europeias”, declarou Boujnah, em comunicado, citado pela Reuters.
A Euronext tem feito movimentos nesse sentido, tendo em março anunciado a consolidação da liquidação de transações nas suas praças para um único depositário central de valores mobiliários até setembro de 2026, como forma de combater a fragmentação pós-negociação que afeta a competitividade europeia. A empresa controla atualmente cerca de 25% do volume de negociação de ações europeias.
Também a Deutsche Börse, a bolsa alemã, acolheu favoravelmente as declarações de Friedrich Merz, embora tenha apontado o dedo à fragmentação excessiva dos mercados europeus. “Com mais de 500 plataformas de negociação, a União Europeia não só criou o mercado mais fragmentado, como também o menos transparente, com apenas cerca de 30% da negociação de ações a ocorrer em bolsas transparentes”, criticou a operadora alemã em comunicado.
O apelo de Friedrich Merz para a criação de uma bolsa europeia unificada representa mais um capítulo na longa saga da integração dos mercados de capitais europeus, um projeto que, tal como a própria União Europeia, continua a enfrentar o dilema entre a ambição federalista e as resistências nacionais.
O discurso do chanceler alemão insere-se num contexto de perda de competitividade europeia. Friedrich Merz citou explicitamente os relatórios recentes de Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu, e Enrico Letta, ambos antigos primeiros-ministros italianos, que alertaram para a urgência de a União Europeia tomar medidas para estreitar a distância de produtividade face aos concorrentes globais.
Embora a Europa disponha da Euronext, que cobre múltiplos mercados, esta continua a ser uma aliança fragmentada com regulamentações nacionais paralelas, sistemas de liquidação distintos e regimes fiscais diferenciados, em vez de uma verdadeira “bolsa europeia única”.
A falta de escala e profundidade dos mercados europeus torna-se evidente quando se comparam as capitalizações bolsistas: nenhuma empresa da União Europeia com uma capitalização superior a 100 mil milhões de euros foi criada de raiz nos últimos 50 anos, enquanto que as seis empresas americanas avaliadas em mais de um bilião de dólares foram todas criadas neste período, refere o relatório Draghi.
Desafios políticos e regulatórios
Apesar do consenso crescente sobre a necessidade de consolidação das bolsas europeias, o caminho está longe de ser simples. A consolidação entre grandes grupos bolsistas é notoriamente complicada por interesses nacionais e preocupações de concorrência.
Um exemplo disso mesmo foi o chumbo em 2017 pela Comissão Europeia da fusão entre a Deutsche Börse e a London Stock Exchange, tendo Bruxelas alegado na altura que a união criaria um quase monopólio no mercado de derivados que poderia levar ao encerramento de concorrentes.
Stéphane Boujnah, que lidera a Euronext desde 2015 e supervisionou a expansão da empresa com as aquisições da bolsa irlandesa em 2018, de Oslo em 2019, da Borsa Italiana em 2021 e mais recentemente da operação de aquisição da bolsa grega, reconheceu em várias entrevistas que “para fazer fusões e aquisições, é preciso um comprador disposto, mas também um vendedor disposto”.
O executivo europeu tem argumentado, contudo, que existe agora uma vontade política crescente na Europa para tornar o bloco mais competitivo no palco global, o que pode criar ventos favoráveis à integração.
Friedrich Merz, que antes de regressar à política em 2018 foi conselheiro do gigante de gestão de ativos americano BlackRock e membro do conselho de administração da Deutsche Börse, conhece bem a indústria financeira.
O seu apelo para a criação de uma bolsa europeia unificada representa assim mais um capítulo na longa saga da integração dos mercados de capitais europeus, um projeto que, tal como a própria União Europeia, continua a enfrentar o dilema entre a ambição federalista e as resistências nacionais. A diferença é que desta vez, com a pressão competitiva global a intensificar-se, o tempo para agir pode estar a esgotar-se.
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