Exclusivo Processo do Novobanco “é um caso de sucesso, contra ventos e marés”
Agora que o Novobanco encontrou novo dono, Carlos Costa, o governador que liderou a resolução do BES em 2014, faz um balanço do processo.

Há mais de dez anos, no verão de 2014, o Banco de Portugal aplicava uma medida de resolução ao Banco Espírito Santo, criava o Novobanco e iniciava um processo que teve recentemente o seu desfecho, com a venda da instituição aos franceses do BPCE. Carlos Costa, que estava à frente do banco central nessa altura, faz agora um balanço muito positivo de um caso que deu muito que falar e que custou milhares de milhões aos contribuintes portugueses e aos restantes bancos do sistema.
Para o antigo governador, o balanço tem de ser positivo, apesar dos custos financeiros tidos. E explica: “um banco de transição é uma operação muito difícil, que exige grande compromisso. É muito difícil de explicar à opinião pública, porque não percebe que uma injeção de capital tem um retorno, em termos de bens públicos — que é a estabilidade financeira e confiança — muito superior ao dinheiro que se injeta e, portanto, é sempre uma operação que depara com grande oposição e ceticismo”.
Em declarações exclusivas ao ECO, Carlos Costa lembra que essa solução não foi imposta de fora, antes pelo contrário, uma vez que na altura eram mais as vozes que pediam, pura e simplesmente, uma liquidação, que no seu entender teria custos muito superiores, a todos os níveis. “É um caso de sucesso, porque contra ventos e marés, ou seja, contra o que queria a maioria no plano europeu, criou-se um banco de transição“.
Agora que terminou o mecanismo de capital contingente e o Novobanco até tem um novo dono, o antigo responsável afirma que o processo “acabou bem e constitui a vários títulos uma lição”.
“Constitui uma lição do ponto de vista da estabilidade financeira, porque se evitou o contágio da falência numa instituição financeira às demais. Não houve perda de confiança no sistema, o nível de contas manteve-se e, por outro lado, ponto importante, a concessão de crédito à economia também se manteve porque a instituição que lhe sucedeu manteve e até aumentou a sua presença no tecido empresarial”, ilustra.
E agora que os trabalhadores do banco reclamam receber também um prémio — à semelhança do que acontecerá com a administração — Carlos Costa deixa-lhes uma palavra de reconhecimento. “No caso desta operação, há uma dimensão que é preciso abordar-se, que é o facto de os colaboradores do Novo Banco terem estado à altura do desafio. A administração, naturalmente, mas também muito os colaboradores, que acreditaram no projeto e o levaram a bom porto”.
O Lone Star saiu do banco com uma forte mais-valia, depois de praticamente esgotar o mecanismo de capital contingente, mas o antigo governador lembra que outras instituições — incluindo algumas com presença no mercado português — tiveram a oportunidade de ficar com a mesma oportunidade, mas não quiseram.
Obviamente teve a vantagem que resulta do facto de o ativo que ele comprou se ter valorizado, mas o ativo estava disponível para quem o quisesse comprar e houve outros que não o quiseram comprar.
“Tivemos uma conclusão do processo que dá razão a quem acreditou no banco de transição, dá razão a quem acreditou no Novobanco e investiu com o seu esforço, com a sua confiança e continuou a trabalhar com o banco e, finalmente, dá razão também ao comprador intermédio que apareceu, acreditou. Obviamente teve a vantagem que resulta do facto de o ativo que ele comprou se ter valorizado, mas o ativo estava disponível para quem o quisesse comprar e houve outros que não o quiseram comprar, porque não o quiseram pagar aquele preço”, conclui.
No processo de venda do Novobanco por parte do Lone Star falou-se de vários alegados interessados, como o Caixabank, a Caixa Geral de Depósitos ou o Santander, mas Carlos Costa até vê vantagem no perfil do comprador, o BPCE. “A operação de venda foi a um preço que compara muito bem com os múltiplos europeus. E a compra é feita por uma instituição que se encaixa bem no nicho de mercado do Novobanco, de crédito a PME, e de uma geografia que permite compensar, digamos, efeitos de eventuais choques específicos de um dado país“.
E a sua opinião não se prende apenas com o lado geográfico, de ser um banco francês e não um que aumentasse a dependência do nosso mercado do capital espanhol. A solução final “tem uma filosofia de gestão que não temos no nosso mercado, se não minoritariamente, que é de um banco cooperativo. Portanto, pode ser um bom estímulo em si mesmo para que se acredite que um banco cooperativo também é um banco tão ágil e tão capaz como um banco comercial tradicional“.
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