Seguro pede “plano nacional de fusões e aquisições” para PME e critica Estado “inimigo” das empresas

Candidato apoiado pelo PS recusa comprometer-se com veto político às leis laborais e promete “não ser um primeiro-ministro sombra em Belém”. Investimento em defesa? “O problema é a má despesa".

António José Seguro alertou que o perfil de PME em Portugal, que “resultou” nos últimos anos, precisa agora de ser mudado para as empresas portuguesas ganharem dimensão para competir a nível internacional. Apesar dos vários avisos deixados ao Governo, da economia à saúde, o candidato presidencial prometeu “não ser um primeiro-ministro sombra em Belém”, caso ganhe as Presidenciais de 18 de janeiro.

Numa intervenção durante a 10.ª edição da Fábrica 2030, uma conferência organizada pelo ECO na Fundação de Serralves, no Porto, Seguro defendeu o lançamento de um “plano nacional de fusões e aquisições de PME”, pois “temos de ganhar dimensão para trabalhar na escala global e para gerar oportunidades para os jovens talentos que saem das universidades”. “É impensável um país como o nosso, com poucos recursos, fazer um esforço para capacitar as gerações jovens e depois elas não se conseguirem realizar profissionalmente em Portugal”.

Por outro lado, o ex-líder do PS alertou que é preciso “libertar a economia do peso do Estado”. “Em vez de ser um amigo de quem investe, o Estado limita, condiciona, é lento e muitas vezes não dá resposta no tempo certo”, desabafou. Da mesma forma, dando o exemplo do setor da Justiça, acrescentou que “o Estado tem de estar ao lado da economia e de quem quer empreender, e não gerar regras desnecessárias, que é burocrata, que exige, mas não dá resposta no tempo certo”.

No que toca às alterações à lei laboral propostas pelo Governo e com as quais já sinalizou anteriormente que discordava, pelo menos parcialmente, António José Seguro não quis comprometer-se com o veto ou com a promulgação do diploma que vier a chegar ao Palácio de Belém. Questionado sobre se vetará politicamente esse diploma, respondeu que daria a sua opinião caso fosse um “agente partidário”, mas um candidato a chefe de Estado não deve pronunciar-se sobre um diploma que não conhece.

“Mas já há decreto-lei?! Isto tem de ter exigência e coerência. Um dos problemas do sistema político – e nisso sou crítico do atual Presidente -, é que há um tempo para os partidos, para o Parlamento e para o Presidente da República. Quando um projeto ou decreto de lei entra no Parlamento, esse é o tempo dos partidos e dos parceiros sociais se pronunciarem. Um Presidente deve estar atento, mas o seu tempo é quando o diploma chega a Belém: analisa, ouve pessoas e organizações que não tenham sido ouvidas, e toma uma decisão fundamentada. Um Presidente da República deve falar no local e no tempo certo”, resumiu Seguro.

Devemos olhar para a Defesa como um investimento e não como uma despesa. Portugal deve manter-se na NATO, mas a Europa deve aumentar a sua autonomia estratégica na segurança e na defesa. (…) O problema é a má despesa, a má divida. Se é estratégico, então temos de investir nessa área.

António José Seguro

Candidato a Presidente da República

Já sobre o “número mágico” dos 5% do PIB gastos com Defesa a longo prazo, António José Seguro frisou que Portugal não deve fazê-lo “só para dizer que gasta mais”, mas aproveitá-lo como “um investimento estratégico e que sirva para estimular também a economia e torná-la mais competitiva”. Lembrou ainda que “é uma oportunidade grande também para as empresas portuguesas”, frisando como em vários setores e produtos, como os drones, “a mesma tecnologia pode servir a economia e a Defesa”.

“Há uma dimensão europeia, mas devemos olhar para a Defesa como um investimento e não como uma despesa. Portugal deve manter-se na NATO, mas a Europa deve aumentar a sua autonomia estratégica na segurança e na defesa. (…) O problema é a má despesa, a má divida. Se é estratégico, então temos de investir nessa área”, resumiu. E como Presidente da República diz que “[moverá] todas as [suas] influências, quer a nível nacional quer europeu, para encontrarmos soluções para um investimento estratégico na área da Defesa”, apontando as eurobonds como “uma possibilidade”.

“Acabar com trincheiras na política” e “não ser primeiro-ministro sombra em Belém”

No plano político, António José Seguro alegou que Portugal precisa de “uma nova cultura política e de compromisso, de acabar com as trincheiras e de pôr os atores políticos e económicos a remar na mesma direção”, notando que “é preciso coragem política para sairmos do impasse e termos um crescimento maior para progredirmos e vivermos com esperança”. “É isso que eu trago”, prometeu o candidato, que esteve 11 anos “completamente afastado” da vida política ativa. “Tinha uma vida tranquila. Podia ter ficado entre a Foz do Arelho e Penamacor, mas decidi sair do sofá para lutar por um bem maior, por Portugal”, reforçou.

O candidato a Belém, apoiado pelo PS, insistiu que, caso seja eleito Presidente da República, irá ter uma “atuação mais discreta”, promovendo a estabilidade política. “Não quero ser um primeiro-ministro sombra em Belém”, garantiu. “Serei um defensor da estabilidade”, completou, defendendo que “um chumbo do Orçamento não equivale a uma dissolução automática do Parlamento”.

António José Seguro, candidato presidencial, na conferência do ECO Fábrica 2030.

António José Seguro disse que vai privilegiar uma atuação mais discreta, focada no trabalho com os partidos e as várias entidades. “Estarei menos nos telejornais, mas mais a trabalhar com os partidos”, afirmou, acrescentando que “quem está todos os dias nos telejornais a falar, banaliza a sua palavra”.

O candidato presidencial alegou ainda que “ameaças à democracia existiram sempre, mas têm hoje uma dimensão muito grande”. Reconheceu que o populismo em si não é um problema, mas sim “a quantidade de veneno que existe”. “Se a dose for pequenina não há problema nenhum. Com uma lavagem ao estômago resolve-se. Mas se tem a dimensão que estamos a assistir hoje, há um problema”, ilustrou.

Pacto contra “uma saúde para ricos e para pobres”

Na conferência organizada pelo ECO, António José Seguro também não fugiu ao tema da saúde e defendeu que é preciso pôr os partidos a contribuir com propostas concretas para resolver os problemas do Serviço Nacional de Saúde (SNS). “Estamos a criar uma saúde para ricos e para pobres, isso é uma rutura” da sociedade, lamentou.

“Não conheço nenhum partido que seja contra o SNS, mas temos esta tragédia de todos telejornais abrirem todos os dias com tragédias na saúde. (…) Se todos os partidos defendem o SNS, é difícil pôr os partidos a contribuir com propostas concretas para a saúde?”, questionou ainda. Para o antigo secretário-geral socialista, um dos problemas é a “ideia dos tarefeiros”, criados para resolver o facto de “a carreira do serviço nacional de saúde não é atrativa”, tornou-se o “SNS refém deste processo”. “São situações que gangrenam na nossa situação”.

Em vez de falar já em promover um pacto de regime para a saúde, como defendeu Marcelo Rebelo de Sousa, frisou que “não devemos começar uma casa pelo telhado e temos de criar as fundações”. Questionado sobre se é preciso colocar mais dinheiro no orçamento da saúde, referiu que, tal como noutros temas, primeiro é preciso perceber se é possível fazer melhor com o dinheiro que está a ser aplicado.

Em declarações aos jornalistas, à margem deste evento na Fundação de Serralves, o candidato à Presidência da República apoiado pelo PS indicou que, caso seja eleito, começará por ter uma reunião com o primeiro-ministro e, de seguida, um encontro individual com cada líder partidário. E a prioridade será mesmo um pacto para a saúde.

“Simultaneamente, ouvirei todos aqueles que são os responsáveis pelo setor da saúde: médicos, enfermeiros, organizações hospitalares, os setores privado e social. Depois definirei um percurso, aquilo a que chamam roadmap, no sentido de receber os contributos de todos e ver onde é que há convergências para que se possa promover o acesso dos portugueses à saúde a tempo e horas”, referiu.

Seguro recusou comentar a atuação e futuro da ministra da Saúde, Ana Paula Martins, mas notou ser “inaceitável” o que está a acontecer no SNS. “Continuo indignado com esta situação que se está a passar no nosso país, em que as pessoas precisam de esperar semanas para ter uma consulta, meses ou anos para ter uma intervenção cirúrgica, onde quem sofre é quem tem menos dinheiro e onde os fins de semana são um pesadelo para saber qual é a urgência que está aberta. É inaceitável”, conclui.

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