Efeito Web Summit nos hotéis e alojamentos está “mais contido”, mas continua a animar reservas
Mais de 40% dos hoteleiros de Lisboa antecipam procura inferior à do ano passado. Apesar da queda, cimeira tecnológica eleva reservas de novembro e mantém-se como ímpeto à notoriedade da região.
“Mais contido” e “a diminuir”, mas ainda “importante” e “relevante” para o turismo em Portugal. É desta forma que a hotelaria e os alojamentos turísticos caracterizam o impacto de mais uma Web Summit no seu negócio. O maior evento de tecnologia do país é merecedor de uma ‘bolinha’ especial no calendário dos hotéis, apesar de (já) não chegar para encher os seus quartos na totalidade.
“É um evento com impacto relevante para Lisboa, e também para a hotelaria, claramente em razão da forte procura internacional. Ao longo dos anos tem-se verificado um diferencial positivo na performance da hotelaria — quer da cidade quer da região — entre a semana em que ocorre a Web Summit e o resto do mês, seja em termos de taxa de ocupação seja de preço médio praticado”, disse ao ECO a vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), Cristina Siza Vieira.
O “Balanço Web Summit 2024” da AHP indicou que a semana do evento registou uma taxa de ocupação de 88% na hotelaria lisboeta, mais um ponto percentual face e 2023. Questionados sobre se tiveram reservas de participantes na cimeira, 76% dos hotéis inquiridos confirmaram, valor abaixo dos 88% no ano anterior. Já o preço médio aumentou 4% para os 221 euros por noite.
Para a conferência de 2025, ninguém se compromete com previsões de reservas, refugiando-se no facto de ainda faltarem uns dias para as principais datas da conferência (os dias 11, 12 e 13 de novembro) e as reservas estarem a decorrer. A verdade é que, no ramo corporativo, tanto os bilhetes de entrada como as passagens de avião e marcações de dormidas dos representantes das empresas, geralmente são agendadas com alguma antecedência
A AHP não tem informação específica sobre o que esperar da ocupação hoteleira da cidade de Lisboa durante a Web Summit deste ano, embora os sinais sejam menos animadores. “As respostas ao nosso inquérito “Perspetivas Outono 2025”, que correu no passado mês de outubro, indicavam que as reservas em Lisboa para novembro apresentavam um comportamento mais contido do que no resto do país, inclusive com 42% dos hoteleiros da cidade a indicarem uma procura, ao tempo, inferior à do ano passado”, conta a vice-presidente executiva da AHP.

“Apesar de o impacto ser hoje mais moderado, a Web Summit mantém-se como um momento importante no calendário da hotelaria e do alojamento local em Lisboa. Nos primeiros anos, teve um impacto muito expressivo nas reservas, com um aumento acentuado da procura e das tarifas. No entanto, esse efeito tem vindo a atenuar-se gradualmente, refletindo a maturidade do mercado de alojamento local em Lisboa e o crescimento significativo da oferta disponível”, explica o diretor-geral da GuestReady em Portugal, Rui Silva.
Procura cresce 30% em apartamentos modernos
O diretor da gestora de alojamentos considera “prematuro” fazer uma comparação homóloga, pois “faltam alguns dias para o início do evento” e continuam a registar novas reservas, mas denota que “o impacto do Web Summit nas reservas tem vindo a diminuir gradualmente ao longo dos últimos anos, acompanhando a evolução natural do mercado e o aumento da oferta de alojamento em Lisboa”.
Em 2024, a GuestReady teve uma taxa média de ocupação próxima dos 90%, perfazendo um acréscimo de aproximadamente 20% face ao resto do mês de novembro tanto na ocupação como nas tarifas cobradas. “Temos também verificado um crescimento assinalável na procura nas nossas multi units, onde a experiência se aproxima dos padrões hoteleiros — um segmento em que a taxa de ocupação aumentou cerca de 30% neste período da conferência. Já nas unidades independentes (single units), o efeito da conferência é, por agora, menos significativo”, detalha Rui Silva.
A 10ª edição da Web Summit em Lisboa arranca na segunda-feira e esperam-se dezenas de milhares de participantes, entre empreendedores, investidores, gestores, representantes de instituições e jornalistas portugueses e internacionais. Nem todos precisam de reservar um sítio para dormir nas próximas noites, mas a grande maioria dos hoteleiros garante que ganha com os ‘Web Summiters’ — até mesmo quem não tem espaços no centro da cidade ou no Parque das Nações, como o Vila Galé. O Pestana também é um desses casos, embora tenha optado por não prestar comentários.
O grupo Vila Galé, o segundo maior da hotelaria em Portugal, está a registar “uma boa procura” para o hotel que tem em Lisboa, o Vila Galé Ópera na zona das Docas, que nos três dos dias da Web Summit está “muito próximo” dos 100% de ocupação. A procura para estas datas está até superior em cerca de 5% em relação ao ano passado.
“É um evento interessante pela projeção e notoriedade que dá a Lisboa, e não só pela ocupação desses dias”, diz o diretor de marketing e vendas, Pedro Ribeiro, ressalvando que o impacto na empresa se restringe essencialmente a um dos 34 hotéis que têm em Portugal — o de Lisboa — e a três ou quatro dias do ano.

O alojamento local admite que longe vão os tempos áureos em que a Web Summit era um boom de negócio, embora a contagem seja influenciada pela dinâmica do mercado, caracterizado por outras opções para dormida. O presidente da Associação do Alojamento Local em Portugal (Alep), Eduardo Miranda, reconhece que a cimeira não é suficiente para que os estabelecimentos esgotem, mas não duvida da sua importância em três frentes: Portugal em geral e alojamento local e Lisboa em particular.
A Web Summit é um evento importante para Lisboa e para o país, com impacto positivo no AL, sobretudo por decorrer numa época de menor procura. Apesar de o aumento das reservas não gerar ocupação total, ele contribui para dinamizar o setor num período tradicionalmente mais calmo
O relatório “Impacto Económico da Web Summit 2016-2028″, do Gabinete de Estratégia e Estudos (GEE) do Ministério da Economia, projetou um máximo de quase 600 mil dormidas daqui a três anos devido a este certame. O esquema dos técnicos envolve os cenários A e B com uma estadia média de cinco noites e um cenário C composto por quatro noites para quem chega a Portugal apenas na véspera ou vai embora logo após os quatro dias de evento. “Para 2028, projeta-se um total de dormidas entre 592,9 mil no cenário A e B, e 355,7 mil no cenário C, correspondentes a 88,9 mil e a 103,1 mil participantes estrangeiros e profissionais, respetivamente”, lê-se na análise da GEE.
Na base deste documento estão dados como os do “Inquérito ao Congressista”, elaborado pelo Observatório do Turismo de Lisboa, cuja edição mais recente (2024) está em linha com as declarações dos operadores turísticos sobre a Web Summit. Aliás, quatro em cada dez congressistas (40,9%) disseram que era “muito provável” voltarem a Lisboa, enquanto no ano anterior mais de metade (51,7%) admitia um regresso à capital.
Provável será também que o caos no aeroporto Humberto Delgado traga consequências reputacionais — como até alerta o ministro das Infraestruturas — e seja um fator na decisão de regressar em 2026. Inclusive a organização da Web Summit chamou esta quarta-feira à atenção para a escassez de faixas horárias (slots) para aterragem e descolagem de jatos privados nos aeródromos da região de Lisboa.
O Aeroporto de Lisboa enfrenta dificuldades em gerir o volume de tráfego, o que resulta na falta de horários disponíveis para descolagens e aterragens em todas as operações”, informa a empresa em comunicado.
Cada participante fica cinco dias
O inquérito concluiu ainda que a estadia média por participante em conferências no país é de 5,2 dias, mas para 4,2 noites a despesa média por participante em conferências nacionais é de 215,40 euros cada noite dormida. Este valor, somado aos gastos com alimentação, transportes, inscrição (bilhete) e compras faz com que a a despesa média por participante fique na ordem dos 3.863,91 euros pela sua presença num destes eventos, o que corresponde a um aumento de 20,5% em relação a 2023. Para a Web Summit 2025, há passes disponíveis entre os 1.595 euros e os 2.450 euros (sem considerar eventuais descontos).
A Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa (ERT-RL) adianta ao ECO que a estadia média dos participantes na Web Summit anterior foi precisamente de 5,4 dias, “um dado expressivo que reflete a relevância do evento e o potencial turístico de Lisboa”. “O nosso objetivo é continuar a aumentar esta média, incentivando os visitantes a permanecer mais tempo na região e a descobrir a sua riqueza cultural, gastronómica e natural”, refere a presidente da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa (ERT-RL), Carla Salsinha.
A expectativa é que continue a reforçar o impacto positivo no turismo da cidade e da região. Oradores, expositores e visitantes contribuem significativamente para a economia local, através do aumento da estadia média e dos gastos em hotelaria, restauração, comércio e serviços. Representa uma oportunidade única para dar a conhecer a diversidade e a qualidade da oferta turística, o que potencia futuras visitas e investimentos.
A feira tecnológica do irlandês Paddy Cosgrave chegou a Lisboa em 2016 e tem um acordo com a autarquia para se manter na capital portuguesa mais três anos. Entre as entidades que rubricaram a parceria estão a Câmara Municipal de Lisboa, o Turismo de Portugal, a Associação de Turismo de Lisboa, a Aicep – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, o IAPMEI e o CIL – Connected Intelligence Limited.
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