2026, um ano de arrefecimento dos salários?

Num cenário marcado por vários fatores (nacionais e internacionais) de incerteza, especialistas antecipam abrandamento dos salários. Ainda assim, aumentos deverão ser, em média, superiores à inflação.

Os salários de quem trabalha em Portugal deverão continuar a subir em 2026, mas os especialistas antecipam que os reforços deverão ser menos expressivos do que nos últimos anos. A redução da inflação, a atualização dos escalões de IRS em 3,51% e o cenário de incerteza são alguns dos fatores que deverão guiar a evolução das remunerações neste novo ano.

Vamos por partes. Marco Arroz, national senior manager de recrutamento e seleção especializado do Clan, sublinha que, neste momento, as previsões para 2026 remetem para um “crescimento moderado em determinados setores, embora com um claro abrandamento face a 2025”. Também Marta Dias, rewards leader da Mercer Portugal, aponta nesse sentido, apoiando-se nos dados mais recente do estudo “Total compensation”, que perspetiva um aumento geral dos salários de 3,5% em 2026, ou seja, 0,1 pontos percentuais abaixo de 2025 e um ponto percentual abaixo de 2024.

E o que explica essa trajetória? “Face ao decréscimo da inflação, os valores perspetivados pelas organizações para incrementos salariais têm vindo a ser ajustados, voltando a aproximar-se ao observado no passado”, explica a responsável da Mercer. A este fator, Pedro Braz Teixeira, economista e diretor do gabinete de estudos do Fórum para a Competitividade, acrescenta outro: a taxa de atualização dos escalões do IRS (que deverá ser 3,5%). “Acaba por constituir uma espécie de travão para aumentos superiores, para os quais haverá um agravamento fiscal”, argumenta o especialista.

Ainda assim, Pedro Braz Teixeira salienta que a inflação esperada para 2026 é de 2,1%, segundo as estimativas do Governo. Ora, aumentos salariais acima de 2,1% já permitem ganhos reais. “É muito provável que isso ocorra em média e mesmo na generalidade dos casos”, assinala. “Apesar de mais baixos que em anos anteriores, os incrementos salariais oferecidos pelas empresas superam o valor da inflação, permitindo que exista um ganho real para os colaboradores”, concorda Marta Dias.

Tecnologia e construção poderão superar média

Nem todos os setores da economia portuguesa deverão ter o mesmo comportamento, em termos de evolução salarial, em 2026. Nos mais dinâmicos, as dificuldades em contratar talento poderão resultar em aumentos superiores aos tais 3,5%, frisa o economista Pedro Braz Teixeira, que identifica o setor das tecnologias de informação e digitalização, o da construção e obras públicas e o setor dos serviços de segurança privada como aqueles que poderão superar a média.

Pedro Amorim concorda. “Existem perfis com certas competências e setores onde as necessidades das empresas e a escassez de talento vão ditar aumentos mais elevados, de forma a atrair e reter essas skills críticas”, afirma o corporate sales director do ManpowerGroup. “Os perfis com competências especializadas em áreas como IA, cibersegurança, data analytics, hotelaria, retalho, logística, transportes e construção” são aqueles que “continuarão a ser fortemente procurados”, destaca.

Já os setores do turismo e dos serviços deverão ser aqueles com os acréscimos mais moderados. “Considerando que um número significativo de empresas nestas áreas, particularmente as pequenas e médias empresas, opera com margens de rentabilidade reduzidas, prevê-se que estas prossigam a enfrentar constrangimentos inerentes à gestão dos custos operacionais”, observa Marco Arroz.

Além destes, o national senior manager de recrutamento e seleção especializado do Clan aponta o setor dos serviços administrativos de rotina, a indústria e o comércio a retalho como as áreas onde os salários deverão ter um crescimento mais moderado no novo ano. Em causa estão funções, que, em vários casos, são caracterizadas por um baixo nível de especialização e qualificação, nas quais o dinamismo salarial tende a ser mais contido.

Salário mínimo sobe mais 50 euros e atinge 920 euros

Subida mais expressiva do que a do salário médio deverá ter o salário mínimo português em 2026. O acordo tripartido sobre valorização salarial e crescimento económico, assinado em outubro de 2024 na Concertação Social, prevê reforços anuais de 50 euros da retribuição mínima garantida até 2028, e é isso que vai acontecer em janeiro. Ou seja, o salário mínimo nacional passará dos atuais 870 euros para 920 euros, o correspondente a um salto de cerca de 5,7%.

Embora a UGT tenha questionado o Governo sobre a possibilidade de ir além do acordo — como foi feito por Executivos anteriores, e até pelo primeiro Executivo de Luís Montenegro face ao entendimento que vigorava na altura —, não encontrou grande abertura do outro lado da mesa para isso.

Num primeiro momento, a ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, ainda disse aos jornalistas que “não abria nem fechava a porta” a um aumento da retribuição mínima garantida acima do acordo tripartido. Mas, na proposta de Orçamento do Estado para 2026, o Governo assume, várias vezes, os referidos 920 euros.

Além disso, numa audição parlamentar no final de outubro, a ministra da tutela garantiu que vai cumprir o acordo (sinalizando, assim, que não irá mais longe). “O Governo oportunamente irá, como é óbvio, publicar o diploma do salário mínimo para 2026, em cumprimento do acordo”, explicou Maria do Rosário Palma Ramalho.

De notar que, como o país voltou às urnas já depois de ter sido assinado o acordo tripartido, o (agora segundo) Governo de Luís Montenegro atualizou a sua meta para o salário mínimo nacional, para 1.100 euros até 2029.

Mantendo-se a trajetória dos aumentos anuais de 50 euros até 2028, no último ano o Governo teria de fixar uma subida de 80 euros da retribuição mínima garantida.

Em setembro, em entrevista ao ECO, a ministra da tutela admitia, por isso, rever os aumentos previstos para os próximos anos. “Há um acordo em vigor. O programa elevou a meta para 1.100 euros no fim da legislatura. É prematuro fixar o momento. Teremos de olhar para os números para não ficar um salto de 100 euros no último ano. Pode ser mais adequado diluir ao longo da legislatura”, disse, na altura, Palma Ramalho. Mas, pelos sinais até agora emitidos, essa diluição não acontecerá já em janeiro.

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