Corrida a cinco pela segunda volta das presidenciais em clima de fragmentação à direita
As presidenciais entram na reta final, marcadas pelas sondagens e pela quase certa ida à segunda volta. Saúde, Conselho de Estado, assédio sexual e alinhamento de tropas dominaram a campanha.
Três mortes à espera do socorro do INEM, Conselho de Estado pelo meio sobre a guerra na Ucrânia e crise na Venezuela, assédio sexual e a gafe de Cotrim de Figueiredo, muitas arruadas e comícios, a aparição de Luís Montenegro a tentar salvar Marques Mendes, o artigo de opinião de Cavaco Silva sobre a disputa do legado de Sá Carneiro, o eterno evocado Passos Coelho, a união dos socialistas em torno de Seguro e o elogio de Santana Lopes, a fragmentação do eleitorado à direita, a fidelização do voto em André Ventura e a esquerda relegada para segundo plano nas sondagens. Assim foram as duas semanas de campanha para as eleições presidenciais de 18 de janeiro, que hoje termina. E tudo aponta que haverá mais, com os candidatos a fazer mira para a segunda volta a 8 de fevereiro num desesperado apelo ao voto útil.
A campanha entrou numa fase decisiva marcada pela incerteza, pela centralidade das sondagens e por um debate político frequentemente deslocado dos poderes constitucionais do Presidente da República para a agenda do Governo. Para os politólogos ouvidos pelo ECO, trata-se de uma das corridas a Belém mais abertas das últimas décadas, com cinco candidatos ainda em condições reais de disputar um lugar na segunda volta.
Nas eleições mais concorridas de sempre (11 candidatos), as últimas sondagens, que não refletem os últimos dias de campanha, colocam André Ventura como o mais votado para Belém, seguido por António José Seguro (na sondagem da Universidade Católica para a RTP, Público e Antena1 e na da Aximage para o Diário de Notícias) ou por Luís Marques Mendes (na sondagem da Intercampus para o Correio da Manhã, CMTV e Now), com Cotrim de Figueiredo à espreita.
Para Bruno Ferreira Costa, professor de Ciência Política na Universidade da Beira Interior, esta foi uma campanha híbrida, que conjugou os formatos tradicionais — ações de rua, mercados, comícios e jantares — com uma aposta clara no espaço mediático e digital. “Embora a televisão continue a ser o principal meio de acesso à informação eleitoral para uma larga franja do eleitorado, muitos dos conteúdos com maior impacto foram pensados para as redes sociais”, sublinha.
O politólogo nota ainda que a campanha ficou fortemente marcada por temas associados ao poder executivo e não tanto pelas competências presidenciais. Uma opção estratégica que poderá resultar tanto da necessidade de captar eleitorado dos partidos como da pressão para responder às preocupações mais imediatas dos cidadãos. “A escalada de ataques pessoais e a judicialização do debate político” acabaram por ser outra das marcas dominantes, aponta.
Uma leitura próxima é feita por Marco Lisi, do departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que considera que a campanha se centrou excessivamente na agenda governativa e nos temas impostos pela dinâmica mediática, “não necessariamente coincidente com a opinião pública”. Na sua perspetiva, falou-se pouco do papel do Presidente na garantia da estabilidade política, das alianças parlamentares ou da relação futura com o Chega — um debate que ganhou força em novembro, mas que entretanto desapareceu do centro da campanha. As reformas estruturais de médio e longo prazo também ficaram, em grande medida, fora do radar.
Vencedores e derrotados (para já)
A identificação de vencedores e derrotados divide os analistas, mas há alguns consensos. Para Bruno Ferreira Costa, os principais perdedores são os candidatos à esquerda de António José Seguro, incapazes de justificar e afirmar candidaturas próprias, com fraca mobilização e uma perceção generalizada de que concorrem sobretudo por motivos partidários. Também Marques Mendes enfrenta dificuldades, pressionado por ataques ao seu percurso profissional e por uma limitada capacidade de mobilizar o eleitorado do centro-direita e da Aliança Democrática (AD), coligação que junta PSD e CDS.
No campo dos vencedores, Bruno Costa aponta uma campanha “sem erros” de António José Seguro, que conseguiu unir os socialistas e até captar o elogio do ex-social-democrata, Pedro Santana Lopes, e de André Ventura, ambos confortáveis com o discurso e com a estratégia adotada. Ventura deverá conseguir reter e consolidar o eleitorado do Chega.
Henrique Gouveia e Melo tem protagonizado uma campanha tranquila, mas surge agora como outsider, depois de meses a liderar expectativas. Já Cotrim de Figueiredo aparece em crescendo, assumindo-se como uma possível voz da direita moderada e com reais hipóteses de discutir a passagem à segunda volta, apesar de alguns percalços recentes.
A campanha de Cotrim de Figueiredo acabou por ficar marcada pela denúncia pública de um alegado episódio de assédio sexual, surgida num momento em que o candidato registava crescimento nas sondagens e começava a ser apontado como potencial protagonista na corrida à segunda volta. A acusação dominou a agenda mediática durante vários dias, desviando o foco do debate político e obrigando o candidato a reagir publicamente, rejeitando as alegações e defendendo a presunção de inocência, ao mesmo tempo que admitia a necessidade de esclarecimento judicial. Para além disso, a gafe sobre um eventual apoio à candidatura de Ventura numa segunda volta também minou o percurso de Cotrim em ascensão.
André Azevedo Alves, professor de Ciência Política da Universidade Católica Portuguesa, sublinha o caráter excecionalmente aberto destas presidenciais, com “cinco candidatos com possibilidades reais” de chegar à segunda volta. Na sua análise, os principais perdedores são Gouveia e Melo — devido a uma estratégia errática e a um desempenho fraco nos debates — e Marques Mendes, incapaz de se afirmar como líder claro no centro-direita, apesar do apoio partidário.
O aparecimento de Luís Montenegro na campanha de Luís Marques Mendes foi um dos momentos politicamente mais relevantes da corrida presidencial, sinalizando um apoio explícito da liderança do PSD a uma candidatura que até então tinha revelado dificuldades em afirmar-se como referência mobilizadora no centro-direita. A presença do primeiro-ministro e líder do PSD procurou reforçar a legitimidade política de Marques Mendes junto do eleitorado social-democrata e transmitir uma imagem de unidade partidária, mas também evidenciou os limites dessa estratégia, numa campanha em que o apoio formal dos partidos nem sempre se traduziu em entusiasmo de base ou em ganhos claros nas sondagens.
Seguro beneficiou de uma estratégia serena que o consolidou como agregador no centro-esquerda. Marco Lisi considera que, independentemente do resultado final, Seguro já sai como vencedor político, sobretudo pela decisão de avançar sem um apoio inequívoco do seu partido. Os grandes derrotados, defende, são os candidatos da esquerda partidária, que não conseguiram influenciar o debate nem mobilizar o eleitorado num momento em que “o país precisa de unidade e não de divisões”, o que poderá ter custos eleitorais a curto prazo.
Quanto ao impacto da campanha no sentido de voto, os três politólogos convergem num ponto essencial: esta eleição está longe de estar decidida. Bruno Ferreira Costa destaca “o número significativo de indecisos” e “a percentagem relevante de eleitores que admite mudar de posição”. A intensidade dos ataques, os desenvolvimentos judiciais e os cenários possíveis para a segunda volta poderão ainda provocar mudanças de última hora.
André Azevedo Alves lembra que “as campanhas influenciam sempre” e que, num contexto tão competitivo, pequenas variações podem ter efeitos decisivos. Marco Lisi acrescenta que a ausência de um alinhamento claro entre as bases do PS e do PSD e os seus respetivos candidatos aumenta a liberdade de escolha dos eleitores. As sondagens e os cálculos estratégicos para garantir a passagem à segunda volta poderão levar muitos votantes a apoiar candidatos diferentes dos que tradicionalmente preferem.
Num cenário de fragmentação, incerteza e voto estratégico, a reta final da campanha promete ser decisiva para definir quem segue para a segunda volta — e que tipo de mandato presidencial o país poderá vir a ter.
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