BRANDS' ECO Inovação no ‘Velho Continente’
A Europa tem um défice de inovação crónica e para reverter esta tendência são necessários apoios governamentais e privados mais fortes.
A Fortune publica todos os anos a lista das 500 maiores empresas do mundo por receita, a Fortune 500. Os Estados Unidos lideram com 138 empresas, seguidos da China (124) e do Japão (38). Portugal continua sem nenhuma na lista, mas o conjunto dos países europeus tem cerca de 120 (24% do total).
Ao analisar essas gigantes europeias em detalhe, vemos que a maioria são empresas centenárias, fundadas no século XIX ou início do XX (como Volkswagen, Shell ou Santander, este último em 1857). Nas últimas listas, uma única empresa europeia foi criada de raiz nos últimos 50 anos, a Inditex, dona da Zara! Em comparação, a Califórnia (uma ‘mero’ estado americano) tem mais de 20 empresas na Fortune 500, muitas fundadas desde 1975, como a Apple, Alphabet (Google) ou a Oracle. Enquanto as grandes europeias dominam setores tradicionais (automóvel, energia, banca), as inovadoras de tecnologia, medicina, etc são maioritariamente americanas ou asiáticas.
Há várias razões para a Europa não gerar tantas empresas inovadoras de sucesso como os EUA: aposta em Investigação & Desenvolvimento (I&D); investimento em educação; acesso a financiamento para startups; e economias de escala.

Investigação & Desenvolvimento. Para lançar produtos disruptivos, é essencial investir em I&D. Empresas, universidades e o governo dos EUA gastam 3.4% do PIB (cerca de 800 mil milhões de dólares), contra 2.3% na UE. Para igualar, a Europa precisaria de mais 200 mil milhões de euros anuais em I&D – um gap que perpetua a dependência de inovações importadas.
Educação. O sucesso empresarial exige talento qualificado em engenharia, IA, gestão. Os EUA investem o dobro por aluno no ensino superior (37 mil dólares por estudante vs. média OCDE de 18 mil), fomentando laços estreitos entre as universidades e as empresas, como é o caso da Universidade de Stanford e o cluster tecnológico de Silicon Valley na Califórnia.
Financiamento empresarial. Todo o empreendedor sabe que o arranque exige capital disponível. Na Europa os bancos hesitam em investir em empresas com riscos altos e os apoios vindos da União Europeia tendem a ser lentos e com carga burocrática. Nos EUA, empresas de capital de risco (venture capital) injetaram 209 mil milhões de dólares em empresas no ano de 2024, enquanto na Europa apenas foram canalizados 60 mil milhões – um fosso que impede o rápido crescimento. Foi assim que casos como a Google ou o Facebook cresceram.
Economias de escala. Os EUA são um mercado único de 330 milhões de pessoas, uma única língua, e regras harmonizadas, o que é ideal para crescer rápido. Na Europa, apesar do “mercado único”, há línguas múltiplas, fiscalidade diferente e regulação nacional díspar, o que torna mais custoso servir todo o mercado.
Na Europa, e em Portugal, esta falta de inovação e reduzidas economias de escala são um problema crónico para a economia. Isso é ainda mais gritante na região do Algarve onde o Valor Acrescentado é dominado pelo turismo, com forte sazonalidade, vulnerável a crises externas e onde predominam PMEs de baixa produtividade com pouca tecnologia. No entanto começa a haver aspetos positivos: o Algarve tem o maior número de empresas desde 2008 (94 mil) e está a triplicar o número de empresas de média a alta tecnologia que cria todos os anos, o que é um óptimo passo para a diversificação.
Sem diversificação em setores com tecnologia de ponta (por exemplo em energias renováveis, Inteligência Artificial ou Biotech), a região arrisca-se a ficar para trás numa nova fase de crescimento tecnológico. Hoje em dia usando Inteligência Artificial uma nova empresa de sucesso pode ser criada em qualquer ponto do mundo, e isto é uma oportunidade de ouro que não pode ser desperdiçada. É necessário um maior investimento em I&D regional, mais aceleradoras de empresas, incentivos para atrair venture capital e mais investimento e apoio ao empreendedorismo para captar esta oportunidade.
Os governos europeus e português facilitam a criação de empresas (em Portugal, cria-se uma empresa online em minutos). Esperemos que haja mais investimento em tecnologia e empreendedorismo para que as próximas inovações não venham de São Francisco ou Xangai, mas também de Lisboa, Porto ou Faro!
Este artigo expressa apenas a opinião do seu autor, não representando a posição das entidades com as quais colabora.
Joaquim Nascimento é CEO da Kapisci, Professor Auxiliar Convidado na Faculdade de Economia da Universidade do Algarve e Presidente da associação Algarve Evolution. Licenciado em Economia no ISEG e MBA na Manchester Metropolitan University.
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