Um “independente” contra o “não-socialista” na segunda volta

Seguro deu nova vida ao PS e discursou como se já fosse Presidente. André Ventura celebrou "derrota do 'montenegrismo'" e diz que quer agregar e liderar o espaço da direita.

“Boa noite presidente”, gritou um dos apoiantes antes de António José Seguro fazer o último discurso da noite nas Caldas da Rainha. E o candidato discursou como se já estivesse certo em Belém, prometendo ser o “Presidente de todos os portugueses”. Vai defrontar André Ventura, que teve de esperar algumas horas para ter a certeza de que não seria ultrapassado por Cotrim, e disse querer agregar e liderar a direita, num desafio a Luís Montenegro.

O candidato que boa parte do PS começou por enjeitar teve 31,1% dos votos, uma percentagem bem mais elevada que os 22,8% que o partido conseguiu nas últimas legislativas. Teve também mais 310 mil votos.

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A vitória dá novo fôlego ao partido e o secretário-geral do PS foi dos primeiros a falar no domingo à noite para celebrar a vitória e apelar ao voto dos “social-democratas e democratas-cristãos” em Seguro. Carneiro aproveitou a embalagem para convocar eleições diretas e um congresso para se legitimar de novo como líder do PS, avançou o Expresso. Apesar de o site do partido exibir uma enorme imagem com os dois juntos, Carneiro não se deslocou às Caldas.

Com a nossa vitória venceu a democracia e voltará a ganhar a 8 de fevereiro. (…) Unidos vamos derrotar o extremismo.

António José Seguro

Candidato às eleições presidenciais

Até porque a estratégia de Seguro para alargar o voto passa por se colocar acima do PS. “Recebi votos de todos os quadrantes políticos, o que reflete a natureza independente desta candidatura“, afirmou no discurso, que foi também o seu primeiro momento de campanha para a segunda volta, visando André Ventura. “Com a nossa vitória venceu a democracia e voltará a ganhar a 8 de fevereiro. (…) Unidos vamos derrotar o extremismo”, disse.

 

António José Seguro na noite eleitoral das presidenciais 2026Henrique Casinhas/ECO

André Ventura começou por prever uma “noite longa”, com as sondagens a admitirem a possibilidade de Cotrim de Figueiredo chegar à segunda volta, que seria desfeita perto das 22h00. No discurso ao final da noite, o candidato apoiado pelo Chega visou o seu real adversário político: “Conseguimos derrotar o ‘montenegrismo'”.

O candidato conseguiu fidelizar o seu eleitorado, obtendo quase tantos votos como nas legislativas (uma diferença de 116.500 votos). “Estamos a fazer despontar uma nova alternativa. Hoje era sobre liderar a direita. Amanhã é sobre agregar a direita“, tinha afirmado André Ventura, algum tempo antes, ao chegar ao hotel.

Estamos a fazer despontar uma nova alternativa. Hoje era sobre liderar a direita. Amanhã é sobre agregar a direita.

André Ventura

Candidato às eleições presidenciais

Se Seguro apelou aos “democratas, humanistas e progressistas”, André Ventura enquadrou a segunda volta comouma luta do espaço não-socialista contra o espaço socialista“. “Segundo o voto das pessoas eu venci o espaço da direita. Agora é se querem um socialista ou alguém da direita”, acrescentou, atirando ainda que “Seguro é o representante de tudo o que o país não deve aceitar”.

André Ventura na noite eleitoral das presidenciais 2026Hugo Amaral/ECO

Só que da direita não veio qualquer apoio, para nenhum dos candidatos. Foi o caso de Cotrim de Figueiredo, que acabou em terceiro lugar, à beira dos 16%, longe da proximidade com Ventura que várias sondagens lhe davam.

Temos uma maioria social de centro-direita e provavelmente vai ganhar o candidato socialista. Tal terá ficado a dever-se a um erro estratégico da liderança do PSD.

João Cotrim Figueiredo

Candidato às eleições presidenciais

Apesar da “derrota pessoal”, o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal viu no seu resultado “o nascimento de um movimento de renovação. Hoje não tem de ser um fim, pode ser a abertura de um caminho para que alguém possa trilhar”, disse no seu discurso. É que Cotrim teve mais 65,7% de votos do que a IL teve nas últimas legislativas.

“Temos uma maioria social de centro-direita e provavelmente vai ganhar o candidato socialista”, lamentou o candidato liberal, responsabilizando Luís Montenegro: “Tal terá ficado a dever-se a um erro estratégico da liderança do PSD“.

Esta candidatura foi minha e assumo por inteiro a responsabilidade por este resultado. A responsabilidade é minha, toda minha e apenas minha.

Luís Marques Mendes

Candidato às eleições presidenciais

Esse erro, deduz-se, foi ter mantido a candidatura de Luís Marques Mendes, que teve o resultado mais desapontante da noite, ficando em quinto lugar com 11,3%. Para o PSD, foi o primeiro desaire eleitoral desde as legislativas de março de 2024, depois de ter ganho as europeias, de novo as legislativas em 2025 e as autárquicas.

O candidato, que teve o apoio do primeiro-ministro e de vários ministros, mas não conquistou o eleitorado social-democrata, procurou sublinhar que a responsabilidade pelo resultado foi só sua: “Esta candidatura foi minha e assumo por inteiro a responsabilidade por este resultado. A responsabilidade é minha, toda minha e apenas minha“. Luís Montenegro solidarizou-se e considerou o resultado uma “consequência de no nosso espaço político ter havido divisão de votos, que não aconteceu no outro espaço político”, colocando o partido de fora da segunda volta: “o PSD não estará envolvido”.

Nesta segunda volta não estará representado o nosso espaço político. Aceitamos essa escolha democrática e o PSD não estará envolvido.

Luís Montenegro

Primeiro-ministro

Marques Mendes ficou atrás de Gouveia e Melo, com quem teve uma disputa acesa nos debates e durante a campanha. O almirante na reserva, que chegou a ser considerado favorito a vencer as presidenciais, teve 12,3%. Fiel à sua campanha, repetiu a necessidade de “despartidarizar” a Presidência e disse ser “precoce” indicar um voto para a segunda volta.

Indicações só mesmo da esquerda, sempre para António José Seguro, cujo apelo ao voto útil terá penalizado os vários candidatos daquele espaço político. Catarina Martins não foi além de 2,06%. António Filipe, com 1,64%, teve o pior resultado de um candidato apoiado pelo PCP em presidenciais. O candidato apoiado pelo Livre, Jorge Pinto, teve apenas 0,68%, conseguindo menos votos do que Manuel João Vieira (1,08%).

A única coisa que uniu todos os candidatos nesta primeira volta foram os elogios à elevada participação dos portugueses nestas eleições. A taxa de abstenção foi de 47,65%, a mais baixa desde 2006, quando Cavaco Silva foi eleito para o primeiro mandato. Dia 8 de fevereiro há mais.

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