Cimenteiras têm plano de 2,2 mil milhões de euros para armazenar carbono

Associação que une Cimpor e a Secil apresenta um projeto, que exige mais de dois mil milhões até 2045, para direcionar o carbono da indústria para armazenamento no mar.

A ATIC – Associação Portuguesa de Cimento, que tem como associadas a Cimpor e a Secil, apresentou esta sexta-feira um projeto de 2,2 mil milhões de euros que prevê a construção de uma rede de transporte de carbono e o respetivo armazenamento numa bacia oceânica ao largo da costa, no centro do país.

O projeto chama-se “PT Carbon Link” e pretende implementar a captura, transporte e armazenamento de carbono em Portugal. Foi apresentado por Otmar Hübscher, vice-presidente da ATIC, como “a solução necessária para a descarbonização da indústria nacional”.

A secretária-geral executiva da ATIC, Cecília Meireles, frisou na mesma ocasião que 60% das emissões da indústria cimenteira são inerentes ao processo de produção, pelo que não podem ser evitadas ou reduzidas com ganhos de eficiência. Nesse sentido, para estas, “só há uma solução tecnologicamente possível, a captura, e tem de haver um destino para o carbono“.

Num contexto em que as licenças europeias “para poluir”, que colocam um preço no carbono, estão a tender para zero — devem ser eliminadas em 2040 –, a partir desse ano, a indústria tem de arranjar alternativas para a sua continuidade. “Ao começar hoje [com o projeto] já estamos a começar tarde, face ao nosso prazo limite“, alertou Cecília Meireles.

É neste sentido que a ATIC projetou o “PT Carbon Link”. Trata-se de uma rede de 680 quilómetros de gasodutos, que pretende cobrir o país de forma a facilitar o acesso aos principais emissores industriais, não apenas as cimenteiras.

A infraestrutura está planeada para ser gerida num modelo de concessão, que seria atribuída por um período de 35 anos. O desenvolvimento estaria a cargo de um operador, “garantindo mecanismos de controlo de risco e compromisso de utilização”, lê-se na apresentação.

O local de armazenamento estudado para o projeto é a Bacia Lusitânica, que se estende pela zona centro (Pombal a Lisboa, sensivelmente). Tem cerca de 200 quilómetros de extensão, e possui uma capacidade mínima de armazenamento de 90 milhões de toneladas, o suficiente para suprir as necessidades de armazenamento de Portugal “ao longo de várias décadas”. A bacia tem um conjunto de reservatórios onde seria possível armazenar o carbono, e teriam de ser feitos diferentes poços para chegar a esses reservatórios, explicou, à margem, Filipe Torres, partner da consultora BCG Lisboa. À margem, a ministra do Ambiente, MAria da Graça Carvalho, sublinhou que têm de ser estudadas as consequências do armazenamento em termos ambientais.

Para a construção de toda a rede e de vários poços de armazenamento, é necessário investir os 2,2 mil milhões ao longo de 20 anos, a aplicar até 2045. O partner da consultora BCG esclareceu também à margem que o financiamento do projeto deverá ficar a cargo dos operadores privados, não estando previstos apoios estatais.

À parte, são contabilizados os custos da captura em si, que ficam a cargo dos emitentes de carbono, isto é, a indústria. Estes investimentos estão na ordem dos 200 a 300 milhões de euros por cada unidade.

Uma vez que o investimento ficará a cargo dos privados, o que o estudo conclui é necessário o apoio do Estado para garantir um enquadramento que permita estes desenvolvimentos. Filipe Torres apelou a uma autorização para avançar com a fase piloto até 2028. De acordo com o calendário do projeto, o início da fase piloto deveria verificar-se até 2030, para que a fase comercial possa arrancar a partir de 2033, e as primeiras injeções se realizem em torno de 2036.

Na apresentação, Filipe Torres salientou ainda a necessidade de ser criada uma Estratégia Nacional para a captura e armazenamento de carbono. Na sua intervenção, no início da sessão, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, afirmou que “o Governo já criou, no final do ano passado, um grupo para avaliar as necessidades legislativas do transporte de carbono, “cujos resultados deverão ser apresentados ainda este ano“.

Além da estratégia, a ATIC gostaria de que a captura e armazenamento fossem reconhecidos como uma prioridade estratégica do país, que sejam criadas metas vinculativas para o armazenamento, clarificados os requisitos ambientais e nomeada uma autoridade responsável pela comercialização. Vê ainda como necessária a ratificação do Protocolo de Londres, de forma a concluir o processo legal para viabilizar o transporte transfronteiriço e armazenamento.

A ATIC calcula que o projeto possa ter um impacto de 14 mil milhões de euros no produto interno bruto nacional, entre 2027 e 2065, e dar origem a mais de 20.000 empregos, 16.000 dos quais a curto e longo prazo, e 6.000 durante o período de construção. Em paralelo, apresenta-o como forma de “garantir a viabilidade” deste setor, que emprega cerca de 5.000 pessoas, direta e indiretamente, e planeia investir mais de 500 milhões até 2030 na redução de emissões. No que diz respeito ao setor da construção, prevê que exista um agravamento “residual” nos custos, de 2 a 4%.

Utilizar o carbono é tecnologia menos desenvolvida que armazenamento

A opção de fazer um projeto para armazenar o carbono no mar, em vez de o capturar para utilização em processos industriais, foi escolhida por uma questão de maturidade das tecnologias, explicam os responsáveis do projeto.

“Neste momento já existe tecnologia para nós conseguirmos fazer a captura e o armazenamento. A utilização não está tão desenvolvida”, indica Filipe Torres. Ainda assim, concede que a utilização do carbono na indústria possa ser um caminho futuro. “Podemos ter sempre uma perspetiva de o armazenar para noutra altura o começar a utilizar para outras soluções”, afirma.

Nesse cenário, em que se avancem com soluções de utilização do carbono, os gasodutos construídos para o armazenamento poderiam ser úteis. Isto porque, “muito provavelmente”, existirá a necessidade de fazer o transporte para um local onde seja feita a sua utilização. No entanto, para os próximos anos, teremos sempre de ter uma solução de armazenamento, se queremos ser competitivos”, pontua o mesmo.

(Notícia atualizada pela última vez às 14h30)

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