Estado de falência climáticapremium

A ciência tem uma mensagem parecida: habituem-se! Devido ao aquecimento global, tempestades cada vez maiores irão provocar a queda de volumes maiores de chuva em cada vez menos tempo.

Nos últimos tempos, o alinhamento dos noticiários televisivos inclui quase todos os dias aquilo a que costumo chamar “o cantinho do Armagedão”. A palavra vem do hebraico, e encontra-se no latim bíblico e no grego bíblico, sempre em referência à grande batalha que marca o fim dos tempos. Mas soa melhor em inglês - armageddon -, desde que esse termo foi popularizado por um péssimo filme com Bruce Willis e Ben Affleck sobre uma catástrofe que ameaça destruir a Terra.

Esta semana, o “cantinho do Armagedão” fez-se com imagens espetaculares e desoladoras dos Estados Unidos, onde o furacão Ida provocou chuvadas bíblicas na Costa Leste, inundando Nova Iorque, Nova Jérsia e outros estados da região. O furacão Ida, que chegou a terra pelo golfo do México, foi considerado o quinto maior a atingir território dos Estados Unidos. Foi também um dos mais mortíferos: só os estados de Nova Iorque, Nova Jérsia, Pensilvânia e Connecticut registaram pelo menos 48 mortos, para além dos prejuízos provocados por inundações diluvianas. Só nos estados da Louisiana e do Mississippi mais de um milhão de pessoas ficou sem eletricidade e sem fornecimento de água, e muitos destes não têm qualquer perspetiva sobre quando o fornecimento de energia e de água será retomado. E não é todos os dias que se veem as avenidas de Manhattan inundadas e as estações de metropolitano com quedas de água como se fossem as Cataratas do Niaggara.

Enquanto os nova-iorquinos e americanos da Costa Leste tentam por ordem no caos das suas cidades para poderem retomar as suas vidas, Joe Biden anunciou pacotes de apoio às zonas afetadas e chamou a atenção do país para aquilo que, há 15 anos, Al Gore tinha chamado “uma verdade inconveniente”: “As alterações climáticas estão aí”.

O contraste do discurso de Biden não podia ser maior quando comparado com as intervenções do seu antecessor, Donald Trump. “Isto não tem a ver com política. O furacão Ida não se importa se vocês são democratas ou republicanos, rurais ou urbanos. É destruição por todo o lado. É uma questão de vida ou de morte, e estamos todos juntos nisto”, disse o presidente.

A ciência tem uma mensagem parecida: habituem-se! Devido ao aquecimento global, tempestades cada vez maiores irão provocar a queda de volumes maiores de chuva em cada vez menos tempo. Segundo uma simulação feita pela agência Reuters, a quantidade de chuva que caiu no dia 1 de setembro sobre o Central Park seria suficiente para submergir a Estátua da Liberdade, como se pode ver neste modelo criado pela agência Reuters.

Nenhuma cidade está preparada para estes fenómenos extremos de precipitação, e as grandes inundações serão, cada vez mais, eventos comuns. “A intensidade das tempestades está a aumentar muito mais depressa do que o aumento médio da precipitação. E é a intensidade que realmente importa, porque é para suportar isso que nós preparamos as nossas infraestruturas”, explicou ao New York Times Aiguo Dai, professor de ciência atmosférica. No caso desta semana isso foi evidente: a intensidade com que a chuva caiu, só numa hora no Central Park, quase duplicou o recorde anterior de chuva numa hora no mesmo local. “Há muitas oscilações de ano para ano, mas olhando para um período longo de tempo, a tendência está a tornar-se cada vez mais evidente. Isto é exatamente o que a teoria e os modelos climatéricos previam”, diz o mesmo especialista.

O aumento da intensidade das tempestades tropicais e dos furacões acompanha outros aumentos: da temperatura média e da frequência com que são registados recordes de temperatura. E, sim, isto anda tudo ligado. O planeta é um só, os oceanos estão todos ligados, e este que temos à nossa beira, o Atlântico, liga os dois pólos, de onde o gelo está a desaparecer, é uma espécie de eixo que dita boa parte do que se passa com o clima terrestre.

Enquanto na Costa Leste dos EUA as chuvas provocam inundações nunca vistas, na Costa Oeste os fogos florestais atingem este ano, outra vez, dimensões de cortar a respiração - literalmente, pois o fumo provocado por esses gigantescos fogos florestais está a provocar dificuldades respiratórias um pouco por toda a América do Norte. O principal fogo ativo da Califórnia já destruiu mais de 80 mil hectares de floresta, ameaça mais de 35 mil estruturas, está perto do Lago Tahoe e é um dos poucos fogos que alguma vez se estenderam de uma encosta à outra da cordilheira da Serra Nevada.

Porque é que os fogos florestais estão a piorar? Mais abaixo, Miguel Miranda, presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera responde a essa pergunta olhando para o que se passa em Portugal e nos Estados Unidos. Mas pode ler também este artigo do New York Times, que responde a cinco perguntas: porque é que há fogos florestais cada vez maiores?; o que é um fogo “extremo”?; quais as consequências de inalar o fumo?; como posso proteger a minha habitação?; que políticas podem ajudar a resolver este problema? (resposta a esta pergunta: limpeza da matéria combustível e fogos controlados preventivos). O contexto do artigo é bastante americano, mas há respostas que servem para qualquer realidade.

Para além da destruição que causam nas florestas, em habitações e infraestruturas e em perdas de vidas, os enormes fogos têm lançado componentes para a atmosfera que atravessam continentes. Os problemas respiratórios e de pele são algumas consequências imediatas sobre quem inala estes fumos, e nos EUA parece haver uma relação entre o fumo libertados por grandes fogos florestais e uma onda de nascimentos prematuros.

Os enormes fogos que têm sido notícia um pouco por todo o mundo, das Américas à Austrália, da Europa à Ásia, tiveram outra consequência: num ano e meio em que os níveis de poluição global caíram drasticamente por causa dos confinamentos impostos em resposta à pandemia da covid-19, a emissão de poluentes pelos grandes fogos florestais contrariou essa redução da poluição atmosférica. É isso que diz um relatório desta semana da Organização Mundial de Meteorologia, noticiado pelo Financial Times.

A análise da OMM revelou quedas de até 70% nos óxidos de nitrogénio, que são emitidos durante a combustão de combustíveis fósseis, e são um dos principais poluentes do planeta. E a concentração de partículas suspensas na atmosfera diminuiu 30% a 40% durante os lockdowns de 2020, em comparação com os mesmos períodos em 2015-2019. Porém, os incêndios florestais geraram altas concentrações de partículas na Austrália e em outras partes do mundo no ano passado. Os benefícios devidos aos confinamentos duraram dias a semanas, e foram localizados; já o impacto das alterações climáticas - incluindo os fogos florestais extremos - é persistente.

As imagens desta semana confrontaram-nos com aquilo a que este artigo chama “falência climática” - o que talvez seja um upgrade acertado em relação à “emergência climática” de que António Guterres não se tem cansado de falar, tendo até protagonizado uma famosa capa da Time, em 2019, para chamar a atenção para este drama. A “falência climática” coloca nada menos do que uma ameaça existencial, mas este é o novo normal, em resultado de um cocktail perfeito de fenómenos climatéricos extremos, e cada vez mais frequentes.

O relatório sobre o nosso presente sombrio

O relatório do IPCC (sigla inglesa de Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas), divulgado em agosto - enquanto esta newsletter estava de férias -, traça o cenário apocalíptico em que já vivemos, em consequência das alterações climáticas induzidas pela ação humana. No essencial, esse documento demonstrava que:

  • a Terra está mais quente hoje do que em qualquer outro momento desde o início da última Idade do Gelo, há 125 mil anos;
  • a temperatura média do planeta subiu 1,1ºC desde o início da Revolução Industrial - um crescimento rápido, sem precedentes e sem paralelo;
  • a vaga de ondas de calor, secas e fogos colossais, bem como de tempestades com chuvas diluvianas que provocam inundações catastróficas, não são apenas reflexos típicos do aquecimento global - são mesmo consequências do aquecimento global.

Este foi o sexto documento produzido pelo IPCC desde a sua fundação, em 1988. O anterior, de 2013, apontava todos os sinais de alarme, mas num tom ainda de que haveria tempo para alterar o rumo dos acontecimentos - foi um dos documentos que estiveram na base do Acordo de Paris, assinado em 2015 - foi esse acordo, subscrito por 196 países, que estabeleceu a obrigação de reduzir a partir de 2020 a emissão de gases com efeito de estufa à medida do objetivo de conter o aquecimento global abaixo de 2ºC (de preferência, no limite de 1,5ºC).

O documento deste ano, porém, adotou um tom bastante mais alarmista e definitivo. Por um lado, é assumida, sem dúvidas, a responsabilidade humana no aquecimento global; por outro, fica claro que, mesmo cumprindo o Acordo de Paris - e para isso, os governos terão de agir de forma muito mais decidida do que tem acontecido -, há pontos de não retorno que já foram ultrapassados. O aumento da temperatura do planeta em 1,5ºC será um facto até 2040 mesmo que a emissão de gases com efeito de estufa parasse amanhã.

Numa palavra, o Armagedão está a acontecer, mais depressa e com mais intensidade do que podia ser previsto. Aquilo que, noutros relatórios, eram avisos sobre o que poderia vir aí no futuro se…, agora é a constatação daquilo que já está a acontecer e a que teremos todos de nos adaptar. O nosso futuro coletivo traçado pelo relatório daquele organismo das Nações Unidas é, numa palavra, sombrio:

  • As alterações climáticas são um facto e vão agravar-se. “Cada uma das últimas quatro décadas foi sucessivamente mais quente do que qualquer década precedente desde 1850”. As secas prolongadas que causam fogos colossais não são uma coincidência - nem é um acaso que as vejamos na Califórnia, e na Amazónia, e na Austrália, e na Grécia, ou em Portugal, como em 2017. É uma tendência e é consequência das alterações climáticas, lê-se no relatório. O mesmo em relação às grandes chuvadas que têm marcado os noticiários, não apenas nas Américas, mas também na Europa. Em “todas as regiões habitadas do globo” está bem documentado o aumento de ondas de calor, de secas, mas também de chuva extremamente intensa.
  • No caso que mais nos toca, a região do Mediterrâneo, é um dos pontos assinalados a vermelho no mapa global do calor e da seca.

  • Haverá subida de temperatura, maiores períodos de seca e mais ondas de calor, períodos de chuva menos frequentes, mas chuvadas mais intensas (aumentando a probabilidade de inundações), e uma linha costeira ameaçada pela erosão, e pela subida do nível médio do mar. Este já é um dos “hot spots” das alterações climáticas, como nota o investigador Filipe Duarte Santos, neste artigo do Público: “A temperatura média tem estado a aumentar mais do que à escala global, na ordem de 1,5ºC, quando a nível global rondará os 1,09ºC, 1,1ºC. Também já se observa uma redução da precipitação média anual, que é muito clara em Portugal e é um dos aspetos mais preocupantes, por causa dos recursos hídricos e também por causa dos fogos florestais. Na Europa há uma área ardida anual muitíssimo maior na região do Mediterrâneo - Portugal, Espanha, sul de França, Itália, Grécia - e a tendência é para continuar porque vamos ter ondas de calor mais frequentes, mais intensas e secas”.
  • O reverso desta realidade serão as chuvas muito intensas. “O que veremos é uma excessiva concentração [de água] na atmosfera, que em vez de cair regularmente, cai de repente, é a chuva de um ano a cair numa semana. Esse é o problema: num clima árido haver situações em que se passam meses a fio sem cair um pingo e depois cair uma quantidade brutal extremamente concentrada no tempo e o espaço, o que faz com que áreas como o Alentejo, com a terra ressequida, percam capacidade de infiltração. Mesmo em Lisboa, os planos de drenagem são para um regime de extremos que já não existe”, explicou, no mesmo artigo, publicado em agosto, Rui Perdigão, professor catedrático em Física de Sistemas Complexos e Dinâmica do Clima.
  • Um estudo divulgado no final de agosto indica que as grandes inundações que este verão voltaram a marcar os noticiários na Europa não só são consequência das alterações climáticas como deixarão de ser raras. Os cientistas estudaram as inundações devastadoras que atingiram a Alemanha e a Bélgica em julho - e que provocaram a morte de pelo menos 220 pessoas, para além de milhões de euros de prejuízos - e concluíram que, devido ao aquecimento global, estas tempestades extremas são até nove vezes mais prováveis do que seriam na era pré-industrial.
  • Apesar disso, os cientistas calculam que a quantidade de chuva que provocou as enxurradas e inundações de junho no centro da Europa só deverá ocorrer uma vez a cada 400 anos. Boas notícias? Errrr… nem por isso. O risco desses eventos extremos, ainda que raros, está a aumentar e será cada vez maior conforme o mundo continua a aquecer. E, se o cálculo diz que uma região da Europa tem probabilidade de sofrer um evento desta dimensão apenas uma vez a cada quatro séculos, é provável que algo parecido aconteça em algum lugar do continente com muito mais frequência.
  • Voltando ao quadro global, outra certeza: a subida do nível dos oceanos será maior do que se julgava, e poderá acontecer de forma muito rápida e catastrófica. No pior cenário, é possível que os maiores glaciares do Oeste da Antártica colapsem ao longo deste século - a ser assim, o nível das águas do mar pode subir quase dois metros até 2100, e quase 5 metros até 2150. A questão do degelo e da subida do nível das águas tem uma particularidade: não é reversível. Mesmo que parássemos hoje com as emissões excessivas de CO2 para a atmosfera, a temperatura do oceano não iria baixar - a água tem uma capacidade calorífica elevada, ou seja, conserva o calor por muito tempo (é por isso que nos aquecemos com botijas de água), e essa inércia térmica terá consequências dramáticas - não basta desligar o interruptor.

Uma última nota, para fazer brilhar alguma luz neste quadro sombrio. É verdade que as condições extremas serão o novo normal (vale a pena consultar este trabalho do Financial Times sobre modelos de previsão de ocorrência de calor extremo), mas também é verdade que estes fenómenos estão a causar menos vítimas do que no passado, conforme demonstra este estudo da Organização Mundial de Meteorologia. Em resumo: nas décadas de 1970 e 1980, os desastres mataram em média 170 pessoas por dia em todo o mundo. Na década de 2010, esse número caiu para cerca de 40 por dia - pode ler aqui o resumo do paper da OMM feito pela agência Lusa.

Estaremos preparados? Não

Ora, se tivermos em conta que aquilo a que estamos a assistir agora “é só uma amostra” do que aí vem, como dizia esta semana um especialista americano em questões de clima numa entrevista à CNBC, a pergunta que esse cientista faz a seguir é óbvia: “Olhando para cidades na costa como Miami, Houston e, agora, Nova Iorque, essas pessoas poderão continuar a viver aí no próximo século?”

Ou, dito de outra forma: alguém está preparado para isto? E como garantir infraestruturas que protejam as comunidades da inclemência dos elementos?

A resposta à primeira pergunta é não: ninguém está preparado para estes fenómenos extremos e, ainda menos, para a sua sobreposição - nuns períodos, tempestades e inundações, noutros, secas e fogos. “Construímos as nossas cidades e as nossas comunidades para um clima que já não existe”, conforme se pode ler aqui.

Joe Biden frisou esta semana a importância do mega-pacote de investimento em infraestruturas que foi aprovado com votos dos democratas e dos republicanos (1 trilião de dólares), não apenas para relançar a economia americana no pós-covid, como para reforçar a rede infraestrutural dos EUA em resposta à ameaça climática (a ideia é "build back better"). A evidência da emergência climática é tal que até dirigentes do Partido Republicano (mas não Donald Trump, que continua a ser o negacionista in chief) já se renderam aos factos e admitem que, sim, as alterações climáticas são reais e, sim, há responsabilidades da mão humana.

Como podem os países adaptar-se a esta nova realidade? Será um processo difícil, lento e com muitos custos. Nesta entrevista que fiz há tempos a Miguel Miranda, diretor do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, falámos sobre o que é previsível ao nível de impactos concretos das alterações climáticas no nosso país, que obrigarão à mudança de hábitos e mentalidades:

  • As grandes tempestades vindas do Atlântico
    “A situação atual, devo dizer, não é otimista. As estimativas que se fazem é que um acontecimento de uma inundação costeira motivado pela interação entre um grande furacão e a Terra - que aconteceria no passado a cada 100 anos - pode estar agora a acontecer a cada ano. Isso significa que os nossos sistemas de utilização da terra não estão adequados. Não estamos preparados em termos de construção, de pessoas, de cidades, de gerir uma coisa que era centenária [e passa] a ser anual. [Estamos a falar] de uma banalização e de uma alteração evidente que vai ter que haver sobre a ocupação do solo. E nós aqui na nossa latitude estamos muito mais protegidos, obviamente, não estamos na Florida. Mas apesar de estarmos mais protegidos eu, sem querer criar nenhum tipo de pânico, chamo a atenção que, nos nove anos que estou aqui [à frente do IPMA], os últimos três anos tiveram um grande acontecimento por ano em Portugal. E o anterior foi há cinco anos. (...) Tivemos com o furacão Leslie o primeiro landing que foi observado na zona da Figueira da Foz, com o impacto que se conhece. E se me perguntar se as populações da Figueira da Foz e das zonas costeiras estão preparadas para este tipo de acontecimentos, eu diria que não.”
  • As secas e fogos florestais
    “Os fogos florestais é uma situação do mesmo tipo. As nossas casas não estão desenhadas para isso, nem os nossos hábitos de proteção. Vamos ter de alterar. E também tem a ver com a mudança climática. Porque o fogo florestal é sempre uma desadequação entre a situação do coberto rural e florestal de uma certa região e o clima. É uma desadequação, em que a situação de clima conduz a que qualquer fogo que seja iniciado, dificilmente é travado. Exige uma capacidade de atuação rápida e em força dos sistemas de mitigação, e exige, mais uma vez, a alteração da forma de ocupação do solo.” O caso da Califórnia, diz, é paradigmático. “Tinha uma situação em que uma boa parte do território é ocupado por parques naturais, que à partida até estariam mais bem defendidos. Mas na verdade, o que se demonstra é que se a tendência de aumento de temperatura se mantiver, se a tendência de perda de precipitação nessas latitudes se mantiver - acontece lá e acontece cá -, e com o aumento do vento - também acontece lá e acontece cá - esse conjunto de efeitos conjugados vai aumentar este tipo de fenómenos, até que o sistema natural, como eu costumo dizer, se adapte ou se altere ou se reorganize.

Estas serão as duas consequências mais notórias, mas haverá outras, cá, como noutras paragens:

  1. erosão costeira e subida do nível das águas do mar, como já referi, tanto por efeito do aumento da temperatura dos oceanos (a água dilata, portanto, quando a temperatura do oceano aumenta, o seu volume aumenta e a superfície tem de subir) como devido ao degelo na Antártica, cuja camada de gelo continental está a diminuir significativamente;
  2. alteração das condições da vida nos primeiros 700 metros a partir da superfície do oceano, reduzindo espécies e stocks de pesca: como cerca de 90% do fluxo de calor para a Terra é armazenado no oceano, a temperatura sobe, sobretudo nos primeiros 700 metros - a zona onde estão as regiões costeiras e que é mais alvo da atividade de pesca. A primeira consequência é sobre o plâncton, que está na base da cadeia trófica marinha: está a deslocar-se, em resposta ao aquecimento dos oceanos, o que tem consequências por toda a cadeia. Cito outra vez Miguel Miranda: “Quando mudamos as condições ambientais e temos espécies que não conseguem sobreviver, podemos pensar ‘mas há outro local em que nós vamos ter espécies que vão aparecer’. Talvez houvesse, se tivéssemos milhões de anos para esperar. O que se passa é que a nossa taxa de influência no ambiente é tão rápida, que não há capacidade do sistema natural se adaptar por si próprio e, portanto, quando nós destruímos, acabou.”

A solução será a adaptação. O Programa de Recuperação e Resiliência português inclui, na chamada vertente da resiliência, dois níveis em que o Estado irá investir com vista a preparar o país para enfrentar estas mudanças estruturais: a gestão hídrica, no sentido do melhor aproveitamento dos recursos existentes, e de minorar o impacto dos episódios de seca nos territórios do Alentejo, Algarve e Madeira, e as florestas, com um conjunto de reformas e investimentos visando a prevenção e combate dos incêndios florestais, olhando para a coesão territorial, a sustentabilidade ambiental e a resistência do território.

Mas será preciso ir mais longe. Deste trabalho do FT, destaco algumas medidas inevitáveis um pouco por todo o mundo:

  • A boa capacidade de previsão e planeamento exigirá dados - muitos dados - de âmbito regional e local. Investir em investigação, informação e redes de dados será decisivo.
  • Uma das áreas em que a informação terá de ser precisa e exaustiva tem a ver com os modelos sobre subida dos níveis do mar - só assim será possível decidir uma boa gestão da orla costeira, seja para a decisão sobre construção futura e investimento em infraestruturas, seja para determinar a “desativação” de infraestruturas existentes ou até mesmo comunidades ou até vilas e cidades (nos EUA já discussões sobre a relocalização de comunidades inteiras).
  • O risco de inundação mais frequente exigirá sistemas de alerta e construção de diques e outros sistemas de defesa. Mas também o desvio, elevação ou deslocalização de estradas ou caminhos de ferro.

Los Angeles, na Califórnia, tornou-se nos últimos anos uma espécie de laboratório do futuro em tempo real, sobre como viver com as alterações climáticas. Teremos de aprender uns com os outros.

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