A explosão da Inteligência Artificial
Na era da IA, a vantagem já não estará apenas em fazer mais depressa, mas em decidir com mais critério o que merece ser feito. O mais importante é fazer melhor, não é apenas fazer mais.
Durante anos, habituámo-nos a olhar para a tecnologia como uma forma de poupar tempo e despachar mais rapidamente o que temos de produzir. Mas a Inteligência Artificial (IA) parece estar a fazer outra coisa: não está apenas a libertar mais a nossa agenda, está a multiplicar tudo aquilo que passa a ser possível fazer. E quando quase tudo se torna exequível, a verdadeira dificuldade já não é produzir mais e passa a ser saber escolher melhor.
A narrativa que hoje mais ouvimos falar é a de que as ferramentas de IA libertam tempo e de que esse tempo pode ser reinvestido em trabalho mais criativo e de maior valor. Esta narrativa tem uma vertente apelativa para os trabalhadores, mas talvez não mostre tudo o que a IA nos está a trazer.
O que a experiência direta revela é algo mais: a IA está a tornar possível fazer muito mais, porque cada tarefa passou a poder ser executada numa fração do tempo que antes exigia. O resultado não é um profissional com duas horas livres à tarde, mas um profissional que agora pondera fazer cinco análises em vez de duas, testar três cenários em vez de um, explorar mais hipóteses, abrir mais frentes.
A capacidade de exploração intelectual que a IA coloca nas mãos de um jovem que entrou recentemente no mercado de trabalho não tem precedentes. Mas traz também uma pressão que importa discutir: quando tudo se torna possível de fazer, torna-se mais difícil perceber o que fazer e, sobretudo, o que realmente mais importa fazer.
A abundância de possibilidades pode ser tão paralisante quanto a sua escassez. Paradoxalmente, pode deixar menos espaço para a coisa que é mais importante: parar para pensar sobre aquilo que está a ser feito. É aí que reside talvez o risco mais real para os mais jovens, a aceleração do trabalho sem critério nem julgamento.
Quem cresceu a estudar, a investigar e a procurar informação online sabe que nem sempre o primeiro resultado é o melhor. Essa capacidade de avaliação crítica é cada vez mais relevante nos dias de hoje: saber quando confiar num output que não fomos nós a produzir e, sobretudo, saber quando não confiar.
Cultivar este discernimento, essa dúvida metódica, esta capacidade de parar para refletir, é essencial e exige uma disciplina que não é natural nem fácil num contexto em que as agendas das empresas tendem a expandir-se para tirar cada vez mais partido da IA.
Durante décadas, os trabalhadores mais experientes sentiram a pressão da transformação digital como algo que não podiam deixar escapar. As ferramentas de IA, principalmente as conversacionais, vieram alterar este panorama. Pela primeira vez, um profissional de 55 anos com décadas de experiência de negócio consegue explorar dados, construir relatórios ou compreender conceitos técnicos complexos sem precisar de dominar linguagens de programação nem de depender de outros para o fazer.
A IA veio, assim, encurtar a distância tecnológica entre gerações dentro das organizações. E isso torna claro que a explosão de possibilidades não é um fenómeno exclusivo dos mais jovens: é uma nova condição transversal a todos os diferentes perfis numa empresa.
Tudo isto levanta uma questão central para as organizações: num ambiente em que todos conseguem fazer mais, o verdadeiro desafio deixa de estar apenas na capacidade de executar e passa a estar na capacidade de escolher.
Porque, na era da Inteligência Artificial, a vantagem já não estará apenas em fazer mais depressa, mas em decidir com mais critério o que merece ser feito.
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