A liderança é o próximo capítulo da sustentabilidade

  • Felipa Xara-Brasil
  • 21 Setembro 2026

A sustentabilidade é uma responsabilidade da liderança executiva.

Há vinte e cinco anos, a sustentabilidade ainda ocupava um lugar periférico em muitas conversas empresariais. Era considerada importante, mas frequentemente tratada como uma preocupação separada: algo a reportar ou a endereçar através de iniciativas ambientais e sociais pontuais.

Hoje, esse cenário mudou. A sustentabilidade faz parte da forma como as empresas pensam a competitividade, a confiança e a criação de valor a longo prazo. Existe também uma compreensão mais clara de que as decisões empresariais têm impacto no mundo que as rodeia e de que as empresas e as sociedades dependem da estabilidade desse mesmo mundo para prosperar.

Em Portugal, os últimos 25 anos trouxeram uma maior consciencialização, avanços regulatórios e a afirmação das energias renováveis como elemento central do progresso do país. Organizações como o BCSD Portugal têm contribuído para manter esta agenda ativa, reunindo empresas em torno da ideia de que sustentabilidade e crescimento económico não são objetivos opostos.

A sustentabilidade é uma responsabilidade da liderança executiva

Olhando para 2050, o desafio será transformar intenção em execução, ambição em resultados e compromissos públicos em decisões consistentes no dia a dia das organizações. É aqui que a liderança se torna decisiva. A sustentabilidade não pode viver apenas em departamentos técnicos, equipas de ESG, processos de compliance ou funções de reporte. Embora todos estes elementos sejam necessários, não são suficientes.

A sustentabilidade torna-se mais tangível quando influencia as escolhas realizadas pelos conselhos de administração, pelas comissões executivas e pelas equipas de gestão. Torna-se real quando os líderes ponderam aquilo que as suas decisões tornam possível (ou impossível) nos anos que se seguem.

O contexto global atual torna este caminho mais desafiante. A guerra, o aumento dos custos e a incerteza económica colocaram as empresas sob forte pressão, fazendo com que a sustentabilidade seja, muitas vezes, secundarizada por preocupações mais imediatas. Ainda assim, as alterações climáticas e a pressão sobre os recursos naturais não esperarão por condições mais favoráveis. Cabe aos líderes manterem presentes estas duas dimensões temporais: as pressões que enfrentam hoje e as responsabilidades que assumem perante o futuro. Isto exige um perfil de liderança diferente: 1) Orientado por uma visão mais ampla, mesmo em contextos de pressão; 2) Capaz de exercer bom julgamento em ambientes complexos, mesmo sem informação completa; 3) Ágil na capacidade de reajustar o rumo, sem ser imprudente; 4) Preparado para mobilizar pessoas quando o caminho ainda é incerto.

Acima de tudo, significa evoluir da pergunta “Os relatórios foram submetidos? Cumprimos os requisitos de ESG?” para uma questão mais exigente: “As decisões que estamos a tomar hoje estão a ajudar a empresa a fazer o que é certo para o longo prazo?”

Preparar os líderes de amanhã para uma mudança duradoura

A liderança orientada para a sustentabilidade é também uma questão de talento. As gerações mais jovens estão pessoalmente envolvidas com temas como sustentabilidade, tecnologia, propósito e autenticidade. Não estão apenas atentas ao que as empresas dizem; observam, sobretudo, o que as empresas fazem. Para atrair e desenvolver líderes fortes, as organizações têm de demonstrar que os seus valores estão alinhados com os seus comportamentos.

Até 2050, a sustentabilidade deverá fazer parte da forma como os líderes são escolhidos, desenvolvidos e avaliados. Deverá influenciar aquilo que as empresas recompensam, aquilo que prioritizam e a forma como preparam, de forma contínua, a próxima geração de liderança para dar continuidade a este trabalho.

O caminho não será igual para todas as organizações, e as empresas de menor dimensão poderão precisar de maior apoio para transformar ambição em ação. Ainda assim, a direção é clara: as empresas que ancorarem as suas decisões na sustentabilidade estarão melhor preparadas para enfrentar as realidades do futuro.

A ambientalista queniana e vencedora do Prémio Nobel da Paz, Wangari Maathai, disse um dia: “Até cavares um buraco, plantares uma árvore, a regares e a fazeres sobreviver, não fizeste nada. Estás apenas a falar”.

O mesmo se aplica à sustentabilidade nas empresas. Estratégias, compromissos e relatórios são importantes, mas só ganham verdadeiro significado quando se traduzem em decisões e comportamentos duradouros. Os últimos 25 anos mostraram que as empresas são capazes de mudar a forma como pensam. Os próximos 25 terão de provar que são capazes de mudar a forma como lideram.

Nota: esta é uma coluna sobre os últimos e os próximos 25 anos da sustentabilidade, no âmbito do 25.º aniversário do BCSD Portugal e que pretende trazer conteúdos ligados a esta temática por personalidades de reconhecida influência empresarial ou académica.

  • Felipa Xara-Brasil
  • Vice-Presidente da Signium Global e Managing Partner da Signium Portugal

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