A show about nothing

Transformar cada compra cultural numa declaração de apoio às opiniões do escritor é um salto que não estou disposto a dar. Às vezes, comprar arte significa apenas isso: comprar arte.

Quando penso num livro e numa frase, penso em Cem Anos de Solidão e naquelas primeiras 28 palavras. Para a geração dos meus pais, falar de magia no futebol é pensar em Maradona. Na pintura, é impossível discutir o século XX sem louvar o brilho de Salvador Dalí. O texto de hoje é sobre o que une estes três homens.

García Márquez e Maradona estabeleceram ligações de amizade fortíssimas com Fidel Castro, admirando o regime ditatorial e torcionário cubano. Em sentido oposto, na melhor das hipóteses, Dalí terá sido próximo tanto da ditadura espanhola como até pessoalmente de Franco. É verdade, as pessoas são complexas.

Fiquei-me pelo século XX, sabendo que andar para trás na história confirmaria a minha tese. A minha opinião, e creio que a da maioria das pessoas, sobre a profundidade artística do seu trabalho não é tocada pelas suas opiniões políticas ou até atitudes pessoais. Deixem-me que vos diga: é indiferente. Isto não serve como legitimação destas relações, que considero obscenas, mas para lembrar que a obra e o artista não são a mesma coisa e, muitas vezes, o artista e a pessoa por detrás do fato também não.

Não é exequível, nem sequer desejável, que, de cada vez que entre num museu, num festival ou numa livraria, tenha de conhecer as opiniões controversas de cada pintor, de cada cantor ou de cada escritor. Não me compete a mim fazer depender a qualidade artística de um qualquer objeto de um elemento externo à sua apreciação.

Da mesma forma que continuo a lê-lo, se, hoje, García Márquez ainda fosse vivo e cá viesse, pagaria para o ouvir sobre as suas histórias. Transformar cada compra cultural numa declaração de apoio às opiniões do escritor é um salto que não estou disposto a dar. Às vezes, comprar arte significa apenas isso: comprar arte.

Já todos terão percebido a razão do texto. Não é um artigo de defesa de Seinfeld, que certamente não precisa, nem muito menos da política de Netanyahu. Confundir uma coisa com a outra é, aliás, parte do problema. A Seinfeld devo a paixão pelo humor e uma certa leveza na forma de olhar para os problemas. E, já agora, muitas horas com uma das melhores séries de sempre. Na verdade, tenho pena de não assistir ao espetáculo em Lisboa, apenas por considerar os preços despropositados.

Quanto aos artistas nacionais que se recusaram a partilhar palco com Seinfeld, a piada faz-se sozinha. Alguns não viram incompatibilidades com um grupo terrorista no Avante. Veem agora com um certame humorístico de alguém com opiniões diferentes. Tudo certo, realmente, temos bitolas diferentes.

Esta semana, João Pereira Coutinho chamava-lhe poluição sonora. Tem razão. “De um cantor espero que cante.” Discordo deles, mas não deixarei por isso de os ouvir. Mais uma vez, a arte não é o artista. Tudo isto, apesar mesmo de nos terem presenteado com esta rábula sobre nada, a show about nothing.

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