Abril não é só de alguns
Em abril, festeja-se um fim, mais do que um começo.
Fez, no passado dia 25, cinquenta e dois anos sobre o fim da ditadura. Ponto. Esta frase devia chegar para que esta data não fosse divisiva, mas antes uma data de união sob uma esperança comum de uma vida melhor, mais livre e mais justa. Nesta data não festejamos os meses que se seguiram, nem, na realidade, a democracia que conquistámos, mas o fim da opressão e o fim do sofrimento de milhares de jovens numa guerra perdida. Em abril, festeja-se um fim, mais do que um começo.
Os meses que se seguiram foram de abusos e tudo podia ter sido perdido se o PCP e os seus aliados da esquerda militar tivessem levado a melhor. É verdade, mas é exatamente por isso que festejamos o 25 de novembro como a data em que a liberdade de abril se cumpre. Por isso, festejamos a Constituição, as revisões de 1982 e 1989 ou a entrada na CEE. Em abril, não começou a democracia, mas acabou um regime em que não podíamos mais viver.
Em abril, abriram-se as portas para que, mais tarde, entre avanços e retrocessos, entre abusos ou excessos revolucionários, pudéssemos hoje ser uma democracia liberal ocidental. Uma democracia onde posso escrever este texto. Onde, nesta casa de liberdade, poderia dizer mal da própria data que mo permitiu.
Não obstante, tristemente, há uma esquerda radical e extremista que se convenceu, sabe-se lá como e porquê, de que é a autora moral e política, dona das virtudes de abril e das suas conquistas. Por isso, acha-se no direito e no dever de expelir toda a direita que tenha a ousadia de festejar abril ao seu lado. Não tenhamos dúvidas, foi esta esquerda a perdedora dos meses que seguiram a revolução. Foi esta esquerda antidemocrática, extremista e intolerante que lutou por um país socialista e não prevaleceu sobre o país livre onde hoje vivemos.
Na última descida da Avenida da Liberdade, como vem sucedendo nos últimos anos, voltámos a assistir à ofensiva destes radicais contra a parada da IL. É evidente quais seriam as parangonas se fossem fascistas a ameaçar comunistas numa manifestação livre. Justamente, aliás. Aparentemente, contudo, apupar liberais deve valer menos. Deixando a diferença de tratamento de lado, é escandalosa a monopolização que alguma esquerda tem feito da data.
Este sequestro do simbolismo da data deu, naturalmente, azo a que outra direita, menos amante do seu significado, pudesse, abertamente, opor-se a ela. Entre a parolice dos cravos verdes e a amálgama de datas, como se abril e o PREC fossem uma e a mesma coisa, hoje, é mais fácil ser-se anti-abril mesmo que isso nada signifique de substantivo. Estávamos melhor a 24 ou a 25? Esta é a pergunta a responder.
Se a esquerda quer a data só para si, há uma direita que a aceita oferecer. Quem perde é o país e a nossa unidade.
Já viram o que fizeram a abril? Podemos discordar do PREC e do que se sucedeu. Mas é por causa de abril que hoje somos o que somos e deixamos de ser o que éramos. Abril é de todos, mesmo dos seus perdedores, mesmo dos que dele não gostam. Simplesmente, porque se hoje, estes radicais de todos os espectros podem vituperar ou desprezar a data que festejamos, é graças exatamente a uma conquista de abril. A democracia é magnânima. Viva a liberdade!
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