Choque petrolífero

Há quem alimente ficções políticas como se o país fosse um arquipélago isolado num oceano de abundância

A política portuguesa é um leilão permanente. Face ao choque petrolífero que o mundo enfrenta, os políticos entretêm-se em dissertar em teoria sobre soluções milagrosas. A política nacional é o modo original de ignorar o global e resolver o regional.

Para o PS é possível o governo abdicar dos lucros excessivos da crise para devolver algum alívio aos portugueses. Para o Chega tudo é possível na torrencial demagogia que observa a crise com o propósito de contrariar uma oportunidade para a corrupção. Para a Iniciativa Liberal é talvez deixar o mercado funcionar e talvez exigir maior ambição do governo. Para o PCP todo o país é uma crise social que exige a taxação punitiva e a nacionalização da tabela de preços. O resto da esquerda é o resto da esquerda com soluções que não são soluções, mas apenas a aplicação da estatística para combater a política do ressentimento. Os portugueses vão absorver a crise pela política que nunca falha aos portugueses e que é o aumento da pobreza. A persistência da pobreza é o único artigo que não precisa de ser escrito na Constituição. Ser pobre é um direito histórico.

O que invade o debate político é a miragem de distribuir uma riqueza que não existe num país marcado por uma sociedade frágil e uma economia aberta ao exterior e um governo que consome os poucos recursos da nação. Podemos ter um estado rico e um país pobre, mas temos um estado rico que se alimenta da pobreza do país. Nestes momentos de crise fica a céu aberto que a riqueza do estado é apenas a gestão particular dos recursos gerais na forma de um orçamento. E o orçamento é a bíblia da governação com défices e excessos, projecções e previsões, que não passam de uma especulação genérica sobre o destino do país. Em momentos de crise fica a descoberto a fragilidade de um país que observa o futuro ao ritmo da energia que se gasta na impotência política. O mesmo país que vai parando por falta de combustível.

Na realidade ninguém tem solução política para um problema que não controla e que não compreende na sua complexidade. O governo apresenta o equilíbrio orçamental para a superação da crise. A oposição apresenta o défice orçamental para a superação da crise. Na reunião dos opostos está representada a realidade de um país sem recursos naturais ou matérias-primas e que sustenta a sua economia a vender serviços no sector do turismo. O choque petrolífero que está a dominar o mundo é uma realidade que supera as forças e as ambições de um país que se sustenta, em complemento ao turismo, com os impostos absurdos no sector energético. Os impostos no sector energético são a renda garantida do estado, uma renda que vai gerindo e manipulando para garantir uma administração pública e o tão elogiado estado social. Um estado social que devolve cada vez menos aos portugueses que o pagam em impostos e que suportam em simultâneo toda uma indústria de bens sociais supostamente fornecidos pelo estado. Os impostos são a alma da nação, mas não o benefício dos portugueses.

Depois vem o discurso liberal que defende sempre a nacionalização dos prejuízos, mas que condena sempre a nacionalização dos lucros. Depois vem o discurso social que condena sempre a nacionalização dos prejuízos, mas que defende sempre a nacionalização dos lucros. E o que fazer politicamente quando o prejuízo é de um país inteiro integrado numa economia liberal e global? Sobram posições doutrinárias e teóricas que num país como Portugal resultam na menoridade política e na desqualificação económica.

Em bom rigor, ao governo sobra o assistencialismo low cost e à oposição o assistencialismo com aditivo de marca. Em bom rigor, para o país sobra o sacrifício máximo e um índice de felicidade mínimo.

Não existem balas de prata em política, um privilégio da literatura de terror. Há quem alimente ficções políticas como se o país fosse um arquipélago isolado num oceano de abundância – O país ideal em que o estado controla todos os sectores estratégicos e energéticos, transportes e comunicações, bancos e seguros. O país da criação de um serviço nacional de emprego com a garantia de um rendimento social incondicional. O país da criação de um serviço nacional de habitação com a garantia de uma renda social mínima. O país da semana de trabalho de 32 horas rumo à semana de 4 dias. O país do direito à mobilidade com energia livre e limpa a custos sociais controlados e uma rede nacional de restaurantes públicos e mercearias públicas. Vamos reescrever o paraíso e fingir que a realidade não existe. Só que a realidade tem um preço que os portugueses pagam todos os dias até ao último cêntimo.

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