Editorial

É a política, estúpido

António Costa está a encenar um estado de guerra e não uma resposta a uma greve. É uma resposta política que mostra a autoridade de que os portugueses tanto gostam.

A greve que, durante tantas semanas, tantos acreditaram que seria cancelada, está mesmo aí. Os motoristas de matérias perigosas não perceberam a tempo que teriam de recuar – Marcelo conhece António Costa como poucos e bem os avisou – e transformaram-se, de repente, nos ‘melhores amigos’ do primeiro-ministro. Costa dramatizou, pôs o país em estado de guerra e, depois, mostrou a autoridade que os portugueses tanto gostam. Depois da economia, é a política, estúpido. A olhar para 6 de outubro.

“O interesse do país não vai de férias”, afirmou o primeiro-ministro. Sim, estamos a falar do atual primeiro-ministro, o mesmo que foi de férias depois do incêndio de Pedrógão Grande e do roubo de armas em Tancos. À data, em comunicado, o gabinete de António Costa fez saber que as férias estavam programadas, e não as mudou depois daquela tragédia em que o Estado, e o Governo, falhou aos portugueses. Costa aprendeu, com as férias de 2017 e, sobretudo, com a inação revelada em relação à greve dos motoristas de abril. Foi criticado na altura, garantiu que tudo fez para salvaguardar os interesses dos portugueses, mas perante o caos do país naquele momento, percebeu que tinha uma oportunidade única para mostrar a autoridade perdida.

Primeiro, foi o negociador, Pedro Nuno Santos, que, curiosamente, saiu de cena. Escrevi aqui que o ministro estava a ir longe demais, ao tentar ser jogador neste jogo entre privados, entre empresários e trabalhadores, em vez de se manter como árbitro. Depois de falhada esta tentativa de intervenção, o Governo passou para uma segunda fase, de estado de alerta. Pedro Nuno Santos saiu do espaço mediático e apareceu o ministro da Administração Interna, e o próprio primeiro-ministro. Um ‘gabinete de guerra’, com direito a diretos para as televisões a olhar para um mapa do país, com o plano de ação e de resposta. A imposição de serviços máximos, que mudam na prática a lei da greve (isto fica para mais tarde), a possibilidade de requisição civil e a ameaça de prisão para os motoristas que não cumpram os referidos serviços. E ‘briefings’ diários ‘live’, onde o primeiro-ministro chega de carro elétrico, pois claro.

A greve é impactante, sim, e o sindicato mostrou que não estava a negociar de boa fé. Porque ninguém negoceia com uma greve marcada, portanto, deu os pretextos certos para uma resposta musculada do Governo, porque os portugueses nem percebem bem o que está em causa. Salários em 2021? Pardal Henriques incentivou os motoristas a avançarem para uma greve com o argumento de que, com eleições à porta, estariam a negociar com o Governo e não com a associação do setor, a Antram. Pois, foi isso mesmo que tiveram.

É uma encenação, sim, é a política no seu melhor, ou no seu pior. Com a conivência ignorante do sindicato nacional dos motoristas e do seu líder de facto, Pardal Henriques, que parece querer promover-se para uma carreira política à custa de quem deveria defender. Costa agradece a atenção, e, cinicamente, pedirá mesmo que o sindicato mantenha a greve por tempo indeterminado. A cada dia que passa, há mais uns quantos eleitores que vão na ‘conversa’, embalados pela cantiga e sem alternativa, perante o desaparecimento político de Rui Rio (e de Assunção Cristas), talvez de férias.

Nota: O ECO não foi de férias. Uma equipa está em permanência a acompanhar a greve dos motoristas de matérias perigosas, para lhe dar as notícias mais relevantes e as informações necessárias para poder decidir. Se tiver informações ou sugestões, não hesite em enviar-nos um email. Tentaremos dar resposta às suas mensagens na cobertura editorial desta greve.

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