Petróleo em scroll
A criatividade política está sequestrada numa bomba de gasolina ameaçada por uma pistola de abastecimento.
Quando os portugueses vão abastecer o automóvel a uma bomba de gasolina estão a apoiar o regime do Irão? Atestar de gasóleo é uma manifestação em defesa dos direitos das mulheres no Irão? Atestar de gasolina é defender a liberdade de expressão no Irão? Transformar gestos normais da vida quotidiana do ocidente em declarações políticas é um delírio ideológico? Transformar gestos essenciais ao funcionamento da economia do Mundo em tomadas de posição políticas é realismo ou idealismo? Se a economia é a face visível de uma sobreposição entre o liberalismo e o estatismo, a visita a uma bomba de gasolina é o retrato da impotência da política interna face ao confronto global entre visões do Mundo rivais e que no limite levam a uma versão revista e aumentada de uma verdadeira Guerra dos Mundos. Na banalidade de uma pistola de abastecimento está a nova doutrina da aniquilação mútua garantida.
O aumento da venda dos automóveis eléctricos representa uma tomada de consciência do alcance das alterações climáticas ou uma reacção imediata à escalada dos preços dos combustíveis? As alterações climáticas continuam a ser objecto de activismo político à esquerda e de cepticismo civilizacional à direita. O aumento da venda de veículos eléctricos mais parece uma reacção em pânico às incertezas da estabilidade do fluxo energético. O pico na venda de veículos eléctricos assemelha-se ao pânico que leva os investidores da bolsa a abandonarem as suas posições em fuga para evitarem maiores perdas no futuro. Não há racionalidade no pico dos automóveis nem nos mínimos da bolsa. O que justifica os movimentos em baixa e as oscilações em alta são os sentimentos humanos do medo, do desconhecido, da ganância. Comprar um veículo eléctrico neste contexto geopolítico não representa qualquer apoio à transição energética. Guiar um veículo eléctrico não pode ser politicamente instrumentalizado como uma defesa da política errática de uma América mutante.
A crise energética que vagueia entre nós com a oscilação permanente e explosiva do preço dos combustíveis é também o confronto entre a fé no mercado e a definição do bem comum. A fé no mercado disponibiliza um modo expedito de estabelecer o valor de um determinado bem público, evitando sobretudo uma discussão complexa, controversa, radical, sobre as várias contribuições para o estabelecimento do preço de um bem público. A fé no mercado representa a aspiração liberal de que o mercado é a representação de uma neutralidade ideológica na avaliação da importância dos bens públicos. A ideia do mercado como ideal de neutralidade política é também a afirmação de uma ideologia política. A neutralidade na política é uma posição que se reivindica de uma observação com base em lugar nenhum, logo uma visão nos antípodas da realidade de uma bomba de gasolina num subúrbio real de uma grande cidade. A maior ironia é quando os liberais reivindicam a intervenção do Estado.
A intervenção do Estado pela descida dos impostos. A intervenção do Estado pelo controle dos preços. A intervenção do Estado por meio de ajudas directas aos cidadãos e instituições. É um clássico da teoria afirmar que os mercados só funcionam com a regulação do Estado. É um clássico da teoria afirmar que os mercados só funcionam sem intervenção do Estado. É um clássico da teoria reclamar a intervenção do Estado por tudo e o seu contrário. O Governo fará o máximo para manter a neutralidade fiscal. É um clássico da teoria a demagogia e o oportunismo das forças políticas que não sabem como responder a situações extremas quando a santidade dos mercados disponibiliza o inferno em cada pistola de abastecimento.
Fala-se em racionamento, “racionalização dos consumos”, reforço do teletrabalho. Ninguém fala em reforço da qualidade e fiabilidade dos transportes públicos e utilização massiva de bicicletas e trotinetes eléctricas. O Mundo transformado numa China dos anos 70 com os trabalhadores em marcha montados em bicicletas nacionalizadas. De Ormuz a Lisboa voa-se na cotação do Brent.
Os políticos continuam a recear as eleições e voltaram a ter pavor da guerra. Os políticos continuam a ter sobretudo medo e sobretudo falta de coragem. A política receia as empresas transnacionais que têm uma nova soberania maior do que os países, a nova desordem internacional, a deriva especulativa dos mercados, o narcotráfico, o extremismo terrorista, as vagas de imigração, os partidos populistas, a inteligência artificial, o perigo da impopularidade, a verdade estática das sondagens, o abismo do desemprego, a ascensão das novas potências, o declínio das velhas potências. E com tantos motivos de medo não há espaço para a coragem de uma nova criatividade política. A criatividade política está sequestrada numa bomba de gasolina ameaçada por uma pistola de abastecimento.
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