Fusão entre EDP e Gas Natural? “Politicamente difícil de acontecer”, dizem analistas

Analistas asseguram que fusão dificilmente será aceite em Lisboa. BPI diz que maior risco da operação é o da "interferência política" dado que nenhum país quer perder controlo da nova empresa.

À partida, o negócio de fusão poderá ser interessante tanto para a portuguesa EDP EDP 0,00% como para a espanhola Gas Natural, mas esse é um cenário altamente improvável do ponto de vista político, dizem os analistas. “Será muito difícil para o Governo português aceitar”, diz o Haitong. Seja como for, este rumor vai beneficiar mais as ações da elétrica portuguesa do que as da companhia de gás espanhola.

“Politicamente, este negócio será muito difícil para o Governo português aceitar, dado que a EDP tem de facto o monopólio da distribuição da eletricidade em Portugal e de longe a maior produtora de eletricidade”, referem os analistas do Haitong, depois de a agência Reuters ter avançado que a Gas Natural abordou a EDP para uma eventual fusão.

“Embora a EDP não tenha muito capital português na sua estrutura acionista, mantém a sua sede em Lisboa, e por isso é mais fácil para o Governo lidar com a empresa. Em cima disso, a EDP é uma das últimas grandes companhias portuguesas“, justificam ainda.

Também os analistas do BPI anteveem “interferências políticas” neste negócio. “Além das considerações financeiras, o risco principal que vemos no concretizar deste negócio é a interferência política, uma vez que o controlo da nova empresa terá provavelmente maior pendor português ou espanhol, tornando um dos dois países no perdedor de uma das suas maiores companhias“, defendem os analistas Gonzalo Sánchez-Bordona e Flora Trindade.

Rumores dão ânimo à EDP

Fonte: Bloomberg (valores em euros)

Mais obstáculos

Não seriam apenas os Governos de Lisboa e Madrid a dificultar todo este processo. Também os acionistas da EDP dificilmente vão aceitar um negócio de fusão que irá levantar problemas do ponto de vista da concorrência.

“Não acreditamos que o maior acionista da EDP, a China Three Gorges (com 21,35%), esteja interessada em trocar a sua posição por uma participação minoritária na Gas Natural ou vendê-la sem um prémio de controlo elevado”, diz o Haitong. Este banco salienta ainda o facto de os direitos de voto na EDP estarem limitados a 25% e por isso “a Gas Natural teria de ser bastante generosa nos termos da oferta para convencer acionistas em número suficiente para desbloquear estes limites de votos”.

O BPI Research vê “risco limitado” da imposição de remédios por parte das autoridades de concorrência, dado que “a Gas Natural e a EDP são o terceiro e quarto player no mercado da eletricidade em Espanha e juntos passariam a deter a terceira posição. Enquanto isso, a EDP manteria a sua posição de liderança em Portugal e a Gas Natural manteria a sua posição número um no fornecimento de gás em Espanha”. “As restantes operações deverão passar do ponto de vista da concorrência”, diz o BPI.

Fusão boa para as duas empresas

Não obstante as dificuldades que tornam pouco provável a concretização da fusão, este negócio seria um “bom ajuste estratégico para as duas empresas, com pouca ou nenhuma sobreposição de negócios depois da venda da Naturgas pela EDP“, assume o BPI. O Haitong concorda. Diz que “as empresas têm portfolios complementares, o que é bom mas também reduz o potencial das sinergias.

Analisando o potencial do negócio, o BPI estima que a junção entre as duas empresas iria gerar sinergias na ordem dos 450 milhões de euros por ano, antecipando um potencial de criação de valor de 0,5 euros por ação da EDP e de 2,3 euros por ação para a Gas Natural.

O Haitong não está surpreendido com esta notícia de fusão, sobretudo depois de muitos players da indústria terem frisado que este seria um bom ano para a atividade de fusões e aquisições (M&A) entre as utilities europeias. Mas se diz que este rumor é “tendencialmente negativo para as ações da Gas Natural”, para a EDP é “claramente positivo”.

“Esta notícia — apesar de já ter sido negada — cria um ângulo de M&A numa ação amplamente penalizada e cuja avaliação está muito baixa neste momento” devido à deterioração do sentimento dos investidores por causa das investigações em torno dos contratos CMEC.

(Notícia atualizada às 9h32)

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