CTT dá dobro dos lucros em dividendos, mas Francisco Lacerda diz que isso vai acabar

Lacerda reiterou o compromisso de pagar 57 milhões de euros em dividendos relativos a um ano em que teve 27,3 milhões de lucro. Mas a estratégia de pagar acima do resultado é para acabar.

Os CTT vão dar o dobro do lucro em dividendos este ano. Face a um resultado líquido positivo de 27,3 milhões de euros em 2017, que caiu 56,1% em relação a 2016, o dividendo proposto corresponde a um pagamento total de 57 milhões de euros, isto é, um payout de 208,8%. Mas se, atualmente, os CTT são uma das empresas mais atrativas da bolsa a este nível, poderá deixar de o ser já no próximo ano. É que a estratégia de pagar mais aos acionistas do que o lucro obtido tem os dias contados, alertou Francisco de Lacerda.

“O pagar acima do resultado do exercício era a política que estava em vigor [em termos de dividendos]. Daqui em diante, a política voltará a ser pagar dividendos limitados aos resultados que tivermos no exercício”, reiterou o presidente executivo dos CTT na conferência de imprensa de resultados, esta quarta-feira. E a avaliar pelo guidance dos Correios, a trajetória de queda do volume do correio é para manter, numa faixa entre os 5% e os 6% — em 2017, cifrou-se em 5,6%, acima do previsto no profit warning emitido em outubro. Ou seja, os resultados vão continuar sob pressão.

Foi precisamente nessa altura que surgiu o corte nos dividendos, de 48 para 38 cêntimos por ação, uma decisão que fez afundar a cotação dos títulos dos Correios. Desde então, apenas recuperaram ligeiramente, cotando nos 3,15 euros. O valor compara com o mínimo de 3,043 euros atingido depois do alerta dos CTT em outubro.

O rombo nas ações dos CTT provocado pelo profit warning de outubro

Fonte: Bloomberg

Plano de reestruturação a bom ritmo, mas indemnizações pesam nas contas

Os CTT apresentaram um plano de reestruturação para fazer frente à queda no tráfego do correio. Essa estratégia inclui um plano para fechar 22 balcões de norte a sul do país e eliminar 1.000 postos de trabalho até 2020, através de rescisões por mútuo acordo.

Da lista de lojas a fechar, Francisco Lacerda fala em “20 lojas a menos e 23 postos a mais”. Ou seja, a empresa fechou duas dezenas de balcões, passando-os a postos do correio, estabelecimentos que são geridos por terceiros. O fecho das lojas, explicou Lacerda, permitiram à companhia reduzir os custos fixos.

Quanto aos trabalhadores, o gestor avançou que a empresa já rescindiu com mais de 200 trabalhadores. Desse número, 161 pessoas saíram no quarto trimestre do ano passado, o que levou o presidente executivo dos CTT a dar nota do bom ritmo do programa em curso: “Há uma aceitação das pessoas em relação às propostas que são feitas”, afirmou. As saídas permitem poupar nas despesas, mas não no imediato. No curto prazo, o efeito foi precisamente o oposto: os CTT tiveram de pagar “quase 12 milhões de euros” em indemnizações aos trabalhadores que saíram.

Ora, por falar em despesas, a rubrica dos gastos operacionais cresceu 6,5%, com a empresa de Francisco de Lacerda a registar despesas na ordem dos 633,1 milhões de euros. Confrontado com este número, o gestor apontou para os preços dos combustíveis: “2017 foi um ano em que os custos da gasolina subiram e somos sensíveis a isso”, apontou.

Banco CTT também pesa, mas é semear para colher mais tarde

O grande projeto dos CTT para o futuro é a aposta numa nova área, diferente do negócio do correio, que está em queda face à digitalização das comunicações. Trata-se do Banco CTT, que fechou o ano com depósitos superiores a 619 milhões de euros, num total de 285 mil clientes. Além do mais, tem já uma carteira de crédito à habitação de 66 milhões de euros.

No entanto, esta aposta da companhia ainda pesa nas contas. Francisco de Lacerda explicou que há um compromisso de realização de uma injeção anual de capital e, esta quarta-feira, o banco acabou por receber novo fôlego para operar: “Hoje mesmo houve um aumento de capital, o deste ano, que foi de 25 milhões de euros”, avançou o presidente executivo dos CTT aos jornalistas.

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