Lay-off? Há pessoas que encontraram emprego no meio do Covid-19

Com o número de desempregados a disparar 22% em abril devido à pandemia e mais de 100 mil empresas a aderir ao lay-off há quem consiga encontrar emprego facilmente.

A pandemia de coronavírus trocou as voltas ao mundo do trabalho, levando muitas empresas a fecharem temporariamente as suas portas, mandando para casa milhares de trabalhadores ou até a recorrerem a mecanismos de apoio do Governo como o lay-off simplificado para conseguirem pagar os salários dos funcionários. Contudo, desde a área dos recursos humanos ao telemarketing, há quem tenha conseguido trocar de emprego em plena pandemia e com o país em stand-by.

Ana Correia, 32 anos, trabalhava há cinco anos na embaixada britânica, em Portugal, mas a “vontade de abraçar um novo desafio” levou-a a começar a procurar outro emprego no início deste ano. No final de fevereiro, numa das minhas pesquisas semanais, vi a oferta de trabalho no LinkedIN da Nestlé e resolvi enviar a candidatura online, conta ao ECO, a atual responsável por Human Resources Business Partner da Nestlé Portugal.

Nessa altura, pouco se sabia da dimensão do surto em Portugal, já que os primeiros casos no país só foram detetados a 2 de março, bem como dos seus efeitos económicos.

Numa primeira fase, ainda no final de fevereiro, Ana foi submetida a uma primeira triagem por telefone. Entretanto, e ao contrário do que seria habitual, foi-lhe comunicado, no início de março, que todo o processo de recrutamento seria conduzido de “forma completamente virtual”, com as entrevistas a serem feitas por skype e com a duração de uma hora cada, devido “à expansão do Covid-19 e todas as consequências”. Consequências que, segundo as previsões da Comissão Europeia vão levar a uma subida do desemprego em Portugal para 9,7% em 2020, acima da média europeia e um agravamento de 3,2 pontos percentuais face à registada em 2019.

Pouco tempo depois, a 18 de março, o Presidente da República falava ao país a anunciar que iria declarar o estado de emergência, para travar a propagação do surto em Portugal. Nesse dia, havia já 642 casos confirmados no país. Com o confinamento “forçado” e vários setores parados, as consequências para a economia nacional revelar-se-iam severas. Nos primeiros três meses do ano, o PIB português contraiu 2,3%, em termos homólogos, segundo os dados mais recentes do INE.

Já tive dois empregos em que o meu processo de contratação foi virtual: um dos primeiros estava em Portugal e fui trabalhar para a Áustria (…) depois, para o meu segundo emprego aqui em Portugal, estava no Dubai e, por isso, também foi tudo decido à distância. Por isso, estava absolutamente confiante de que esta possibilidade era real.

Ana Correia

Human Resources Business Partner, da Nestlé Portugal

Apesar de admitir que este período foi particularmente difícil no que toca à “gestão de expectativas”, dada a incerteza em que o país estava mergulhado, Ana não é nova nestas “lides” de contrações à distância. “Já tive dois empregos em que o meu processo de contratação foi virtual: um dos primeiros estava em Portugal e fui trabalhar para a Áustria e, por isso, todo o processo foi feito de forma virtual. Depois, para o meu segundo emprego aqui em Portugal, estava no Dubai [a trabalhar para a mesma empresa que trabalhava a Áustria] e, por isso, também foi tudo decido à distância“, conta.

Dado o seu histórico anterior, Ana confessa que esteve sempre “confiante” de que a possibilidade de ser contratada “era real”, mesmo com todos os dados do desemprego a indicarem para o contrário, já que em pouco mais de dois meses a Segurança Social recebeu mais de 100 mil pedidos de subsídio de desemprego. A “boa nova” acabaria por chegar a 9 de abril, quando já estava em teletrabalho pela embaixada britânica.

Ana Correia trabalhava há cinco anos na embaixada britânica, mas vontade de “abraçar um novo desafio” levou-a até à Nestlé Portugal.D.R.

Cerca de um mês depois, a 18 de maio, e com o país a iniciar a segunda fase de desconfinamento, embarcou em definitivo na Nestlé, com todo o processo de integração e on boarding a ser feito, uma vez mais, online. A viver “uma realidade única”, Ana admite que nos primeiros dias se sentiu “um pouco ansiosa com a ideia de trabalhar à distância num organização tão grande”, mas agora diz-se mais descansada tendo em conta o apoio que a empresa lhe deu durante este processo.

Entre os grandes desafios para começar um novo emprego à distância destaca o facto de só conhecer as pessoas com quem vai trabalhar “à distância”, bem como a adaptação a novas ferramentas de trabalho. “Acho que é um marco que vai ficar na minha carreira por começar um novo trabalho em teletrabalho”, conclui.

Jennifer: mudar de emprego e casa em menos de um mês

Tal como Ana, Jennifer Lima, 27 anos, estava a trabalhar há quatro anos na mesma empresa. Com uma carreira estável, mas “aberta a sugestões”. No final de fevereiro foi contactada pela Randstad com uma oferta para a área comercial da Amorim Cork Insulation, ligada ao grupo Amorim. “Na altura estava um pouco reticente, mas disse que gostava de saber mais para poder formar uma opinião”, conta ao ECO, a atual Product Manager de Corksorb, na Amorim Cork Insulation.

Findo este primeiro contacto, Jennifer começou “efetivamente por ficar interessada” com a proposta, mas as certezas para embarcar num novo emprego só chegariam mais tarde. A primeira entrevista, já com a diretora de recursos humanos aconteceu a 13 de março, cinco dias antes de ser declarado o estado de emergência no país. “Já vinha com a ideia de que o processo iria ser posto em stand-by, porque na altura tudo o que estava a acontecer indicava para isso”, admite.

Sou de Oliveira de Bairro, no distrito de Aveiro. Além de estarmos numa situação muito desconhecida e já estarmos com bastantes medos em relação ao que aí vinha eu tinha ainda a agravante de que para mudar de emprego teria que provavelmente que mudar de casa.

Jennifer Lima

Product Mannger de Corksorb, na Amorim Cork Insulation

Contudo, após “uma longa conversa” aconteceu precisamente o contrário. “Colocaram-me completamente à vontade, deram-me todas as informações e deixaram-me completamente segura em relação ao futuro, ou seja, mesmo estando cientes do que aí vinha e de que toda a situação iria ser muito complicada, eles [a empresa] tinham a certeza de que precisavam de contratar alguém e de que isso não iria mudar”, conta Jennifer.

Ao contrário do que aconteceu na Nestlé, esta foi a última entrevista que a Amorim Cork Insulation fez presencialmente, ainda que com todos os cuidados, nomeadamente ao nível do distanciamento social e da desinfeção. A sentir-se cada vez “mais segura” e entusiasmada com o novo desafio, havia ainda um outro a ultrapassar: para mudar de emprego teria de decidir mudar de casa. Jennifer não tinha outra alternativa já que vivia em Oliveira de Bairro, no distrito de Aveiro, e as instalações da empresa onde viria a trabalhareram em Mozelos, em Santa Maria da Feira, ou seja, a cerca de 60 km de sua casa. “Foi mix de incertezas, de inseguranças, porque aconteceu muita coisa naquela altura”, revela.

Além disso, o facto de não conhecer as pessoas presencialmente antes de decidir aceitar o desafio, deixou-a reticente, mas não teve alternativa, já que “tanto a diretora de recursos humanos como o diretor da empresa — com quem viria a ter outra entrevista, mas desta vez pelo telefone –, vivem no concelho de Ovar, que estava em pleno cerco sanitário”. Já em teletrabalho pela antiga empresa, a Gres Panaria Portugal, desde 16 de março, e terminado o processo de recrutamento, Jennifer foi contactada dias depois pelo grupo Amorim a dizer que tinha sido a escolhida. “Acabei por aceitar pela segurança que me transmitiram, e, por outro lado, também por trabalhar diretamente com o diretor da empresa que era algo que eu ansiava a nível de crescimento profissional”, refere.

Quando tomou a decisão já em abril, Jennifer, tal como milhares de trabalhadores portugueses, estava em lay-off “há cerca de 15 dias”, um mecanismo de apoio criado pelo Governo que permite que os funcionários recebam dois terços do salário, sendo 30% da responsabilidade da entidade patronal e 70% pago pela Segurança Social. Segundo os dados do Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP), até 30 de abril quase 100 mil empresas pediram acesso ao regime de lay-off, num universo de 1.211.880 trabalhadores. Já os dados mais recentes divulgados pelo ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, Pedro Siza Vieira, revelam que cerca de 46 mil empresas, abrangendo 353 mil trabalhadores, pediram a renovação do estatuto.

Certo é que Jennifer diz não ter sentido tanto o impacto do corte de rendimentos, já que coincidiu com o mês da mudança de emprego. Depois de acertar todos os pormenores com a antiga empresa, a recém Product Manager de Corksorb do grupo Amorim começou a trabalhar a 4 de maio — dia em que Portugal deu o pontapé de saída no alívio das restrições — e, neste caso, já nos escritórios da empresa, mas com algumas restrições. “Conheci quase todos as pessoas com quem trabalho, mas tem sido muito estanho… Mal entrei não há a questão de apertos de mão, nem aproximações… É tudo bastante estranho”, sublinha.

Nestes primeiros dias, Jennifer ainda não teve bem a perceção relativamente ao volume de trabalho, dado que face à pandemia “muitos dos clientes estão em stand-by e, consequentemente, “as encomendas reduziram bastante no setor. Assim, vê nestes primeiros tempos uma oportunidade para absorver toda a informação e formar-se ao máximo. “Se tudo correr bem daqui a pouco tempo o mercado está de volta e eu já estou completamente preparada para atender aos pedidos dos clientes”, aponta confiante.

Arranjar emprego em quatro dias

Quatro anos mais nova do Jennifer, Susana Oliveira, de 23 anos, trabalhava há um ano e meio num órgão de comunicação social. À procura de “uma vida mais estável” e com o intuito de “crescer a nível profissional e pessoal”, Susana decidiu despedir-se dias antes de encontrar um novo emprego. “Quando enviava muitos currículos muitas vezes não me respondiam ou quando me respondiam questionavam: “Ah, mas ainda está a trabalhar? Quando é que vai estar disponível”. Então, resolvi despedir-me”, conta ao ECO.

Ao contrário de Ana Correia, Susana não tinha “grandes expectativas” de ser contratada, até pelo crescente número de desempregados no país. De acordo com os dados do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), no final de abril havia em Portugal 392.323 pessoas desempregadas, mais 48.562 do que em março, mas mais 71.083 do que no mesmo mês de 2019.

Susana Oliveira, de 23 anos, despediu-se “sem grandes expectativas” quanto ao futuro, mas acabou por ser contratada poucos dias depois.D.R.

Apesar dos “muitos receios e medos” pelo país estar “praticamente parado”, decidiu tentar perceber como é que as empresas se estavam a “reorganizar para a fase de desconfinamento”, conta. Assim, viu que poderia ter uma janela de oportunidade dado a sua formação na área da comunicação, uma vez que as empresas poderiam querer “focar-se na sua na comunicação e divulgação”.

Mesmo sem acreditar muito na sorte ou no destino, a jovem assinala que “foi um bocadinho estar no dia certo, no local certo à hora certa”. Susana candidatou-se à Ventask, uma empresa de telemarketing sediada no Parque nas Nações, pouco tempo depois de começar a primeira das três fases de desconfinamento. Depois do envio do CV, seguiu-se um contacto telefónico para marcar uma entrevista por skype.

Tinha muitos receios e medos porque sabia que o país estava parado. No entanto, quando se iniciou a fase de desconfinamento tentei perceber como é que as empresas se estavam a reorganizar. Senti que as pessoas tinham de recomeçar a trabalhar e que as empresas tinham que começar a recuperar o andamento que perderam devido à pandemia.

Susana Oliveira

Telemarketing, na Ventask

A jovem acabaria por ser contratada pouco tempo depois, mas o primeiro contacto a nível presencial só foi feito a 11 de maio. Numa altura em que já havia 27 mil casos confirmados no país e mais de 2.500 doentes recuperados. Durante quatro dias, Susana teve formação já na sede da empresa, no Parque das Nações, em Lisboa. “A formação teve de ser feita presencialmente porque dada a função, tínhamos de ser familiarizados com o programa”, explica, acrescentando que toda essa formação foi feita com as restrições impostas pela DGS. “Éramos quatro formandos e cada um estava separado por três secretárias estando o nosso formador do lado oposto da sala e claro, com máscara e álcool ao lado”, assinala.

Susana já está a desempenhar funções telemarketing, mas agora a partir de casa. Apesar de nos primeiros dias se ter sentido “um pouco ansiosa, por ser não estar com acompanhamento presencial” e de esta ser “uma nova área”, já se sente mais confortável com o trabalho a partir de casa. “Logo no primeiro dia teletrabalho percebi que estamos em constante contacto, se não for por chamada é por contacto escrito. Portanto, correu muito bem, nunca me senti desamparada“, afirma.

“Tive de montar todo o laboratório dentro do meu quarto”

Matheus Pedroso Sanches, de 24 anos, é natural de São Paulo, no Brasil. Há três anos, ganhou uma bolsa de estudo e mudou-se de malas e bagagens para Portugal, no âmbito de um programa de mobilidade semelhante ao Erasmus+. A viver um ano no Porto, rapidamente ficou impressionado com “a tranquilidade que o país tem”, bem como “a proximidade da cultura” e fez todo o processo para prosseguir os estudos em Portugal, uma vez que os exames que tinha feito no Brasil não lhe davam equivalência aqui. “Gostei muito do país, das pessoas, da comida. Entretanto, surgiu a oportunidade de vir fazer o mestrado e resolvi voltar e ficar por aqui. Não pretendo voltar ao Brasil“, afirma, determinado, o estudante finalista de engenharia eletrotécnica na Faculdade de Engenharia do Porto.

Atualmente a completar o segundo ano de mestrado, no início deste ano letivo teve de escolher o tema da tese que iria abordar neste segundo semestre. Assim, com um curso uma componente altamente prática e depois de várias pesquisas no site da universidade, em finais de outubro decidiu candidatar-se para ingressar na equipa de Research & Innovation da Altran, empresa ligada à consultoria de engenharia e R&D, para desenvolver algoritmos na área de mobilidade aérea urbana.

O primeiro contacto com a empresa foi em finais de outubro, início de novembro e apesar de nem sequer se imaginar que viria uma pandemia a colocar o mundo em suspenso, a entrevista foi já realizada por videochamada. “Mesmo antes da pandemia já utilizávamos recursos digitais“, brinca, entre risos, o jovem, explicando que a decisão foi tomada pelo facto de o responsável pelo projeto estar em Lisboa, a cerca de 300 km.

Seguiram-se mais duas reuniões, mas desta vez presenciais. Matheus acabaria por saber que tinha sido escolhido já no final do ano. “Fui um dos primeiros a ficar”, diz orgulhoso. Ainda a ter aulas presenciais, ficou decidido que começaria a trabalhar na Altran em finais de fevereiro, mas a data viria a ser adiada devido a “problemas com alguma documentação”. A 12 de março, embarcou neste novo desafio, mas, só no primeiro dia é que foi “ao escritório para ir buscar o computador e assinar alguns papéis”, conta. “Dali em diante foi tudo a partir de casa”.

Na empresa tinha, por exemplo, um sistema que simulava o GPS, mas para sistemas in door. Agora, tive que pegar nesses satélites e colocá-los à volta do quarto, nas paredes. Além disso, tive que montar toda a estrutura, já que esses equipamentos precisam de uma estrutura elétrica específica.

Matheus Pedroso Sanches

estudante finalista de mestrado na Faculdade de Engenharia do Porto e a trabalhar na Altran

Contudo, a adaptação não foi tarefa fácil e levou “algumas semanas”, já que “o trabalho é muito prático”. Para que nada falhasse, deu asas à imaginação e transformou o quarto num verdadeiro laboratório. “Na empresa tinha, por exemplo, um sistema que simulava o GPS, mas para sistemas in door. Agora, tive que pegar nesses satélites e colocá-los à volta do quarto, nas paredes. Além disso, tive de montar toda a estrutura, já que esses equipamentos precisam de uma estrutura elétrica específica. Tive de fazer estas modificações todas, foi tudo muito adaptado mas conseguiu-se fazer”, conta, satisfeito.

Com um trabalho com uma componente altamente prática, Matheus teve que fazer algumas adaptações no seu quarto para poder trabalhar a partir de casa.DR.

Além disso, destaca que a falta da interação humana é também outro dos desafios do teletrabalho.”Trabalhar com outras pessoas faz com que nos sintamos mais motivados e isso é mais complicado em teletrabalho (…) Além disso, em casa temos muitas distrações, é complicado manter o foco”, admite Matheus. Em julho, o estudante brasileiro apresenta a tese de mestrado, mas, pelo menos, até setembro tem contrato com a Altran. Para o futuro, pretende ficar por Portugal, mas não fecha portas a outros destinos. “Estou aberto a todas as oportunidades a que a vida me dá. Analiso tudo”.

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