A vacina chegou a Portugal há um ano. Os altos e baixos do processo de vacinação contra a Covid

No dia em que se assinala um ano desde que começaram a ser dadas as vacinas contra a Covid em Portugal, o ECO passa em "revista" a evolução do processo com os momentos mais marcantes e um vídeo.

Esta segunda-feira assinala-se um ano desde que começaram a ser administradas as primeiras vacinas contra a Covid em Portugal. Desde então, já mais de 8,6 milhões de portugueses completaram o esquema de vacinação primária, dos quais mais de 2,5 milhões têm a dose de reforço. O processo passou por várias fases, sofreu ajustes e apesar de ter enfrentado alguns percalços devido a falhas de entregas iniciais e problemas de vacinação indevida, levou Portugal às “bocas” do mundo, dada a elevada adesão dos portugueses à inoculação.

A 27 de dezembro de 2020 arrancou a campanha de vacinação contra a Covid em Portugal e na generalidade dos países da União Europeia. O dia ficou para a história, trazendo consigo alguma esperança. Eram 10h07 quando António Sarmento, diretor do serviço de Infecciologia do Hospital São João, no Porto, recebia aquela que era a primeira vacina contra a Covid-19 administrada em Portugal.

Nesta fase inicial, a prioridade foi vacinar os profissionais de saúde diretamente envolvidos na prestação de cuidados a doentes, bem como os trabalhadores e residentes em lares e instituições similares e profissionais e internados em unidades de cuidados continuados. Seguiram-se os idosos com mais de 80 anos e as pessoas entre os 50 e 79 anos com comorbilidades graves (insuficiência cardíaca, doença coronária, insuficiência renal e doença respiratória crónica).

O processo ia fluindo, ainda que condicionado pelo facto de haver apenas uma vacina contra a Covid aprovada pelo regulador europeu: a da Pfizer. Não obstante, a 6 de janeiro deste ano, a Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla em inglês) deu “luz verde” à vacina da Moderna e, 23 dias depois, mais precisamente a 29 de janeiro, aprovou também a vacina da AstraZeneca. Nesse mês, os processos de vacinação a nível europeu, e, consequentemente em Portugal (dada a aquisição conjunta de vacinas), sofreram um “abanão” com as farmacêuticas Pfizer e AstraZeneca a comunicarem falhas nas entregas de vacinas, sendo que a situação foi ainda mais gravosa com a farmacêutica anglo-sueca, que levou posteriormente a um litígio judicial entre Bruxelas e a AstraZeneca, entretanto resolvido.

Francisco Ramos pede demissão e Gouveia e Melo entra em cena

E, para não bastar, em Portugal somavam-se os casos de vacinação indevida, envolvendo várias instituições. Foi um desses casos que levou à demissão de Francisco Ramos na liderança da coordenação do plano de vacinação contra a Covid. A renúncia aconteceu a 3 de fevereiro e foi justificada com “irregularidades detetadas pelo próprio no processo de seleção de profissionais de saúde no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa”, do qual Francisco Ramos era presidente do Conselho de Administração.

Para o substituir foi nomeado, nesse mesmo dia, o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, que levou a “bom porto” a coordenação do plano até setembro, altura em que a task force foi extinta. O militar já fazia parte da equipa que coordenava o plano e foi a opção escolhida pelo Governo, depois de vários partidos e até o Presidente da República terem defendido que as Forças Armadas deviam ter um papel mais forte no planeamento e na logística da vacinação.

Ainda em fevereiro, as polémicas a envolverem a AstraZeneca continuaram. No início desse mês, vários países europeus, incluindo Espanha, Áustria a Alemanha, e até Portugal, desaconselharam a administração desta vacina a pessoas maiores de 65 anos, justificando que não havia dados científicos robustos sobre a eficácia desta vacina na faixa etária da população mais velha (mais precisamente a partir dos 55 anos). Em Portugal, a DGS sublinhava, que, apesar desta recomendação, em nenhum momento a vacinação deste grupo etário devia ser atrasada. Não obstante, poucos dias depois, a decisão foi revertida pela generalidade dos países, com base em novos estudos.

No entanto, a polémica voltou a estalar no início de março, após terem sido reportados casos de aparecimento de coágulos sanguíneos em adultos inoculados com esta vacina. Posto isso, vários países europeus, incluído Portugal, voltaram a suspender a administração desta vacina. Este foi, portanto, um “novo golpe” para a vacina da AstraZeneca, mas, entretanto, suavizado com a garantia dado pelo regulador europeu de que a vacina é “segura e eficaz” e de que não havia evidências suficientes (até àquela altura) que revelassem que a vacina está “associada ao aumento do risco geral de evento de tromboembolismo ou coágulos“. Contudo, a 4 de abril, o regulador europeu veio admitir que, afinal, há uma “possível ligação” entre a administração da vacina da AstraZeneca e casos raros de tromboembolismo associado ao baixo teor de plaquetas.

Pelo meio, a 11 de março, EMA aprovou o uso de emergência da vacina de dose única da Janssen, tornando-se na quarta vacina a ser aprovada na UE. No entanto, a 20 de abril, o regulador europeu veio também a constatar uma ligação entre a administração desta vacina e a formação de coágulos sanguíneos, isto apesar de sublinhar que os benefícios continuavam a superar os riscos. Foi esta conclusão que levou, no final de abril, a DGS a recomendar a utilização da vacina do grupo Johnson & Johnson só a pessoas com mais de 50 anos (decisão que foi revertida, ainda que só para o sexo masculino no início de junho).

E se até aos primeiros meses de 2021, a prioridade era vacinar os profissionais que estavam na linha da frente do combate à pandemia e, por isso, mais expostos ao vírus, bem como os mais vulneráveis, a 21 de abril a DGS alterou os critérios, pelo que a vacinação passou a contemplar o fator idade. Assim, o critério para convocação passou a ser feito por faixa etária decrescente, ainda que as pessoas com doenças consideradas de risco continuassem a ter prioridade. Além disso, a convocatória deixou de ser feita apenas através do agendamento local e central, passando também a funcionar o auto-agendamento.

O objetivo era agilizar o processo e entrar na chamada “velocidade cruzeiro”, situação que se veio a verificar três meses mais tarde. A 3 de julho, a task force anunciava a intenção de acelerar a vacinação, à luz da rápida disseminação da variante Delta. E se o objetivo era atingir as 140 mil doses diárias administradas, certo é que essa meta foi rapidamente ultrapassada, tendo Portugal chegado a administrar cerca de 160 mil vacinas num dia, a 8 de julho. Nessa semana, entre os mais de 300 centros de vacinação espalhados de Norte a Sul do país, foram dadas um milhão de vacinas.

Portugal torna-se no primeiro país do mundo a atingir os 85% da população vacinada

Até ao aparecimento da variante Delta, os cientistas estimavam que a imunidade de grupo fosse atingida quando 70% da população tivesse, pelo menos, uma dose da vacina, meta atingida a 6 de agosto em Portugal e, 12 dias mais tarde, com a vacinação completa contra a Covid. Contudo, a nova variante veio trocar “as voltas” à comunidade científica, pelo que a marca foi esticada para os 85% com as duas doses da vacina, que só veio a ser batida a 9 de outubro e que levou Portugal “às bocas do mundo”, tornando-se no primeiro país do mundo a atingir o marco.

Não obstante, ainda antes deste marco, a DGS decidiu recomendar a administração de uma dose adicional de vacina contra a Covid-19 para pessoas a partir dos 16 anos e com imunossupressão. Além disso, um mês e 10 dias depois, mais precisamente a 11 de outubro, começou a ser administrada uma terceira dose com a vacina da Pfizer a pessoas com mais de 65 anos, sendo que, à semelhança do que sucedeu com a vacinação primária, a prioridade foram os mais idosos, com mais de 80 anos. Já, na quinta-feira, o secretário de Estado Adjunto e da Saúde revelou que este reforço vai mesmo ser alargado a todas as pessoas com mais de 18 anos. Processo vai ser feito por faixas etárias decrescentes começando pelos maiores de 40 anos e dando prioridade também às pessoas com comorbilidades maiores de 18 anos.

Não obstante, em meados de novembro, com a chegada do Inverno, os casos de infeção por SARS-CoV-2 começaram a disparar e os especialistas desdobravam-se em apelos para acelerar o reforço da terceira dose para os mais velhos. E, ao contrário do que aconteceu anteriormente, os grupos etários com maior incidência eram precisamente as faixas etárias mais jovens, que ainda não estavam elegíveis para vacinação. Para piorar a situação, em finais de novembro foi detetada uma nova variante na África do Sul, a B.1.529, também designada por Ómicron.

O elevado número de mutações desta estirpe, que lhe confere uma maior transmissibilidade, fez “soar” os alarmes da comunidade científica. Neste contexto, Portugal decidiu recomendar a vacinação das crianças entre os 11 e os 5 anos, com o aval da Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid-19 e apesar das reticências do grupo de especialistas em pediatria e saúde infantil que apoia a Comissão e defendia “ser prudente aguardar por mais evidência científica” antes de tomar uma decisão final sobre a vacinação geral destas crianças.

Estas divergências levaram vários peritos a pressionarem a DGS a divulgar o parecer completo em que se baseou para tomar a decisão, que depois de alguma insistência chegou a divulgar. Assim, a vacinação das crianças está neste momento a decorrer por faixa etária decrescente, sendo que no fim de semana de 18 e 19 de dezembro foram vacinadas mais de 95 mil crianças com 9, 10 e 11 anos.

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