Num 2026 de “otimismo prudente”, esperança das aquisições está na TAP e Logoplaste

Após um ano em que as transações caíram a pique, espera-se que o mercado volte a crescer à boleia dos meganegócios no próximo ano. Talvez com maior equilíbrio de preço entre vendedores e compradores.

A reprivatização da TAP é o negócio mais esperado do próximo ano e aquele que é capaz de ter um efeito equivalente ao que o Novobanco teve na dinâmica do mercado de fusões e aquisições em 2025. O processo de venda de 49,9% da companhia aérea nacional tem derrapado de ano para ano, mas no segundo semestre avançou com as manifestações de interesse dos grupos Air France-KLM, IAG – dono da Iberia ou British Airways – e Lufthansa.

Nem o Natal travou o Governo de autorizar a Parpública a convidar o trio de interessados a participar na segunda fase da alienação, o que dá perspetivas positivas para esta megatransação. Os assessores contactados pelo ECO são unânimes em destacar a TAP no pipeline para 2026, além da conclusão da compra do Novobanco pelos franceses do BPCE por 6,4 mil milhões de euros, porque apesar de ser deste ano e do OK de Bruxelas, ainda falta a ‘luz verde’ do Banco Central Europeu (BCE).

Avião da TAP, Lisboa, 6 de julho de 2025. Lua. CARLOS M. ALMEIDA/LUSACARLOS M. ALMEIDA/LUSA

Na mira surge também a venda da Logoplaste, tendo em conta que o acionista maioritário da empresa de embalagens, o fundo de pensões canadiano OTPP – Ontario Teachers’ Pension Plan está a alienar a posição de 60% que detém. A operação, que pode incluir os 40% controlados pela família de Filipe de Botton e de Alexandre Relvas, avaliaria a empresa (entreprise value) em dois mil milhões de dólares (cerca 1,7 mil milhões de euros), segundo a Bloomberg. De acordo com o Jornal Económico, o UBS e o Barclays receberam manifestações de interesse da Apollo Global Management, da CVC DIF e da KKR.

Com interessados está também a seguradora GamaLife. A Generali, o banco italiano BFF e o BPCE são os três selecionados para a segunda fase nesta corrida, noticiou a agência Reuters. Por sua vez, as gestoras de ativos norte-americanas KKR e Stonepeak, a sueca EQT e a suíça Partners Group pretendem ‘caçar’ a Empark, que gere uma carteira de mais de 300 parques de estacionamento em Portugal, Espanha e Turquia, conforme escreveu o jornal Expansión. Qualquer uma das três operações terá implicações de relevo em Portugal.

A advogada responsável pela área de Corporate e M&A na Vieira de Almeida (VdA) encara 2026 “com otimismo prudente” devido à recente recuperação do mercado transacional e ao pipeline na calha para o primeiro trimestre, que se antecipa “particularmente ativo”. O enquadramento económico “favorável” – mais precisamente de “estabilidade macroeconómica, banca bem capitalizada, dívida pública em queda, elevada liquidez, preços de energia competitivos e infraestrutura digital avançada” – deverá sustentar a retoma de negócios de maior dimensão, bem como o investimento de private equity, diz Cláudia Cruz de Almeida.

Ao nível da execução, Cláudia Cruz de Almeida espera “um encurtamento do gap entre as expectativas de preço dos vendedores e as avaliações de mercado”, embora continue a ser necessário “estruturar transações que mitiguem o diferencial remanescente, nomeadamente através de earn-outs e vendas faseadas”. Ou seja, reduzir-se-á a diferença entre o preço que o vendedor acha que a empresa (ou ativo) vale e o valor que o comprador está disposto a pagar, ainda que se continue a ver contratos com cláusulas para pagamentos dependentes da performance seguinte.

Espera-se um encurtamento do gap entre as expectativas de preço dos vendedores e as avaliações de mercado. Permanecerá, ainda assim, a necessidade de estruturar transações que mitiguem o diferencial remanescente, nomeadamente através de earn-outs e vendas faseadas.

Cláudia Cruz de Almeida

Sócia da VdA

 

Como se a dinâmica de mercado ganhasse maior equilíbrio sem comprometer a proteção dos compradores. “Quanto a modelos de operação, deverá manter-se a procura por joint ventures com a venda de participações minoritárias ou de 50%, seja para captura de valor, reforço de equity que sustente o crescimento ou preparação de sucessões”, refere ainda Cláudia Cruz de Almeida, sócia da VdA.

“Portugal continua a ser muito atrativo”

O coordenador do departamento de Corporate da Morais Leitão também se mostra otimista para o próximo ano, porque há “muitos” fundos internacionais a apostar em Portugal, portanto o país “continua a ser muito atrativo para o investimento estrangeiro e beneficia também do bom momento da economia espanhola”. Tomás Vaz Pinto considera que os setores da saúde, tecnologia, imobiliário (fundos e reestruturação de carteiras) e infraestruturas continuarão a marcar a agenda de M&A e a energia pode voltar a ganhar relevância por causa de “alguns” projetos (sem concretizar) nesta área que estão a progredir.

Importa ainda mencionar a Semapa que, a poucos dias da Consoada, assinou um acordo para a venda de 100% do capital que detém na Secil à espanhola Cementos Molins por 1,4 mil milhões de euros, catapultando em 25% as ações da cimenteira. Um megadeal na lista para animar 2026.

É este contexto que leva Filipa Barreto, sócia de Deal Advisory (M&A) da KPMG Portugal, a perspetivar um cenário de “continuidade” e até de aumento no número de transações e “alguma normalização” no tempo de execução das operações, que ao longo do último ano se caracterizaram pela morosidade. “Vamos continuar a ter megadeals – aliás, perspetiva-se que se iniciem já no primeiro trimestre vários deals de dimensão elevada nos setores das infraestruturas e transportes, energia e indústria – que irão coexistir com um número crescente de operações de mid-market”, adianta Filipa Barreto, acrescentando que os fundos de private equity e os family offices deverão assumir um papel “bastante ativo”, após terem estado mais condicionados.

Vamos continuar a ter megadeals – aliás, perspetiva-se que se iniciem já no primeiro trimestre vários deals de dimensão elevada nos setores das infraestruturas e transportes, energia e indústria – que irão coexistir com um número crescente de operações de mid-market.

Filipa Barreto

Partner da KPMG Portugal

Assim, a performance do ano estará inteiramente ligada ao mercado de média dimensão (mid-market), do qual são exemplos a Cerealis ou a Lusiaves. Enquanto a dona da Nacional e Milaneza, liderada por Pedro Moreira da Silva, está na corrida à compra do negócio de massas alimentícias da concorrente Cerealto, a produtora avícola estará atrás – também em Espanha – da Padesa, através de um consórcio com a Valls Companys e a Tecavi capaz de pagar 350-400 milhões de euros.

Os indicadores macroeconómicos, os incentivos previstos no Orçamento do Estado e o pipeline público apontam para um enquadramento potencialmente mais favorável em 2026, embora com a prudência que o contexto internacional impõe”, afirma José Maria Corrêa de Sampaio, cocoordenador de Societário, Comercial e M&A da Abreu Advogados.

O sócio da Abreu argumenta que as perspetivas macroeconómicas são “moderadamente positivas”, uma vez que o Banco de Portugal antecipa crescimento à boleia da execução dos fundos europeus e da melhoria das condições financeiras, enquanto a Comissão Europeia aponta para uma redução do rácio da dívida pública e “uma postura orçamental mais expansionista”. “A estabilização das taxas de juro pelo BCE constitui um fator relevante para um mercado particularmente sensível ao custo da dívida”, assinala José Maria Corrêa de Sampaio, fazendo ainda referência aos incentivos fiscais ao investimento previstos no OE2026.

“Embora não se trate de medidas dirigidas especificamente ao mercado de M&A, estes estímulos podem contribuir para dinamizar o middle market. Em paralelo, assume particular relevância a aposta declarada na dinamização do mercado de capitais e o reforço da capacidade de intervenção do Banco Português de Fomento”, esclarece.

Quanto aos setores, os advisors mostram-se convictos de que são os transportes e infraestruturas, a indústria e a defesa, além dos tradicionais tecnologia, imobiliário e saúde, a ditar o ritmo das fusões e aquisições com empresas portuguesas.

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