Sondagens com resultados diferentes ‘inutilizam’ estratégia do voto útil
Estudos de opinião não afunilaram escolha na reta final da campanha, deixando os indecisos às escuras no chamado ‘voto estratégico’. Afinal, o que pode justificar os resultados díspares nas sondagens?
Na reta final da campanha, em menos de 24 horas, foram divulgadas três sondagens que apontam para a passagem de André Ventura à segunda volta das presidenciais, mas que deixaram em aberto quem irá ocupar a outra vaga para a corrida final ao Palácio de Belém. António José Seguro ainda precisa de tirar mais votos à sua esquerda? E no espaço do centro-direita, é João Cotrim de Figueiredo ou Luís Marques Mendes quem está em melhor posição para aspirar a entrar na corrida final daqui por duas semanas?
A sondagem da Católica colocou Seguro na segunda posição, com João Cotrim de Figueiredo muito perto e Marques Mendes longe desta disputa. Poucas horas depois, o estudo da Intercampus baralhou as contas e colocou o candidato apoiado por PSD e CDS como favorito poder passar à segunda volta, fazendo cair o socialista para a quarta posição. Mas antes de terminar o dia, outro inquérito feito pela Aximage devolveu Seguro ao segundo posto e Mendes ao quarto, bem atrás do candidato apoiado pela Iniciativa Liberal.
Esta diferença nos resultados entre sondagens que saíram com poucas horas de diferença na quarta-feira, assim como a consequente falta de um vislumbre mais nítido sobre os mais bem colocados na corrida eleitoral, acabou por dinamitar a estratégia dos eleitores indecisos que esperavam uma maior clarificação nestes estudos para tornarem mais ‘útil’ o seu voto, como antecipavam os analistas. Também à esquerda, mas nesta fase sobretudo à direita, na batalha pelo voto que foi da AD nas últimas legislativas.
“Em termos de comportamento eleitoral, as sondagens são um sinal de viabilidade e o ‘voto estratégico’ depende precisamente de um sinal relativamente claro para permitir coordenação. Quando as sondagens divergem, esse sinal gera ruído: é mais difícil para eleitores – sobretudo no espaço da direita moderada, onde há competição interna – convergirem num mesmo candidato ‘mais bem colocado’ para chegar à segunda volta”, resume Hugo Ferrinho Lopes.
A informação das sondagens continua a contar, mas a sua capacidade de ‘coordenar’ o voto estratégico diminui quando o retrato é inconsistente e o eleitorado está fragmentado.
Para o investigador associado do ICS da Universidade de Lisboa, o efeito provável é duplo. “Por um lado, muitos eleitores adiam a decisão e/ou votam mais ‘sinceramente’ na primeira volta, deixando a lógica mais instrumental para a segunda, onde a coordenação é inevitável. Por outro, a incerteza pode aumentar movimentos de última hora: em eleições renhidas, como esta, pequenas transferências entre candidatos próximos reconfiguram rapidamente perceções de viabilidade, ativando dinâmicas de ‘seguir quem parece mais bem colocado’ (bandwagon) ou nalguns casos de voto no outsider (underdog)”, explica.
Em suma, o especialista frisa ao ECO que a informação das sondagens continua a contar, mas “a sua capacidade de ‘coordenar’ o voto estratégico diminui quando o retrato é inconsistente e o eleitorado está fragmentado”. Neste caso, exemplifica, quando uma sondagem coloca Cotrim à frente na disputa pelo segundo lugar e outra coloca Mendes, isso complica a coordenação. Até porque, até há poucas semanas, a perceção de voto “útil” à direita era apenas em Mendes, o que, entretanto, mudou.
Além disso, “mesmo quando Cotrim aparece bem colocado, os dados sugerem um eleitorado menos fidelizado, isto é, com maior abertura a mudar, o que pode tornar o ‘voto estratégico’ mais instável até ao dia da eleição”, acrescenta Hugo Ferrinho Lopes.
As sondagens também não podem captar aquilo que não é captável: neste momento há uma grande indecisão no voto.
A politóloga Paula Espírito Santo sustenta igualmente que este panorama faz com que os eleitores na dúvida entre dois candidatos do mesmo espaço político tenham continuado ‘às escuras’. Até porque estas “não são candidaturas de convicção ideológica, mas muito centradas em desempenhos, na histórica política, pessoal e pública”. E particularmente nas presidenciais, “mesmo que haja um conjunto de fiéis que seguem o partido e a orientação partidária, uma parte dos eleitores não o fazem”.
“Neste momento temos apenas uma orientação em termos de grandes valores, mas em relação ao pódio apenas temos a certeza de que há quatro ou cinco que se mantêm e que vão flutuando as suas posições. (…) As sondagens também não podem captar aquilo que não é captável: neste momento há uma grande indecisão no voto. Além de podermos considerar o desempenho dos candidatos, há uma grande proximidade que não se consegue captar com o erro de amostragem porque ele leva à sobreposição da estatística entre as candidaturas”, expõe a professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas da Universidade de Lisboa (ISCSP).
Mas, afinal, o que pode justificar a disparidade entre sondagens, embora ela seja menos surpreendente num cenário fragmentado, com vários candidatos próximos? O investigador Hugo Ferrinho Lopes avança com três explicações.
- Erro amostral: quando as diferenças são de apenas 2–4 pontos, pequenas variações podem inverter a ‘ordem’ dos candidatos (ainda mais quando as amostras têm dimensões e margens de erro diferentes).
- Diferenças metodológicas entre estudos: modo de recolha, ponderações, critérios de ‘prováveis votantes’ e, sobretudo, o tratamento dos indecisos, que podem deslocar resultados o suficiente para mudar a hierarquia. Exemplo: na sondagem da Católica, a hierarquia muda bastante entre “intenção direta” e “com distribuição de indecisos”, pelo que comparar ‘segundos lugares’ exige ver exatamente que métrica está a ser usada.
- Timing do trabalho de campo: em campanhas voláteis e com indecisão relevante, sondagens feitas em dias diferentes podem captar momentos distintos (debates, episódios mediáticos, últimos dias de campanha), produzindo retratos diferentes sem que isso implique “erro” de uma das casas.
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