Injeção do Orçamento do Estado para pagar pensões da CGA atinge máximo da última década
Orçamento do Estado teve de transferir quase sete mil milhões de euros, em 2025, para equilibrar as contas da Caixa Geral de Aposentações, o valor mais alto dos últimos 10 anos, conclui a UTAO.
Apesar do crescimento da receita proveniente de contribuições e quotizações, impulsionado pela valorização salarial da Administração Pública, a Caixa Geral de Aposentações (CGA) voltou a registar, em 2025, um aumento da dependência do financiamento público. A transferência do Orçamento do Estado (OE) necessária para garantir o equilíbrio financeiro do sistema de pensões dos antigos funcionários públicos atingiu mesmo o valor mais elevado da última década, quase sete mil milhões de euros, em concreto 6.962 milhões de euros, segundo a análise da Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) à execução orçamental do ano passado, divulgada esta sexta-feira.
De acordo com a UTAO, “a necessidade de transferência do Orçamento do Estado para assegurar o equilíbrio das contas da CGA atingiu em 2025 o nível mais elevado da última década”, refletindo a persistência do desfasamento entre receitas próprias e encargos do sistema.
O aumento da transferência estatal ocorre apesar da evolução positiva da receita com contribuições e quotizações. Segundo a análise da unidade técnica que apoia os deputados da Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública (COFAP) do Parlamento, esta receita beneficiou das valorizações remuneratórias na Administração Pública e da evolução da massa salarial dos trabalhadores ainda inscritos no regime.
Ainda assim, o reforço da receita contributiva revelou-se insuficiente para compensar o peso da despesa com pensões. Como sublinha o relatório, a CGA continua a apresentar “um desequilíbrio estrutural entre receitas e despesas”, o que obriga ao reforço das transferências do Orçamento do Estado para assegurar o pagamento das pensões.

Receita cresce mas não compensa despesa
De acordo com o relatório da UTAO, a receita da CGA aumentou em 2025, impulsionada pelas valorizações salariais e pela evolução da massa salarial dos trabalhadores ainda inscritos no regime. A arrecadação de contribuições e quotizações foi mais favorável do que o previsto, com um crescimento de 4,6% face ao ano anterior, contrariando a previsão inicial de queda da receita.
Apesar desta evolução positiva, o reforço das contribuições não foi suficiente para acompanhar o crescimento da despesa com pensões. No total, as pensões e abonos pagos pela CGA atingiram 12.726 milhões de euros em 2025, representando quase toda a despesa do sistema. Deste montante, 11.388 milhões de euros correspondem a pensões diretamente pagas pela CGA, enquanto 621 milhões são suportados pelo Estado e cerca de 717 milhões por outras entidades, incluindo a Segurança Social.
No conjunto, estas prestações representam 98% das transferências correntes e 97,7% da despesa total do sistema, evidenciando o peso dominante das pensões na estrutura financeira da CGA.
A forte dependência do financiamento público é ilustrada pela relação entre a transferência do Orçamento do Estado e a receita contributiva do sistema. Em 2025, o rácio entre a comparticipação financeira do Estado e as contribuições para a CGA atingiu 157,6%, o que significa que o financiamento público superou largamente o valor arrecadado com contribuições.
Este indicador evidencia o peso crescente das transferências estatais no financiamento do sistema e ajuda a explicar por que razão a necessidade de apoio do Orçamento do Estado atingiu o nível mais elevado da última década.
A evolução financeira da CGA está também ligada à natureza do regime. O sistema foi encerrado a novos subscritores em 2006, passando os novos trabalhadores da Administração Pública a descontar para o regime geral da Segurança Social.
Desde então, o número de contribuintes tem vindo a diminuir progressivamente. Só entre 2024 e 2025, registou-se uma redução de 9.376 subscritores com remunerações declaradas, o que contribui para reduzir a base contributiva do sistema.
Enquanto a base de contribuintes diminui, o número de pensionistas mantém-se elevado, refletindo o envelhecimento da população abrangida pelo regime.
Sistema continua em défice
No final de 2025, a execução orçamental da CGA apresentou, assim, um saldo negativo de 120 milhões de euros, um resultado ligeiramente mais deficitário do que o previsto inicialmente no Orçamento do Estado para 2025. Ainda assim, o défice representa uma melhoria face ao resultado de 2024, quando o saldo negativo tinha atingido 202 milhões de euros.
Segundo a UTAO, esta evolução reflete o contributo positivo da receita contributiva, mas também o aumento da despesa com pensões e a redução de outras receitas do sistema.
A CGA continua assim a representar uma pressão estrutural sobre o Orçamento do Estado. Com uma base contributiva em declínio e um número elevado de pensionistas, o sistema depende cada vez mais do financiamento público para assegurar o pagamento das pensões dos antigos funcionários públicos.
Segurança Social com excedente recorde
Em contraste, o regime geral da Segurança Social voltou a apresentar um saldo amplamente positivo. Segundo a UTAO, o sistema registou um superávite de 6.671 milhões de euros em 2025, “o maior excedente anual dos últimos vinte anos”, superando o máximo anterior alcançado em 2024.
O desempenho foi impulsionado sobretudo pelo crescimento da receita contributiva, que aumentou 8,3%, refletindo a evolução favorável do mercado de trabalho e o aumento das remunerações.
Apesar do aumento da despesa com pensões e prestações sociais – incluindo o suplemento extraordinário de pensão pago em setembro –, o sistema manteve um saldo amplamente positivo.
No conjunto das Administrações Públicas, o setor da proteção social foi um dos principais responsáveis pelo excedente orçamental de 1.298 milhões de euros registado em 2025. O resultado representa uma melhoria de 893 milhões de euros face a 2024 e supera as previsões inscritas no Orçamento do Estado para 2025.
A execução orçamental do ano passado voltou, assim, a evidenciar a forte divergência entre os dois principais sistemas públicos de pensões: enquanto a Segurança Social mantém excedentes sustentados pela evolução do emprego, a CGA continua estruturalmente dependente das transferências do Orçamento do Estado.
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