BRANDS' ECO Historicamente, o Exército entra despreparado nos conflitos
Tenente-General João Boga Ribeiro, Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército, defendeu, durante os AED Days, a preparação estrutural e contínua do país para um eventual cenário de conflito.
A Europa está a reconfigurar a sua defesa a uma velocidade que não se observava desde há muitas décadas, pressionada por ameaças crescentes, cadeias de valor frágeis e uma corrida tecnológica que já não deixa margem para hesitações. Na manhã do segundo dia dos AED Days 2026 – que decorreu até sexta-feira, 29, entre Oeiras e Cascais –, os participantes mostraram-se convictos de que países como Portugal arriscam ficar na periferia se não se prepararem e, acima de tudo, cooperarem com os parceiros europeus.
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Sobre o estado da defesa europeia, Viktoria Dahlrot apresentou um diagnóstico que identificou quatro forças que estão a incentivar a remodelação do setor. Desde logo, a ameaça externa crescente, associada à redefinição da relação EUA-NATO, a aceleração tecnológica e a complexidade do procurement. Na opinião da Associate Principal da Renaissance Strategic Advisors, a Europa vive um paradoxo estrutural. “Há uma tensão entre os budgets e os requisitos, porque os requisitos também estão a crescer”, afirmou, lembrando que os países europeus precisam de modernizar capacidades, reforçar stocks e reduzir dependências externas ao mesmo tempo. A oradora sublinhou ainda que a indústria europeia tem potencial para competir globalmente, mas sofre de fragmentação. “Tem o potencial de ser um player global, mas isso requer cooperação entre países e empresas”.
No caso português, Viktoria Dahlrot destacou oportunidades em parcerias com países de dimensão semelhante, como a Bélgica, e desafios acrescidos na relação com os EUA, onde a assimetria é inevitável. “Com os EUA, Portugal não terá parceiros iguais e isso adiciona um grande desafio à cooperação”, reconheceu.
Não somos soberanos e isso precisa de mudar. Em caso de necessidade estamos por nossa conta
A sessão ‘Cyberspace Domain Session’, dedicada ao domínio digital, trouxe um alerta direto da Agência Europeia de Defesa (EDA). David Antunes, Cyber Defence Programme Manager, reforçou que o ciberespaço deixou de ser apenas um domínio defensivo e passou a integrar também capacidades ofensivas e o espectro eletromagnético. “A União Europeia (UE) não está apenas a olhar para o lado defensivo, mas também para o lado ofensivo”, afirmou. A dependência de infraestruturas civis torna a defesa europeia particularmente vulnerável, o que exige uma abordagem integrada entre Estado, indústria e sociedade. “Não somos soberanos e isso precisa de mudar. Em caso de necessidade estamos por nossa conta”, alertou.
A EDA já opera capacidades concretas, como um Centro de Operações de Segurança europeu com 20 Estados‑membros a trocar informação em tempo real. “A agência foca‑se em resultados”, sublinhou. Da parte da indústria, Eusébio Rodrigues Parente, Senior Manager da Indra, reforçou a necessidade de uma visão holística do campo de batalha digital. “Falhar num único nível vai quebrar as capacidades para proteger o ambiente”, afirmou, lembrando que a manipulação de decisores é hoje um vetor tão crítico como a intrusão técnica.
O conflito permanecerá um dos maiores aceleradores políticos, sociais, económicos e tecnológicos
No domínio terrestre, o Tenente‑General João Boga Ribeiro, Vice‑Chefe do Estado‑Maior do Exército, contribuiu com uma perspetiva histórica e operacional, lembrando que a transformação militar é sempre acelerada por conflito. “O conflito permanecerá um dos maiores aceleradores políticos, sociais, económicos e tecnológicos”, reconheceu, durante a intervenção de abertura da sessão ‘Land Domain Session’. O general destacou que a informação se tornou um quinto elemento essencial do combate, ao lado de proteção, movimento, choque e fogo, e disse ainda que a velocidade de decisão é hoje determinante. “A velocidade no ciclo de decisão é muito mais alta, e a dispersão é essencial”, explicou. Num tom particularmente direto, recordou que, historicamente, o Exército entra despreparado nos conflitos. “Todas as vezes que fomos chamados, na maioria delas não estávamos preparados”, afirmou, defendendo uma preparação estrutural e contínua do Exército.
A discussão sobre integração industrial e prontidão operacional reforçou a urgência de adaptação. Mário Martinho, da EDA, destacou a aceleração imposta pela guerra na Ucrânia, na qual “os drones se tornaram uma grande ameaça, tornando o campo de batalha muito mais transparente” e os procedimentos táticos “estão a mudar a cada três semanas”.
Jens Bauer, Senior Director Customer Service da GDELS, reforçou que “temos de nos concentrar na disponibilidade e na sustentabilidade”, ambas igualmente importantes. Da EID, o Director of Engineering, Nuno Cordeiro, apontou a interoperabilidade como o maior desafio, uma vez que os padrões são diferentes entre países. Já Alexander Wolf, Head of Product Management Unmanned Systems da Diehl Defence, destacou o papel crescente dos sistemas não tripulados. “Vemos um novo ator no campo de batalha que traz novas capacidades e táticas”, partilhou, sublinhando que o software é hoje o núcleo da capacidade militar.
A questão não é apenas gastar mais, é transformar investimento em capacidade e valor
A manhã encerrou com uma perspetiva económica trazida por Bruno Fernandes, Senior Economist do Santander, que defendeu que a defesa deixou de ser apenas despesa pública. “A defesa já não é uma obrigação de segurança, é também um ativo económico e estratégico”, afirmou. Para o economista, a Europa não sofre de falta de ativos, mas de incapacidade de os mobilizar em escala. “A segurança económica depende da capacidade de produzir, proteger e decidir”, sublinhou. Portugal, argumentou, tem condições para transformar o investimento em defesa em crescimento industrial e tecnológico. “A questão não é apenas gastar mais, é transformar investimento em capacidade e valor”, concluiu.
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