Fileira do porco traça plano de 450 milhões para atingir 80% de autossuficiência na carne

Fileira da carne do porco está a negociar com o Governo um plano para aumentar a taxa de autossuficiência dos atuais 65% para 80%, e propõe fundo para catástrofes de 100 milhões.

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  • A Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores propõe aumentar a autossuficiência de carne de porco de 65% para 80% até 2034, apresentando um plano ao Governo.
  • O plano, que requer 450 milhões de euros, visa modernizar explorações e atrair jovens para o setor, que enfrenta dificuldades devido ao aumento dos custos.
  • Se não forem implementadas mudanças, Portugal poderá precisar de importar mais carne de porco, agravando a dependência externa e afetando a produção nacional.
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Numa altura em que a fileira da suinicultura enfrenta dificuldades com o “aumento dos custos das matérias-primas” e dos combustíveis, a Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores (FPAS) quer elevar de 65% para 80% a taxa de autossuficiência de carne de porco e reduzir a dependência das importações. Para atingir esse objetivo, apresentou ao Governo um plano para a próxima Política Agrícola Comum (PAC), de 2028 a 2034, que prevê 450 milhões de euros para criar um fundo para catástrofes, modernizar e redimensionar explorações, acelerar licenciamentos, atrair jovens para a atividade e deslocalizar parte da produção para o interior.

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A estratégia, que está em negociação com o Governo, será apresentada à fileira durante a 27.ª Feira Nacional do Porco, que decorre entre hoje e sexta-feira, no Montijo, “num ano particularmente difícil para o setor”, marcado pelo aumento em cerca de 25% dos custos das matérias-primas a reboque da subida do preço dos combustíveis e do conflito no Médio Oriente, começa por assinalar o presidente da FPAS, David Neves.

O chamado “comboio das tempestades” no início deste ano agravou ainda mais a pressão sobre a produção nacional. Gerou um impacto económico na ordem dos 252 milhões de euros, deixando um rasto de destruição em “mais de 285 explorações, sobretudo nas regiões Centro, e Lisboa e Vale do Tejo, [que correspondem a] 40% da capacidade produtiva do país”, contabiliza o presidente da FPAS em entrevista ao ECO/Local Online.

As consequências já se fizeram sentir na capacidade de produção. “O efeito da tempestade Kristin obrigou à venda de alguns leitões para Espanha, porque não havia sítio para os manter em Portugal”, explica David Neves. O também líder da FILPORC – Organização Interprofissional da Fileira da Carne de Porco alerta, por isso, para o impacto no abastecimento do país.

27.ª Feira Nacional do Porco reúne fileira até esta sexta-feira, no Montijo

É neste contexto económico e geopolítico que a FPAS propõe a criação de um fundo para catástrofes, que denomina de “Fundo Resseguro do Setor”, dedicado exclusivamente à fileira da suinicultura, com uma dotação de 100 milhões de euros. O modelo proposto prevê que 25% do financiamento seja assegurado pelos suinicultores, outros 25% pelo Estado português e 50% pela União Europeia.

Esta espécie de almofada financeira para o setor visa garantir uma resposta célere e permitir a reposição da capacidade produtiva das explorações afetadas em caso de catástrofe. Este fundo poderá ainda ajudar a tornar os seguros mais acessíveis aos produtores, numa altura em que a federação denuncia os prémios elevados e as dificuldades de muitas explorações em obterem cobertura adequada para a atividade.

O primeiro trimestre deste ano foi muito mau, a fileira não descerá tanto em quantidade, mas vai descer em valor, porque de facto os preços médios pagos aos produtores são consideravelmente mais baixos do que no mesmo período do ano passado.

David Neves

Presidente da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores (FPAS)

O fundo de 100 milhões de euros integra o plano que a federação apresentou ao Governo para a próxima PAC, entre 2028 e 2034, com um envelope financeiro de 450 milhões de euros, desenhado para dar um novo impulso à fileira que inclui a produção, as rações e a indústria de transformação.

O setor emprega diretamente cerca de 18 mil pessoas, e gerou mais de 4,3 mil milhões de euros de volume de negócios em 2025, cerca de 25% do PIB agroalimentar português.

Contudo, os dados mais recentes apontam para um ano menos favorável do que 2025. Como “o primeiro trimestre deste ano foi muito mau, a fileira não descerá tanto em quantidade, mas vai descer em valor, porque os preços médios pagos aos produtores são consideravelmente mais baixos do que no mesmo período de 2025″, antecipa David Neves ao ECO/Local Online.

A manterem-se os atuais níveis de consumo, aponta o presidente da FPAS, Portugal deverá precisar de importar mais carne de porco do que em 2025, numa altura em que a capacidade produtiva nacional reduziu.

Edição de 2024 da Feira Nacional do Porco

Por tudo isto, enfatiza, “é muito importante relançar o setor da suinicultura” no âmbito de um plano mais ambicioso que assenta no reforço da produção nacional e redução da necessidade de importações. “Queremos aumentar de 65% para 80% a taxa de autossuficiência de carne de porco e reduzir a dependência das importações“, defende o representante da fileira que também propõe a modernização tecnológica do setor.

As exportações de carne de porco em 2025 atingiram 174 milhões de euros. Nos primeiros sete meses de 2026, calculou, a Europa representou 67% das vendas externas, com Espanha a absorver 94% desse valor, seguindo-se a Ásia (19%), África (13%), América (0,7%) e a Oceânia (0,3%). No total, além dos 26 países do mercado intracomunitário, Portugal conta atualmente com 28 mercados externos abertos à carne de porco produzida no país.

Queremos aumentar de 65% para 80% a taxa de autossuficiência de carne de porco e reduzir a dependência das importações.

David Neves

Presidente da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores (FPAS)

Entre os objetivos definidos pela federação para o próximo PAC está igualmente acelerar o licenciamento de investimentos e infraestruturas, e incentivar a instalação de explorações no interior. Nesse sentido, a federação propõe deslocalizar algumas fases do processo produtivo, atualmente concentradas no litoral, para zonas onde existe terra e água disponíveis.

A medida visa reduzir a pressão sobre as zonas mais saturadas e, ao mesmo tempo, contribuir para a fixação de pessoas no interior, uma das prioridades identificadas pela organização.

O rejuvenescimento do setor, reduzindo a idade média dos produtores dos 65 para 55 anos é outra das apostas. Acresce ainda criar incentivos à entrada de jovens na fileira, garantindo condições de rendimento, trabalho e investimento.

A sustentabilidade ambiental é outro dos pilares da proposta apresentada ao Governo. A FPAS propõe valorizar os efluentes das explorações como fertilizante orgânico e como fonte de energia, através da produção de biogás e biometano. O objetivo passa por reduzir a dependência de fertilizantes e energia provenientes do exterior, argumenta David Neves.

A FPAS considera igualmente necessário reforçar a capacidade de resposta a uma ameaça sanitária que continua presente na Península Ibérica: a peste suína africana, já detetada em Espanha.

A 27.ª Feira Nacional do Porco, organizada pela federação, reúne até esta sexta-feira 187 expositores, distribuídos por três pavilhões profissionais, onde estarão presentes empresas e projetos ligados à fileira, com mostras técnicas e provas de degustação de produtos à base de carne de porco.

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