Despedimentos nas maiores fabricantes são “decisões estratégicas” que o porta-voz do calçado português lamenta, mas contrapõe com subida do investimento no luxo e "novos clientes" na defesa ou saúde.
Cada vez mais empresas portuguesas do setor do calçado estão a optar por uma estratégia de subcontratação da produção no estrangeiro, em particular ao nível das componentes e em geografias na Ásia e no Norte de África. Uma combinação que os industriais portugueses querem “aprofundar”, como explica o diretor executivo da associação patronal deste setor (APICCAPS).
Em entrevista ao ECO, Paulo Gonçalves aborda ainda o despedimento recente de centenas de trabalhadores por parte das multinacionais Gabor, Ara Shoes e Ecco, que são as três maiores fabricantes de calçado em Portugal, e como a indústria nacional está a reduzir a dependência do couro e a responder a novas tendências de mercado e de sustentabilidade, com calçado em têxtil ou materiais plásticos.
O cluster do setor do calçado e artigos de pele, que exporta mais de 90% da sua produção para 174 países nos cinco continentes em valores agregados próximos dos 2.100 milhões de euros anuais, está por estes dias focado em Milão. Depois de 29 empresas de componentes terem participado na Lineapelle, uma delegação com 39 marcas nacionais está presente até esta terça-feira na MICAM, a maior feira de calçado do mundo.
Como evoluíram no ano passado as exportações portuguesas de calçado em couro, que em 2024 tinham recuado 7%? Preocupa essa quebra num tipo de artigo em que a indústria portuguesa se especializou?
Em 2025, as exportações de calçado em couro registaram um crescimento muito modesto de 0,2% em termos homólogos, para 1.413 milhões de euros. Continuam a ser o produto de referência, mas há uma aposta crescente noutros segmentos e materiais.
Quais são então esses segmentos e materiais em que a indústria nacional está a apostar?
O calçado em materiais plásticos cresceu 25,1%, para 103 milhões de euros, e o calçado em têxtil cresceu 6,6% em 2025, para 110 milhões de euros. A diversificação é deliberada: reduz a dependência do couro e responde a novas tendências de mercado e de sustentabilidade.
Algumas empresas portuguesas estão a optar por uma estratégia de subcontratação no exterior, a exemplo do que se faz noutros países. Que dimensão tem este fenómeno? A prazo é um problema ou uma ameaça para a indústria portuguesa?
Ainda é um fenómeno reduzido, mas em crescimento. Pretendemos aprofundar a subcontratação de componentes – por exemplo, de gáspeas –, tal como fazem Itália e Espanha. Olhamos para o Norte de África e para a Índia como alternativas válidas. A chave é combinar subcontratação com manutenção de capacidade industrial nacional para preservar know‑how e emprego.

Segundo dados da Informa D&B, o número de trabalhadores no setor caiu em 2023 e 2024, com 1.822 fabricantes a empregarem 31.268 pessoas no final desse ano. Têm informação atualizada sobre o número de postos de trabalho atualmente assegurados pela indústria do calçado?
Não dispomos desses números finalizados neste momento [relativos ao final do ano passado]. Contudo, podemos afirmar que a taxa de desemprego do setor diminuiu 17,84% em 2025, conforme indicadores dos centros de emprego [do IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional].
Mas nos últimos dois anos foram anunciados despedimentos coletivos envolvendo várias centenas de trabalhadores nas fábricas portuguesas da Gabor em Barcelos, da Ara Shoes em Seia e da Ecco em Santa Maria da Feira, que são as três maiores fabricantes de calçado em Portugal em receitas e as maiores empregadoras. As multinacionais estão a reduzir a aposta e a exposição ao país enquanto polo industrial?
Essas são decisões estratégicas das marcas. Há movimentos em ambos os sentidos: se algumas multinacionais reduzem capacidade, outras, sobretudo do segmento de luxo, estão a aumentar os investimentos, como é o caso do investimento expressivo da Birkenstock em Portugal, com a criação de várias centenas de postos de trabalho.
Persiste um desafio de qualificação específica à medida que o setor evoluiu para outros patamares de exigência, investe em automação e robótica.
E o que está a acontecer com essa mão‑de‑obra dispensada das multinacionais? É absorvida por outras empresas, por outros setores ou está a perder‑se? É que, por outro lado, o setor alega falta de mão‑de‑obra qualificada disponível.
Nas zonas de forte concentração do setor, como o concelho de Felgueiras, a integração no mercado de trabalho costuma ser rápida. Muitos trabalhadores dispensados são recolocados em empresas da região.
Contudo, persiste um desafio de qualificação específica à medida que o setor evoluiu para outros patamares de exigência, investe em automação e robótica. Nesse domínio, os nossos centros de formação e tecnológico desempenham um papel da maior relevância.
O comboio de tempestades que assolou o país nas últimas semanas teve algum impacto na indústria do calçado, no cluster ou nos fornecedores da indústria portuguesa? Têm conhecimento de casos mais complicados?
Felizmente, o impacto direto no setor do calçado foi reduzido, embora existam núcleos de empresas na região de Leiria afetadas e que exigem acompanhamento. Ainda assim, não temos notícias de danos generalizados no cluster.
(O jornalista viajou para Itália a convite da APICCAPS – Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos)
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Calçado “aprofunda subcontratação de componentes” em África e na Índia
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