Unicórnios, rondas e exits: as startups portuguesas que vão marcar 2020

Os unicórnios de 2020 podem bem estar escritos nas estrelas mas investidores, empreendedores e outros especialistas fazem as apostas para o novo ano do ecossistema empreendedor português.

Fim de ano, fim de década, altura de balanços e de perspetivas para o(s) próximo(s) ano(s). Se o ecossistema português se faz fundamentalmente de histórias de empreendedores, faz-se também de notícias de rondas de financiamento, de parcerias, novos mercados, crescimento — e dores de crescimento –, exits e falhanços e, claro, de unicórnios.

2019 foi ano rico em notícias de startups portuguesas: novos fundos, rondas de milhões e… nenhum novo unicórnio para o ecossistema [o último foi a Talkdesk, e ganhou o estatuto já em outubro de 2018].

Mas se 2019 já foi, 2020 está agora a começar. E há muitas previsões e apostas em cima da mesa.

Jorge Pimenta, do Instituto Pedro Nunes, não esconde as suas apostas em estágios mais iniciais. A Theia desenvolve soluções digitais interativas e sistemas de monitorização baseados em dados de satélite, a Undersee, a desenvolver “um sistema de sensores subaquáticos que permite monitorizar e prever mudanças na qualidade da água em ambientes marinhos, e a Delox, que trabalha numa tecnologia baseada numa formulação sólida de peróxido de hidrogénio e num aparelho que permite um método de bio-descontaminação rápida, que pode ser usado para “eliminar microrganismos está a aplicado na saúde, indústria farmacêutica e espaço” são três dos nomes a ter debaixo de olho.

Ricardo Marvão, cofundador da Beta-i, encara 2020 como um ano de afirmação de negócio de uma área que começou a ganhar tração em 2019. “Uma das grandes tendências vai ser a sustentabilidade em áreas como a comida, a moda e acessórios ou a higiene, entre outras. Portugal começa a dar bons passos nesse sentido”, explica, enumerando startups como Bam&Boo, Clementine, Green Tailors, Take Good Care, Fair Bazaar, Zouri Shoes, Näz, ISTO., Mushi, Mind the Trash, Maria Granel, António HandMade Story ou Yogan. “Para mim não estou a focar numa startup em específico mas acho que esta área vai crescer muito e nota-se nas vendas”, acrescenta, referindo ainda a Kencko “a crescer a olhos vistos” a nível internacional.

Já Miguel Fontes, diretor executivo da Startup Lisboa, sublinha outras apostas. “A ter de apostar em alguém, diria que a Doppio: com uma equipa muito forte, liderada por um empreendedor muito experiente e bem rodeado, está a desenvolver a solução com o interface do futuro que é a voz. Sem dúvida que o próximo ano vamos ouvir falar deles. E por falar em voz, sugiro que se mantenham atentos à Loud Voice Services e à Verbz, ambas também incubadas na Startup Lisboa, porque irão seguramente dar que falar”, justifica. Mas as apostas de Fontes não ficam por aqui. Na área de ciência de dados, também tem previsões. “A Y Data é uma empresa muito nova mas muito promissora, que está a construir soluções a partir de dados sintéticos permitindo, assim, extrair toda a informação útil em termos de big data, nomeadamente ao nível do profiling, mas sem comprometer a total integridade e anonimidade dos dados”, assinala.

João Borga, diretor da Startup Portugal, destaca não uma mas uma nova geração de startups que usam a inteligência artificial e que estão a surgir com “elevado potencial”. “Temos visto aparecer, um pouco no seguimento do sucesso de casos como a DefinedCrowd ou como a Unbabel, um conjunto de startups que também colocam o poder dos algoritmos no centro do que têm vindo a desenvolver. Estas empresas, das quais são alguns exemplos a Stratio, Ydata, Plicca, Primelayer, FarmCloud ou a Bonovox, vão com certeza dar que falar em 2020″.

A Stratio é aposta clara também para Jorge Pimenta, do Instituto Pedro Nunes. “Foi um dos destaques na abertura da Web Summit pelo desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial para manutenção preditiva para veículos pesados. E está a posicionar-se para ser um player na eletrificação da indústria automóvel, com a ronda 3,5 milhões de euros da Crane VC/LocalGlobe, com sede em Londres”, justifica.

Nesta área, também Hugo Augusto, diretor do programa da Techstars em Portugal, tem uma aposta: a Sensei. “A equipa tem demonstrado uma capacidade de execução extraordinária e tem feito uma aposta forte no produto que vai produzir bons resultados em 2020”, explica, ao ECO.

Pasito a pasito

Se o caminho de um empreendedor se faz de passos atrás de passos e, às vezes, com tempo e paciência, 2019 também trouxe sinais de que 2020 pode bem ser um ano de consolidação de crescimento.

Para Daniela Seixas, fundadora e CEO da TonicApp, há duas grandes apostas para 2020 em cima da mesa. A primeira, a Infraspeak, na área de facility management e que fechou recentemente uma ronda de investimento de 3 milhões liderada pela Indico. A segunda, a DashDash, “a desenvolver um produto que é uma spreadsheet em natureza, mas que permite ir buscar informação à web, enviar mensagens e fazer a articulação de diferentes software“. “Sigo a Infraspeak de perto, que admiro pela sua equipa e cultura fora de série. No caso da DashDash, o lançamento do seu tão aguardado produto está para breve”, explica a médica e empreendedora.

João Borga, diretor da Startup Portugal, acredita que, em 2020 a Vawlt — que, em maio de 2019, anunciou uma ronda de financiamento de meio milhão de euros e liderada pela Armilar, será uma das startups que dará que falar. “Com cada vez mais casos de quebra de segurança nos sistemas das empresas e governos, a Vawlt desenvolveu uma tecnologia de encriptação para cloud verdadeiramente inovadora e vão chegar ao mercado em 2020, com boas perspetivas de crescimento para o mercado B2B na área de segurança de dados e cloud”, justifica.

Outra das previsões de sucesso para o ano que agora arranca está na Academia de Código, “sem dúvida uma startup de relevo no ecossistema português, não só pela sua performance mas principalmente pela qualidade dos programadores que tem treinado para a comunidade e restante ecossistema”, assinala Borga. 2020 trará, antecipa o diretor da Startup Portugal, novidades. “Vamos ver mais sobre a sua escalabilidade e internacionalização. E perceber como pode impactar positivamente o crescimento da comunidade de developers nacionais e internacionais”.

Em matéria de scaleups, também Jorge Pimenta tem outra aposta: a SoundParticles, por estar “a transformar a criação de som da mesma forma que a computação gráfica mudou a imagem há alguns anos”.

Miguel Santo Amaro, cofundador da Uniplaces e investidor, prevê que 2020 traga à startup de aluguer de quartos para estudantes o “primeiro ano lucrativo da empresa, mantendo a trajetória positiva de 2019“. “Esperamos também ter novidades em relação a M&A: a Uniplaces quer comprar players mais pequenos na Europa e consolidar o mercado europeu de alojamento de média/longa duração”, assinala.

Mas há mais notícias no horizonte. O seu mais recente projeto, a StudentFinance.com, é uma das suas promessas de sucesso para o novo ano. A startup quer reformular o financiamento na educação através de tecnologia de inteligência artificial e lançou, no início de dezembro, os primeiros Income Share Agreements (ISA) na Europa, contando com o apoio de um parceiro estratégico, a Fundação José Neves, do fundador e CEO da Farfetch. “Vamos querer apoiar mais de 500 estudantes já em 2020”, afirma Santo Amaro, sobre os planos da startup que, a 6 de dezembro, anunciou ter levantado 1,15 milhões de euros na sua primeira ronda de financiamento.

Felipe Ávila da Costa, cofundador e CEO da Infraspeak, acredita que, pela expectativa do lançamento dos seus produtos, a DashDash e a Coverflex “vão dar cartas” em 2020. Sobre perspetivas de crescimento, o empreendedor acredita que a MyDidimo, a HiJiffy, a Smartex e a Springkode poderão “levantar rondas interessantes e começar a escalar”, depois de lançarem os seus negócios nos últimos anos. Também Miguel Santo Amaro antecipa crescimentos: a Coverflex, que deverá anunciar a maior ronda pre-seed em Portugal já no início de 2020.

Já em matéria de expansão internacional, as apostas de Felipe Ávila da Costa recaem sobre nomes como “a AddVolt, a Barkyn, a DefinedCrowd e a HUUB — e Infraspeak, claro! –, que vão continuar a crescer internacionalmente de forma sólida”. Nesta matéria e, depois do lançamento em Espanha, a EatTasty é a aposta de crescimento internacional de Miguel Santo Amaro para o ano que agora arranca, assim como a Barkyn, marketplace para produtos para cães fundada por André Jordão e que, em abril, anunciou ter levantado uma ronda de financiamento de 1,7 milhões de euros para acelerar expansão no mercado europeu, e a 360imprimir que, além de um rebranding para bizay, anunciou expansão para mais de 20 mercados e novidades em 2020.

Hugo Augusto detalha escolhas: entre a sua carteira de investimentos estão, na área da sustentabilidade, a 20tree, “que continua a crescer o negócio a bom ritmo com carteira de clientes globais impressionante que conta com empresas como a Stora Enso, Huksvarna, Rainforest Alliance” e, por outro, a Verbz, que levantou ronda pre-seed após participar no Techstars Lisbon com a Semapa Next e abriu escritório em Portugal. “Está a contratar 12 pessoas para desenvolver o core do produto que vai ser lançado em 2020. A lista de espera já conta com milhares de potenciais clientes”, aponta. Fora as apostas pessoais, Hugo Augusto assinala outros dois nomes: a Valispace, “uma das breakout companies, cuidadosamente escolhida pela Web Summit, com uma equipa de founders muito forte e que continua a crescer no mercado aeroespacial e automóvel difícil” e a Emotai, pela “equipa que tem demonstrado que consegue executar como provam os vários prémios nacionais e internacionais recebidos”.

Em matéria de financiamento, Miguel Santo Amaro refere a criação de um novo fundo em Portugal, Shilling Founders Fund, “que vai juntar empreendedores e business angels da ‘primeira geração’ num veículo para apoiar a próxima geração de empreendedores em Portugal. Será também um tributo ao João Vasconcelos, já que era um dos objetivos do seu último ano de vida“.

" Já ninguém terá dúvidas de que a DefinedCrowd se afirma como uma das startups portuguesas mais relevantes, sendo que provavelmente ainda em 2020 a veremos atingir o estatuto de unicórnio.”

Miguel Fontes

Diretor executivo da Startup Lisboa

Já Lurdes Gramaxo, investidora da Bynd Venture Capital, vê quatro nomes que darão que falar em 2020, e por duas razões em particular: a qualidade dos seus fundadores e pelo product/marketfit, garante. “Dídimo, pela equipa excelente liderada por uma mulher que combina qualidades técnicas/científicas excecionais e um drive empreendedor incomum. 2020 vai entrar no mercado pela porta grande no mercado de moda de luxo”; “Casafari, pela equipa experiente e complementar, portefólio de investidores muito forte destacando-se a Lakestar, e por estar a resolver um problema de grande dimensão – a enorme falta de qualidade e fiabilidade dos dados do setor imobiliário”; “A Doppio, por estar a criar toda uma nova categoria — jogos de voz — assente numa infraestrutura — a dos home devices — que está a crescer exponencialmente a nível mundial”; e, finalmente, a “Uphill, um projeto com a confiança dos maiores grupos hospitalares portugueses e multinacionais farmacêuticas, e com uma equipa muito difícil de encontrar, em que junta jovens médicos com muito drive empreendedor”.

E unicórnios, 2020?

“Quando, há dois anos referenciei a DefinedCrowd como uma das startups portuguesas mais promissoras, muitos receberam com ceticismo esta indicação. Agora, passados dois anos, julgo que já ninguém terá dúvidas de que a DefinedCrowd se afirma como uma das startups portuguesas mais relevantes, sendo que provavelmente ainda em 2020 a veremos atingir o estatuto de unicórnio”, defende o diretor da Startup Lisboa.

A Feedzai é apontada como o próximo unicórnio português por Ávila da Costa e também por Miguel Santo Amaro. A Veniam e a Unbabel são outras das apostas de Felipe Ávila da Costa. “Vão consolidar-se como referência nos seus mercados e serão os próximos unicórnios portugueses”, afirma.

Já Jorge Pimenta, do Instituto Pedro Nunes, repete os nomes mas por outros motivos. “Acho que podemos apostar mais nos exits… DefinedCrowd e a Unbabel são as que me parecem mais alinhadas”, afirma.

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