Centeno é Mário
Centeno é um homem de esquerda porque pretende fazer a síntese entre aqueles que pensam que o Estado é tudo e todos os outros que acreditam que o Estado é nada.
O ministro das Finanças das contas certas publica um livro. Mas contas certas, contas certas é o livro de Mário Centeno estar nas livrarias para esclarecimento do país em vez de permanecer no âmbito das relações secretas entre políticos. O livro pode até ser um exercício egocêntrico de uma personalidade com ambições políticas, mas corta com o hábito esdrúxulo dos antigos políticos se esconderem no silêncio.
Ninguém é ingénuo ao extremo de pensar que o livro é toda a verdade, mas é sobretudo uma versão da história de um protagonista da vida política que deseja voltar a ter um lugar central na política do país. A ter de atribuir um género ao livro, estaremos entre as memórias selectivas, a marcação de um espaço político no presente, a abertura de um novo ciclo no futuro. Centeno tem a vaidade que só a política permite e que reduz a vida normal de um cidadão a uma sequência entediante de ocorrências menores. Centeno ganhou o vício da política que é uma espécie de vírus que faz viver e que faz morrer. É esta a natureza do poder e Centeno está deslumbrado pelo poder.
Ficamos a saber que o primeiro-ministro de Portugal e o líder da oposição socialista têm uma popularidade mais baixa do que o presidente Trump. É certo que Lisboa não é Hollywood, mas Centeno parece querer transmitir aos portugueses que o país é governado por um primeiro-ministro incolor acompanhado de um candidato a primeiro-ministro cinzento. Entenda-se que ser incolor e ser cinzento em política é não mobilizar o entusiasmo do país que vota em piloto automático sem esperança ou convicção. Certamente se o critério é Trump, Ventura é a versão ibérica em registro histriónico com o fado em vibe de rap. Em política tudo é possível, Ventura é de facto popular e populista, mas sobra-lhe em índice de rejeição o que lhe falta ao nível da confiança dos portugueses para ser primeiro-ministro. Centeno tem a pretensão de ser popular sem ser populista e inspirar o país numa próxima aventura política. Será que o clássico político anti-político julga poder agitar os portugueses com o slogan tecnocrático das contas certas?
Tecnocracia é a palavra essencial para entender Centeno. O governo tecnocrático de modelo italiano está na sua imaginação política enquanto modo privilegiado para desbloquear uma situação política estagnada. Centeno despreza os partidos, detesta a intriga política, odeia a vulgaridade dos interesses particulares nos bastidores da política, por este somatório de razões Centeno é a última ratio de um sentido de missão e de uma figura política que se julga capaz de afirmar a força de uma liderança e a autoridade de um homem providencial. A política portuguesa gera homens que se julgam providenciais e que despontam para o anonimato e para o fracasso político com a facilidade de um voto nulo. Centeno ainda não iniciou a sua liderança política, mas projecta nas entrelinhas do livro um novo Portugal do futuro e mais além.
O que surpreende no livro é a completa ausência de um conjunto de referências políticas na esfera programática da social-democracia e do socialismo democrático. A vaga ideia de que Centeno não é alérgico ao bloco central é demasiado para muitos sectores de esquerda e demasiado para muitos sectores de direita. O centro vital de Centeno é um não-lugar político em pleno tempo de polarização política. No momento em que o PS está em refundação ideológica e o PSD está em perda ideológica com o abandono de liberais, conservadores, direita radical, o projecto político de Centeno não é uma ideia de país, mas uma ideia de liderança centrada no carisma de um homem só. Um homem só com toda uma nação a seu lado.
Centeno é um homem de esquerda porque pretende fazer a síntese entre aqueles que pensam que o Estado é tudo e todos os outros que acreditam que o Estado é nada. Numa escala de 1 a 10, em que 1 representa a extrema-esquerda e 10 a extrema-direita, Centeno pretende um país recentrado no indicador 4,5. A quantificação dos indicadores políticos é um clássico da tecnocracia ao serviço do bem comum – As soluções técnicas unem um país enquanto a política divide um país. Nada destas ideias são novas debaixo do sol que ilumina a aventura política.
Um facto político extraordinário é que as duas grandes personalidades que se posicionam para o futuro correm em paralelo aos partidos – Seja Centeno no PS, seja Passos no PSD. Os alarmes da democracia deviam estar a ensurdecer o país político.
Um outro facto político extraordinário é a ausência das mulheres com projectos políticos alternativos para a liderança do país. Veja-se como a Europa está a mudar politicamente com a influência de três líderes políticos no feminino – Giorgia Meloni, Marine Le Pen, Alice Weidel. O sentido da mudança está longe do centro vital, uma mudança que anuncia uma nova Europa tomada pela direita radical. Será que a igualdade de género na política nacional é a igualdade na indiferença?
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