Como Centeno iludiu toda a gente
A oposição previu um “diabo orçamental” mas saiu-lhes um “anjo orçamental” que vai além das metas. A esquerda namorou com um Varoufakis mas acabou casada com uma versão de Schauble do sul da Europa.
Quem, há pouco menos de três anos, tivesse previsto que Portugal poderia chegar ao final de 2018 com um défice orçamental muito próximo de zero seria certamente desacreditado e alvo de chacota pública.
E havia, de facto, muitas razões para ter prudência e até receio do caminho das contas públicas.
Destaco três.
A primeira é o ADN orçamental do país, confirmado pela história das últimas décadas. Nunca se valorizou devidamente a necessidade e os benefícios de ter contas públicas equilibradas de uma forma consistente e quando alguém se atrevia a defendê-lo publicamente como uma prioridade estrutural era rapidamente colocado na gaveta dos “neo-liberais”, “ortodoxos” ou “inimigos do Estado Social” e estava o caso encerrado.
Por isso, a gestão orçamental foi quase sempre feita ao sabor da conjuntura do momento, usando as margens de manobra que o crescimento económico ou a redução da factura dos juros ia dando não para consolidar contas, mas antes para colocar a despesa pública em novos patamares de rigidez que, nos anos seguintes, traziam novos problemas.
Sempre com o “credo na boca”, vários governos foram deitando mão a operações casuísticas para compor as contas deste ou daquele ano. Foram os fundos de pensões de tudo o que era empresa do Estado que passaram para a Segurança Social, venderam-se redes de telecomunicações, concessionaram-se auto-estradas e barragens. Tudo para impedir que o défice ultrapassasse os 3% (o que nem sempre foi conseguido). Sempre para responder às exigências de Bruxelas e nunca porque os governantes consideravam intimamente que ter orçamentos equilibrados é bom, antes de mais, para o país.
Sem surpresa, o pouco que foi feito foi sempre em situação de urgência ou já de ruptura e de mão estendida aos credores.
A segunda razão estava na narrativa da liderança socialista que estava a formar governo. Sem dar o mínimo sinal de ter aprendido alguma coisa com a desgraça da última década, recusando responsabilidades na sua governação que trouxe a troika, a política apregoada era a de reduzir o ritmo da descida do défice público para promover maior crescimento económico, sobretudo através do aumento do consumo. Para isso, defendiam, era preciso acabar com a austeridade, enquanto ia aumentando a lista das promessas que implicavam mais despesa ou menos receita.
A terceira razão estava na matriz ideológica da maioria de esquerda que viabilizou o governo socialista: contra o Tratado Orçamental, contra as regras de Bruxelas, desprezando os benefícios de ter contas públicas equilibradas que, de resto, não reconhecem e pedindo uma reestruturação da dívida. Do PS ao BE, era grande o entusiasmo com o Syriza na Grécia. Varoufakis era o seu ídolo e o exemplo que devíamos seguir. António Costa, ainda na oposição, diria mesmo que a “vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha”.
Chegado às Finanças, Mário Centeno estava encarregado de executar esta nova linha política. Ele mesmo tinha ajudado a defini-la, quando liderou o grupo de economistas que elaborou o programa eleitoral, o documento que previa maior gradualismo na descida do défice.
No primeiro exercício orçamental que preparou, o de 2016, ainda tentou testar a abertura de Bruxelas. Sem sucesso. O esboço voltou para trás e o governo teve que preparar mais medidas e refazer as contas para apresentar um défice mais baixo do que os 2,6% previstos inicialmente.
Mas a partir daqui tudo mudaria. Nunca se desafiou o Eurogrupo, a imperiosa reestruturação da dívida foi arrumada no fundo de uma gaveta e a prometida rebeldia orçamental transformou-se, afinal, numa evidente satisfação pela ida “além da troika” no cumprimento dos défices orçamentais. Como consequência, o país sairia do Procedimento dos Défices Excessivos e do “lixo” das agências de rating. A confiança dos credores aumentou e os juros desceram, num ciclo virtuoso que ajudou à redução do défice e a novas descidas de juros, que ajudaram mais ainda na descida do défice…
A redução do défice orçamental para valores muito próximos de zero é uma boa notícia para o país. Só não é excelente porque todos sabemos como é que isso está a ser conseguido: cortes “ad hoc” da despesa corrente e de investimento orçamentada – com evidentes impactos na qualidade dos serviços públicos – e aumentos de impostos para compensar a descida de outros e para pagar encargos que, nalguns casos, eram desnecessários – a redução do IVA na restauração, por exemplo, que será a medida orçamental mais estúpida deste governo.
Claro que devia ser de outra forma porque nada de estrutural está modificado e os riscos mantêm-se semelhantes aos do passado. Mas, pragmaticamente, temos que ter a noção que continuamos em regime de controlo de danos. Ou alguém esperava uma reforma da despesa pública de um governo suportado pelo PS+BE+PCP? Olhando para o passado sabemos que a opção presente não é entre ter contas sustentáveis ou insustentáveis. É entre ter contas insustentáveis com défice zero ou contas insustentáveis com défices de 3%, 5% ou 10% – e os aumentos equivalentes de dívida pública. Neste quadro, a opção certa parece óbvia e inquestionável.
Só Mário Centeno e António Costa poderão responder se a transmutação orçamental estava pensada desde o início, tendo sido premeditada e planeada ou se foi ocorrendo ao sabor das circunstâncias e do embate com a realidade, tendo depois deitado mão da tática das cativações e de uma ou outra receita extraordinária para suprir a diferença entre os encargos e o impacto favorável da conjuntura e da queda dos juros.
Seja como for, intencional ou acidentalmente, Mário Centeno foi iludindo toda a gente. Perante as mesmas intenções declaradas no arranque da legislatura e as medidas de aumento de despesa e descida de impostos, assistimos a duas reacções opostas.
A oposição e os cépticos viram ali o risco orçamental que elas implicavam – na verdade ainda implicam, mas enquanto esse risco não se materializar não é politicamente relevante nem significativo para a generalidade dos eleitores.
A base de apoio ao governo mais à esquerda, que inclui os bloquistas do PS, viram ali, finalmente, a mudança radical da política económica e orçamental que tanto defendem e, pela enésima vez, o princípio do fim da “ditadura” de Bruxelas – as anteriores tinham sido as eleições francesa de Hollande e grega de Tsipras.
Os primeiros previram um “diabo orçamental” mas saiu-lhes um “anjo orçamental” que vai sucessivamente além das metas, recebe o cognome de “Ronaldo das Finanças” dado pelo ortodoxo Wolfgang Schauble e acaba presidente do Eurogrupo.
Os segundos namoraram com um Varoufakis mas acabaram casados com uma espécie de Schauble do sul da Europa, um raro “bom aluno” que acaba a elogiar o resgate da Grécia de uma forma onde nem faltou o equivalente a “a vida das pessoas não está melhor, mas a do país está muito melhor”.
O processo não é novo e é até recorrente na política. Uma coisa é a narrativa e os anúncios de intenções. Outra, bem diferente, é a acção. Se ambas coincidirem, tanto melhor. Se não, paciência, que isto não é um campeonato de coerência.
No embate político, Centeno fala para a esquerda. Na gestão orçamental, Centeno actua para Bruxelas. Isto funciona durante algum tempo e enquanto não há sobressaltos na conjuntura económica.
E no futuro? No futuro próximo esse já não será um problema de Mário Centeno, que sai com a medalha do défice orçamental mais baixo da democracia. E a longo prazo estamos todos mortos, como dizia Keynes.
Nota: Este autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.
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