OE2027. Transformar vantagens em competitividade
O desafio não é descobrir uma nova vantagem competitiva. É termos a ambição e a capacidade de combinar aquelas que já temos. Portugal tem uma janela de oportunidade.
Nos últimos três artigos que escrevi sobre o Orçamento do Estado para 2027, procurei refletir sobretudo sobre aquilo que Portugal precisa de mudar para ser mais competitivo.
Defendi a necessidade de termos empresas maiores, mais produtivas e internacionalizadas. Questionei uma fiscalidade que torna mais difícil remunerar melhor o talento. E procurei mostrar que crescer também pode significar comprar, abrir o capital ou vender para ganhar foco.
Talvez faça sentido terminar esta reflexão fazendo a pergunta ao contrário: O que temos nós que os outros gostariam de ter?
Portugal é um país pequeno, com um mercado interno limitado, e mantém problemas estruturais de produtividade, capitalização e dimensão empresarial. Mas talvez estejamos demasiado habituados a construir o debate económico a partir das nossas fragilidades.
Porque Portugal reúne hoje uma combinação de condições que pode não voltar a repetir-se tão cedo. Europa. Atlântico. Língua. Talento. Inovação. Qualidade de vida. Capacidade para atrair capital. E um país que o mundo aprendeu a conhecer e a querer visitar.
Nenhuma destas vantagens é suficiente por si só. O desafio é combiná-las.
Um país pequeno pode ser uma grande plataforma
A nossa geografia foi, muitas vezes, apresentada como periférica. Talvez esteja na altura de a olharmos de outra forma.
Portugal está na União Europeia e na zona euro, mas é também um país atlântico, na interseção entre Europa, África e as Américas.
A língua e as relações históricas acrescentam outra dimensão. O espaço de língua portuguesa oferece-nos relações culturais e empresariais que muitas economias europeias não possuem. E o aprofundamento das relações económicas entre a União Europeia e o Mercosul reforça esta oportunidade.
Mas história e geografia só têm valor económico quando somos capazes de as transformar em negócio.
Uma ponte só é uma vantagem se houver empresas a atravessá-la.
Portugal pode ambicionar ser uma porta de entrada para empresas internacionais que pretendam aceder ao mercado europeu e, simultaneamente, uma plataforma a partir da qual empresas europeias abordem mercados africanos e latino-americanos.
Mas não basta sermos uma porta de entrada. Devemos ambicionar que as empresas portuguesas ocupem posições relevantes nas cadeias de valor que passam por essa porta.
Temos hoje melhores condições para o fazer.
Portugal dispõe de uma geração de profissionais muito mais qualificada, internacional e tecnologicamente preparada. E o crescimento do ecossistema de inovação acrescentou startups, centros de investigação, universidades mais próximas das empresas, investidores e empresários mais habituados a pensar globalmente.
Os cerca de 260 centros de serviços empresariais instalados no país, empregando aproximadamente 100 mil profissionais, demonstram algo particularmente relevante: grandes grupos internacionais já escolheram Portugal para concentrar funções tecnológicas, financeiras, de engenharia e serviços especializados que poderiam localizar noutros países.
Já demonstrámos que conseguimos ganhar decisões internacionais de investimento.
O desafio é fazer mais — e transformar essa capacidade em escala, inovação e valor económico criado a partir de Portugal.
Portugal ganhou charme. Transformemo-lo em investimento.
Existe outra vantagem menos convencional, mas economicamente relevante.
O turismo fez pelo país algo que décadas de promoção económica dificilmente conseguiriam fazer: colocou Portugal no mapa emocional de milhões de pessoas.
Em 2025 recebemos 32,5 milhões de hóspedes e as receitas turísticas atingiram 29,1 mil milhões de euros. Mas o verdadeiro valor criado ultrapassa estes números.
Empresários passaram férias cá. Executivos descobriram o país. Famílias internacionais começaram a considerar Portugal como lugar para viver. Empresas perceberam que conseguem atrair profissionais internacionais para trabalhar aqui.
Portugal tornou-se reconhecido, desejado e familiar.
Um país onde as pessoas querem estar tem uma vantagem quando compete por talento, investimento e centros de decisão.
Devemos saber transformar parte desse capital reputacional em capital económico.
E isso implica assumir com naturalidade algo que considero fundamental: Portugal precisa de capital estrangeiro. E não devemos ter qualquer dificuldade em afirmá-lo.
A questão não é se queremos investimento internacional. É que investimento queremos atrair e o que queremos fazer com ele.
Queremos capital que financie empresas, tecnologia, inovação, capacidade exportadora e atividades de maior valor acrescentado. Capital que ajude empresas portuguesas a crescer e que permita trazer para Portugal novas empresas e, sempre que possível, centros de decisão.
É também neste contexto que vejo mérito na possibilidade de canalizar a atratividade internacional do país através do atual regime de autorização de residência para investimento em organismos de investimento coletivo não imobiliários que investem na economia portuguesa.
Se conseguimos transformar a vontade de viver, investir ou manter uma ligação a Portugal, em capital disponível para financiar empresas e crescimento, devemos saber aproveitar essa oportunidade.
Com regulação, transparência e critérios exigentes, naturalmente. Mas sem preconceito relativamente à origem do capital.
Atrair capital não significa perder independência. Significa aumentar as opções disponíveis para quem quer investir e crescer a partir de Portugal.
Uma janela que não ficará aberta para sempre
A tudo isto junta-se uma circunstância extraordinária: a disponibilidade de fundos europeus.
Portugal dispõe, através do Portugal 2030, de cerca de 23 mil milhões de euros, depois de um ciclo igualmente excecional associado ao PRR.
Mas fundos não são uma estratégia.
Como escrevi no artigo anterior, um instrumento deve servir uma estratégia. Nunca uma estratégia ser construída para servir um instrumento.
O verdadeiro teste não será apenas quanto conseguimos executar. Será quanto da produtividade, tecnologia, capacidade exportadora e valor empresarial criado permanecerá em Portugal depois de o último euro ter sido investido.
Ao longo de mais de duas décadas de proximidade da Yunit com empresários e empresas portuguesas, assistimos a diferentes ciclos económicos e momentos de transformação.
E há uma conclusão que se repete: as oportunidades raramente aparecem quando todas as condições são perfeitas.
O que distingue muitas vezes quem consegue aproveitá-las é perceber quando um conjunto suficientemente favorável de circunstâncias se alinhou — e ter ambição para agir.
Talvez devamos olhar para Portugal da mesma forma.
Temos empresas mais internacionalizadas. Talento qualificado. Um ecossistema de inovação mais maduro. Pertença à União Europeia e ao euro. Uma posição atlântica singular. Relações privilegiadas com diferentes geografias. Capacidade para atrair capital. Instrumentos europeus de investimento numa escala dificilmente repetível.
E temos algo que não aparece numa folha de cálculo: um país que o mundo aprendeu a admirar e onde muitas pessoas gostariam de viver, trabalhar ou investir.
Isto não significa ignorar aquilo que continua por resolver.
Significa perceber que um país não constrói uma estratégia apenas corrigindo fraquezas.
Constrói-a também reconhecendo aquilo em que pode ser diferente.
O sinal que gostaria de encontrar no OE 2027
Não espero que o Orçamento do Estado transforme Portugal numa plataforma atlântica, crie empresas internacionais ou determine onde os empresários devem investir.
Essa transformação pertence sobretudo às empresas, aos empresários e aos investidores.
Mas gostaria que o OE 2027 transmitisse uma mensagem coerente com esta ambição:
Portugal quer investimento. Quer empresas maiores. Quer inovação. Quer talento e capital internacional.
E quer transformar tudo isso em empresas portuguesas mais fortes e numa economia mais competitiva.
Mais do que acrescentar novos instrumentos, precisamos de alinhar os que já temos em torno de uma ambição económica clara e criar condições para que quem queira investir, empreender e crescer a partir de Portugal o consiga fazer.
Nos últimos artigos escrevi que Portugal precisa de empresas maiores, que pagar melhores salários não pode ser um ato de coragem fiscal e que crescer também exige saber comprar, vender e partilhar capital.
Todas essas ideias convergem aqui.
Queremos empresas portuguesas com dimensão para ocupar posições relevantes nas cadeias de valor internacionais. E queremos empresas internacionais que olhem para Portugal não apenas como um bom mercado ou um bom lugar para viver, mas como uma base a partir da qual podem investir, inovar e crescer.
Tal como as empresas, os países também têm momentos estratégicos.
Talvez Portugal esteja a viver um desses momentos.
O desafio não é descobrir uma nova vantagem competitiva. É termos a ambição e a capacidade de combinar aquelas que já temos. Portugal tem uma janela de oportunidade. Agora é preciso decidir o que queremos fazer com ela.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
OE2027. Transformar vantagens em competitividade
{{ noCommentsLabel }}