É assim que a pandemia está a afetar o mundo do trabalho, setor a setor

Do turismo à indústria automóvel, passando pela agricultura e pela educação. Como está a pandemia de coronavírus a afetar o mercado de trabalho? A OIT traça o retrato.

A pandemia de coronavírus está a ter um “efeito devastador” na vida das empresas e dos trabalhadores em todo o mundo, considera a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Numa série de relatórios setoriais, a entidade liderada por Guy Ryder sublinha que já estão a ser registadas “quebras massivas” tanto do lado da produção como no que diz respeito aos empregos, em todas as áreas de atividade.

De acordo os dados que já tinham sido adiantados pela OIT, mais de quatro em cada cinco trabalhadores em todo o mundo já estão a ser afetados pelas medidas colocadas em prática pelos governos face ao surto de Covid-19, estando cerca de 25 milhões de empregos em risco de serem eliminados. “As empresas de todos os setores económicos estão a enfrentar perdas catastróficas, o que ameaça a suas operações e solvência, especialmente entre as companhias mais pequenas”, explicava a organização, num relatório recente.

Por cá, a crise pandémica também colocou um travão à melhoria do mercado de trabalho, tendo feito o desemprego disparar e milhares de empresas recorrer ao lay-off. Até ao momento, mais de 85 mil empregadores já aderiram a este regime, que o Governo garante estar a mitigar a evolução do desemprego.

Esta terça-feira, o OIT deu, além disso, um passo em frente na sua análise a avançou com uma série de retratos que ajudam a dar resposta à seguinte questão: Afinal, como é que a pandemia de coronavírus está a afetar cada um dos setores de atividade?

Turismo

A pandemia de coronavírus obrigou os governos de todo o mundo a colocarem em prática restrições às viagens, levou ao cancelamento de muitos voos e resultou no encerramento de muitas empresas dedicadas ao turismo. O impacto neste setor foi, por isso, sentido de imediato e de modo expressivo, com um recuo significativo na procura e oferta.

“Depois da propagação do vírus na região da Ásia e Pacífico, a Covid-19 espalhou-se rapidamente por todas as partes do mundo. Em março de 2020, o turismo internacional essencialmente parou“, explica a OIT, que nota que este setor é, ainda assim, conhecido pela sua resiliência, podendo estar no horizonte uma recuperação rápida.

A organização cita, por outro lado, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que estima que a pandemia e as medidas que foram tomadas em resposta poderão vir a causar uma contração entre 45% e 70% do setor em causa. No mesmo sentido, a Comissão Europeia já reconheceu que os setores do turismo e do transporte aéreo são dos mais afetados por esta crise pandémica.

No Velho Continente, estima-se que o setor turístico esteja a perder, todos os meses, mil milhões de euros em receitas em resultado deste surto. Isto explica-se, em parte, pelo recuo significativo das visitas de turistas da China, Japão, Coreia e Estados Unidos, mas também pelas perturbações nas ligações “domésticas” entre os vários países europeus.

No que diz respeito ao mercado de trabalho, este setor é caracterizado por ter “milhões de trabalhadores mal pagos e com baixas competências”, afirma a OIT. Em muitos países, esses trabalhadores enfrentam agora situações complicadas, com reduções drásticas dos horários de trabalho, cortes salariais e com o desemprego a assombrar o seu dia-a-dia. Em França, por exemplo, a pandemia levou ao fecho de 75 mil restaurantes, 3.000 clubes e 40.000 cafés, afetando um milhão de trabalhadores, que foram colocados num regime semelhante ao lay-off.

Em Portugal, o setor do alojamento, restauração e similares — muito ligado ao turismo — já concentra grande parte (cerca de 25%) dos mais de 85 mil pedidos de lay-off apresentados até agora à Segurança Social. É esse, de resto, o setor com mais requerimentos contabilizados, o que deixa perceber que o turismo é uma das áreas de atividade mais afetadas em Portugal por este surto.

Outro dado relevante nesta análise ao mercado português é o salto homólogo de mais de 41% do número de desempregados inscritos no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) registado em março no Algarve, região caracterizada pela forte aposta no setor turístico.

Transporte aéreo civil

Face às severas restrições aos voos e à expectável recessão global que se avizinha, a IATA estima que a indústria em causa perca 252 mil milhões de dólares este ano, quase 232 mil milhões de euros. E para fazer face aos efeitos da pandemia, muitas transportadoras estão mesmo a estudar estratégias de redução de custos, que podem passar pela redução dos empregos. E injeções de capital por parte dos Estados.

“O impacto da pandemia no emprego [no setor do transporte aéreo] foi imediato e significativo”, sublinha a OIT. Entre os efeitos verificados estão: a redução dos horários de trabalho; cortes salariais com acordo entre as partes ou decididos de modo unilateral pelo empregador; congelamento de contratações; recurso ao lay-off e despedimentos.

Na portuguesa TAP, a situação não foi diferente. Com praticamente toda a frota no chão (95%), a companhia aérea decidiu colocar 90% dos dez mil colaboradores em casa. Para já o lay-off foi adotado por 30 dias, mas a lei permite renovar até aos 90. A evolução da pandemia e a possível eliminação das restrições de voo vão ser determinantes para a empresa voltar a operar. Mas para já a TAP já formalizou um pedido de ajuda ao Executivo, tal como as suas congéneres, sendo que são várias as hipóteses em cima da mesa: desde financiamento com garantia do Estado a empréstimo convertível em ações, sem excluir a nacionalização.

A OIT sublinha ainda que os trabalhadores das companhias aéreas ficaram expostos a agressividade por parte dos passageiros, cujos voos foram atrasados ou mesmo cancelados; a incerteza quanto à sua segurança pessoal, sendo a limpeza dos aviões crucial para a propagação do vírus; ao stress adicional.

Agricultura

No setor agrícola, o surto de Covid-19 ainda não teve efeitos significativos, mas os desafios logísticos colocados às cadeias de distribuição e os problemas laborais que se têm verificado podem levar a “disrupções no abastecimento de alimentos”, alerta a OIT.

Por exemplo, na Europa, este setor está a registar “faltas dramáticas de mão-de-obra” face ao encerramento das fronteiras entre os Estados-membros, que tem impedido as deslocações sazonais que levavam, habitualmente, milhares de trabalhadores às quintas e plantações, durante o período de colheita. França, Alemanha, Itália, Espanha e Polónia estão particularmente expostos a este problema.

Em Portugal, a falta de mão-de-obra apontada pela OIT também já se faz sentir, tendo o Governo anunciado que irá, por isso, isentar de IRS os estudantes que queiram trabalhar neste setor, durante este período de pandemia. No plano de emergência para a agricultura, o Executivo prevê também que os trabalhadores em lay-off possam trabalhar nesse setor e ainda que os títulos de residência dos trabalhadores imigrantes empregados na agricultura se mantenham válidos, mesmo que expirem durante este período.

A OIT sublinha, por outro lado, que com o recuo das exportações, os rendimentos de milhares de agricultores podem estar em risco. A corrida aos supermercados, por outro lado, pode resultar no aumento dos preços e na desestabilização do mercado internacional, o que pode ser prejudicial sobretudo para os países onde os trabalhadores têm menos rendimento disponível, destaca a mesma organização.

Educação

Em 192 países de todo o mundo, foi decretado o encerramento das escolas, suspendendo-se assim as atividades letivas de 1,58 mil milhões de alunos. Esta medida já está a ter impacto na vida de mais de 63 milhões de professores de todos os níveis de ensino, tal como em outros tantos milhões de funcionários desses estabelecimentos.

A nota mais positiva vai para o facto de que a maioria das escolas decidiu manter os salários dos professores (dos quadros) por inteiro à medida que se faz o ajustamento do ensino para um modelo à distância, frisa a OIT. No entanto, muitos são os docentes em todo o mundo com contratos a prazo, que agora estão sob ameaça. No ensino superior, também os professores contratados e os demais funcionários estão a enfrentar despedimentos face ao encerramento dos estabelecimentos decorrente da pandemia de coronavírus.

Nos Estados Unidos, por exemplo, em alguns estados, os professores substitutos não estão a receber os seus salários face ao encerramento das escolas. E no Reino Unido, os contratos desses professores substitutos foram cessados, fechando-se também a porta aos salários.

Saúde

No setor da saúde, a rápida propagação do novo coronavírus tornou claro que é urgente que os sistemas nacionais de saúde disponham de equipas fortes, sublinha a OIT. “Os trabalhadores da saúde são a espinha dorsal do sistema de saúde”, defende a organização.

Há três grandes desafios colocados a estes trabalhadores, identifica a OIT.

Primeiro, o risco elevado de infeção. No início de abril, em 52 países, o número de casos de trabalhadores da saúde contaminados já ultrapassava os 22 mil. Aliás, lembra a OIT, a infeção destes trabalhadores é “comum deste a emergência desta doença”, devendo a sua segurança ser uma prioridade dos governos.

Em Portugal, particularmente, esta também sido uma das matérias mais enfatizadas pelos representantes dos profissionais. Ainda há uma semana, a Ordem dos Médicos denunciou que 20% dos infetados com Covid-19 são médicos, tendo alertado que a falta de equipamentos de proteção individual está a ser o “calcanhar de Aquiles” do combate ao novo coronavírus.

O segundo desafio identificado pela OIT diz respeito à saúde mental destes profissionais, que receiam contrair a doença ou transmiti-la às suas famílias e amigos. Além disso, a ansiedade está a impactar estes trabalhadores.

O terceiro grande desafio é a carga de trabalho. Muitas horas de trabalho e poucas pausas. É este o retrato do trabalho na saúde face à propagação do novo coronavírus por todo o mundo.

Têxtil e calçado

O confinamento social, o encerramento das lojas e a redução de rendimentos levaram o consumo dos produtos da indústria têxtil e do calçado a cair. As quebras na produção e nas vendas impactam, consequentemente, a vida dos trabalhadores deste setor, um pouco por todo o mundo.

No Bangladesh, por exemplo, o cancelamento de encomendas levou a perdas de receitas na ordem dos três mil milhões de dólares, cerca de 2,7 mil milhões de euros. Tal está a afetar quase 2,17 milhões de trabalhadores. Estima-se que, nesse país, menos de 20% das empresas do setor têxtil tenham capacidade para continuar a pagar os salários por mais de 30 dias, se as circunstâncias atuais se mantiverem.

Em Portugal, no setor do calçado, a pandemia de coronavírus deverá levar cerca de 39% das empresas a avançar para lay-off, até ao final do mês, adiantou ao ECO a Associação Portuguesa dos Industriais de Calçados, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos. Os empresários esperam que a retoma da atividade aconteça em maio, mas esse regresso está fortemente dependente de dois fatores: a procura externa e as cadeias de abastecimento.

E no final de março, a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) já tinha projetado que, em abril, 59% das empresas do setor espera ter uma redução superior a 50% no seu volume de negócios; 26% das empresas previa uma redução entre 30% a 50%,

Indústria automóvel

A indústria automóvel também está a ser afetada de modo significativo pela paragem abrupta e generalizada das economias por causa da pandemia de coronavírus. Com milhões de trabalhadores em casa, cadeias de abastecimentos prejudicadas e fábricas fechadas, as empresas deste setor estão a sentir o peso do surto de Covid-19, alerta a OIT.

Depois de terem enfrentado a crise financeira de 2008, os trabalhadores de todas as etapas das cadeias de produção e distribuição automóvel estão, mais uma vez, a enfrentar tempos de grande incerteza. Os primeiros efeitos da pandemia neste setor sentiram-se na Ásia, mas entretanto já se propagaram para os demais mercados, com uma queda acentuada da procura e do investimento. A desafiar esta indústria estão também a paragem da atividade económica, o confinamento dos trabalhadores e até as falhas nas cadeias de abastecimento.

Só na Europa, estima-se que 42% dos empregos da produção automóvel estejam já a ser afetados pelo surto de Covid-19. O cenário é ainda mais negro se considerarmos também todos os trabalhadores envolvidos nas cadeias de abastecimento (13,8 milhões) desta indústria, que estão a ser igualmente prejudicados por esta pandemia. Além disso, sem receitas adicionais, muitas empresas automóveis europeias “vão ter problemas significativos de liquidez” a curto – médio prazo, avisa a OIT.

Também nos Estados Unidos, cerca de 150 mil trabalhadores sindicalizados e milhares de outros não filiados a qualquer sindicato estão a ser afetados pela crise pandémica atual.

Por cá, a exemplificar os efeitos da pandemia neste setor está a PSA de Mangualde, que fechou as portas dos seus centros de produção face não só à propagação do vírus, mas também às falhas nas cadeias de abastecimento. Também a Autoeuropa suspendeu a sua produção no final de março, mantendo os serviços mínimos. Entretanto, a fabricante automóvel já anunciou que irá retomar a atividade a 20 de abril, recorrendo ao lay-off para alguns trabalhadores, uma vez que serão menos os turnos em curso. Ainda assim, deverá a empresa continuar a pagar salários a 100%.

A OIT nota, além disso, que o impacto desta pandemia vem somar-se aos efeitos disruptores que a transformação tecnológica e as alterações climáticas já estavam a ter nesta indústria e nos seus trabalhadores.

Retalho alimentar

O aumento considerável da procura no setor do retalho alimentar está a traduzir-se no crescimento de empregos disponíveis e, em alguns países, num reforço dos salários oferecidos. Isto ao mesmo tempo que se têm multiplicado os conflitos laborais, com os trabalhadores a exigirem mais proteção social, segurança e respeito pelos horários de trabalho.

No que diz respeito ao crescimento do emprego, a OIT adianta que no Reino Unido, por exemplo, cadeias como a Asda estão a contratar mais de 12 mil trabalhadores temporários e quatro mil trabalhadores permanentes. Nos Estados Unidos, a conhecida Walmart planeia, por sua vez, recrutar 150 mil novos trabalhadores.

No mesmo sentido, em Portugal, os supermercados DIA, por exemplo, lançaram uma campanha de recrutamento para reforçar temporariamente a suas lojas e centros de distribuição, depois do Lidl ter abertos vagas para 500 novos trabalhadores. Além disso, algumas cadeias — como o Continente, o Auchan e o Lidl — criaram prémios para os trabalhadores de 20% do salário, no caso das duas primeiras, e 40% do salário, no caso da terceira.

Além disso, com a corrida aos supermercados e um reforço das compras online, foram ajustados os horários de trabalho para dar resposta à maior procura e garantir que as prateleiras dos estabelecimentos estão bem abastecidas. A OIT nota, por outro lado, que esses novos horários têm sido particularmente desafiantes para os trabalhadores cujos filhos estão em casa face ao encerramento das escolas.

Setor marítimo e pescas

O setor do transporte marítimo é responsável, todos os anos, por cerca de 90% do comércio internacional, representando a maior artéria dessas trocas. A pandemia de coronavírus já está, contudo, a pressionar esse setor: até meados de abril, o volume transportado tinha recuado 13% e estima-se que essa queda possa vir mesmo a tocar nos 32%. O impacto no emprego “é portanto substancial”, sublinha a OIT.

Já no que diz respeito à pesca, face ao surto de Covid-19, muitos barcos estão impossibilitados de saírem dos porcos e a procura por peixe diminuiu, o que tem pesado sobre as dezenas de milhões de pescadores de todo o mundo.

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