ECO da Campanha. Centrão espreita vaga na segunda volta pela ‘janela’ da moderação

Com Cotrim enredado no caso de assédio sexual, candidatos apoiados por PS e PSD ganham fôlego no assalto final a Belém. Aniversariante Ventura veste camuflado da "ordem" e deixa almirante maldisposto.

António José Seguro durante um evento de campanha eleitoral numa empresa de produção de frutas e legumes, em Montemor-o-VelhoEPA/JOSÉ COELHO 15 janeiro, 2026

Em menos de 24 horas foram divulgadas três sondagens que apontam para a passagem de André Ventura à segunda volta das presidenciais, mas que deixam em aberto quem irá ocupar a outra vaga para a corrida final ao Palácio de Belém. A sondagem da Católica coloca António José Seguro nessa posição, tal como a da Aximage – deixando ambas Luís Marques Mendes muito atrás –, enquanto o estudo da Intercampus confere esse estatuto ao candidato apoiado pelo PSD e CDS, fazendo cair o socialista para a quarta posição.

Com o concorrente João Cotrim de Figueiredo enredado na acusação de assédio sexual por parte de uma ex-assessora do partido liberal, os candidatos apoiados pelo PS e pelo PSD andaram esta quinta-feira na estrada a disputar o território da moderação, ocupado tradicionalmente ao centro por estes dois partidos. O mote tinha sido dado na véspera por Luís Montenegro, que catalogara Seguro nos “extremos” e acenara com o perigo de ter os candidatos apoiados pelo PS e pelo Chega na segunda volta.

Após visitar uma empresa de produção de frutas e legumes em Montemor-o-Velho, o socialista respondeu ao líder do PSD que “a democracia se constrói com o diálogo, não se constrói com extremismos, nem com radicalismos”.

“Dentro de dois meses espero estar a receber o atual primeiro-ministro em Belém, para trabalharmos em conjunto para resolvermos os problemas dos portugueses, e alguém tem que contribuir para manter uma relação institucional positiva”, ironizou Seguro, que viu Jorge Pinto dizer que respeitará os eleitores de esquerda que votem “útil” no próximo domingo.

Luís Marques Mendes durante uma ação de campanha em AmaranteMIGUEL A. LOPES/LUSA 15 de janeiro, 2026

Moderação, experiência e “preocupação com a estabilidade” foram os atributos que, logo pela manhã e sob a intensa chuva de Amarante, Marques Mendes reclamou para a candidatura, num derradeiro apelo aos que votaram AD nas legislativas de maio.

Agora mais animada com a luz ao fundo do túnel que vislumbra na reta final da campanha, a comitiva laranja preparou uma mensagem, divulgada em vídeo, em que Cavaco Silva elogia precisamente as qualidades pessoais e as competências do seu ex-ministro para “garantir a estabilidade política” através de “entendimentos entre os partidos políticos, entre as forças económicas e sociais, entre o Governo e a oposição”.

Tema quente

Assédio sexual volta à campanha liberal

João Cotrim Figueiredo, acompanhado por Rui Cernadas, CEO da empresa têxtil Adalberto Textile Solutions, em Santo Tirso. ESTELA SILVA/LUSAESTELA SILVA/LUSA

O caso de alegado assédio sexual por parte de João Cotrim de Figueiredo voltou a entrar na campanha eleitoral esta quinta-feira depois de a antiga assessora do grupo parlamentar, Inês Bichão, ter enviado um comunicado à agência Lusa a referir que “a veracidade dos factos” envolvendo o candidato presidencial será apurada nos tribunais. A advogada e consultora jurídica garantiu mesmo que “os factos em causa foram reportados em sede interna no decurso de 2023”.

Logo de manhã, através de fonte oficial, a Iniciativa Liberal respondeu ser “completamente falso que tenha havido qualquer queixa interna ou reporte, formal ou informal, sobre o candidato presidencial”, ao mesmo tempo que rejeitou “visceralmente uma campanha suja que lança acusações muito graves sem qualquer evidência ou prova”. A líder do partido, Mariana Leitão, confirmou ao candidato que “não há qualquer denúncia, alegação ou queixa” contra si.

Já a meio da tarde, depois da visita a uma fábrica têxtil em Santo Tirso, Cotrim de Figueiredo tomou a iniciativa de fazer uma declaração aos jornalistas para os acusar de serem “cúmplices” de um “autêntico assassinato de caráter brutal”. Queixando-se que os órgãos de comunicação social não estão a fazer “o menor esforço para fazer uma cobertura equilibrada e sã” deste caso, atirou ainda: “Têm ideia do que fizeram à minha vida?”.

 

A figura

Aniversariante Ventura veste camuflado da “ordem”

No dia em que completou 43 anos de idade, André Ventura ouviu cerca de 300 apoiantes cantarem-lhe os parabéns durante uma iniciativa de campanha em Ponte de Lima e, vestido com um casaco com padrão camuflado militar que lhe foi oferecido por um grupo de antigos combatentes presentes no comício, decretou que o país “terá ordem” a partir de domingo.

Falando de si já como futuro Comandante Supremo das Forças Armadas (cargo inerente às funções de Presidente da República), criticou os adversários que “têm uma forma sempre floral de falar e de dizer que vão fazer as coisas” e prometeu que consigo em Belém não será assim.

“Eu não vos vou trazer conversa bonita e fiada. (…) A partir de 18 de janeiro é tempo de ordem e eu espero ser o Presidente dessa ordem”, afirmou.

Quem não gostou de o ver usar camuflado militar foi Gouveia e Melo. “Isso deixa-me mesmo muito maldisposto porque o doutor André Aventura nunca foi sequer ao serviço militar obrigatório”, declarou o ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. “Deve ter cuidado com os símbolos que usa; os uniformes são para quem usou uniforme e serviu a pátria em uniforme”, acrescentou, falando mesmo em “desrespeito”.

Não foi o único desentendimento do dia entre ambos. O almirante arrancou o dia na feira de Gondomar a dizer que o voto em Ventura é “inútil” porque perderá com qualquer oponente à segunda volta, o que levou o também presidente do Chega a ripostar que “inútil é votar em candidatos que dizem exatamente o mesmo há 50 anos [e] que não conseguem senão dizer generalidades, ou votar em candidatos que vão andar com Luís Montenegro ao colo”.

Henrique Gouveia e Melo durante um evento de campanha eleitoral em GondomarJOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

 

O número

3

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) abriu três procedimentos administrativos relacionados com o cumprimento da lei das sondagens, após a monitorização da desinformação nas redes sociais na campanha presidencial. No entanto, não revela quais são os casos nem os envolvidos.

A entidade reguladora assinou em novembro de 2025 um protocolo com o LabCom da Universidade da Beira Interior (UBI) para monitorizar e identificar conteúdos de desinformação publicados nas redes sociais durante a pré-campanha e campanha das presidenciais. Até esta semana identificou 14 conteúdos desinformativos, com 86% dos casos a envolverem André Ventura, que atingiram mais de 7,7 milhões de visualizações nas redes sociais.

A 5 de janeiro, a Lusa Verifica revelou que André Ventura e apoiantes a partilharam um “inquérito da Intrapolls” que o colocam “à frente de Marques Mendes” na corrida presidencial. Os dados, porém, resultam de um modelo baseado em Inteligência Artificial, não de um inquérito e os dados apontavam para um empate.

 

A frase

"O que me moveu nesta candidatura nunca foi ter o melhor resultado possível, nunca foi ficar à frente de um determinado candidato. (…) Votem livremente. Se isso levar a que votem em mim, fico muito feliz. Se levar a que votem noutras candidaturas, com medo de uma segunda volta entre um candidato antidemocrático e outro demasiado próximo do Governo, cá estarei também para reconhecer e estar confortável com isso também. Porque é a decisão dessas pessoas, consciente e informada. E cá estarei também para compreender e aceitar.”

Jorge Pinto

Candidato presidencial apoiado pelo Livre

 

Norte-Sul

No último dia de campanha, António José Seguro começa o dia bem cedo na feira de Vila do Conde, a meio da manhã já estará no mercado do Bolhão (Porto) e pára na margem sul do Douro para um almoço nos Bombeiros Voluntários de Valadares. Para as 17h30 tem prevista uma arruada nas Caldas da Rainha e segue depois para o Fórum Lisboa. E é precisamente na capital que também André Ventura estará focado neste último dia, com o prato forte a ser a descida do Chiado, agendada para o início da tarde e com ponto de encontro no Largo do Camões.

À direita, enquanto João Cotrim de Figueiredo passará o dia no Minho – visita o mercado de Guimarães e depois uma fábrica têxtil no mesmo concelho, fechando com um jantar-comício em Braga –, Luís Marques Mendes arranca no mercado municipal de Sintra, tem um almoço com mulheres na Cervejaria Trindade (Lisboa), um encontro com apoiantes na Gare Marítima e outro com jovens no mercado de Algés.

A área metropolitana de Lisboa é também o foco de Henrique Gouveia e Melo no último dia na estrada: visita o mercado de Benfica (Lisboa), a AFID Local (Amadora), o Museu Paula Rego (Cascais) e segue daí de comboio para o comício e festa de encerramento no Pátio da Galé. É também na Baixa lisboeta que António Filipe, apoiado pelo PCP, tem a iniciativa forte no fecho da campanha: uma arruada que tem início às 17h30 no Largo do Chiado.

Finalmente, Catarina Martins poderá cruzar-se com o oponente liberal no derradeiro dia da campanha presidencial no mercado de Guimarães, visita depois as oficinas da EMEF em Guifões (Matosinhos) e janta na associação de moradores da Bouça, no Porto. É da Invicta, mais propriamente de Campanhã, que Jorge Pinto parte de comboio rumo à estação de Santa Apolónia, para um comício de encerramento no Teatro da Luz com a presença de Rui Tavares e Isabel Mendes Lopes, deputados do Livre.

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