As eleições mais renhidas de sempre à primeira volta e o fantasma de 1986
11 candidatos disputam a primeira volta das presidenciais deste domingo. Seguro, Ventura, Cotrim, Marques Mendes ou Gouveia e Melo podem passar à etapa seguinte marcada para 8 de fevereiro.

As eleições presidenciais de 2026 deste domingo caminham para a primeira volta mais renhida de sempre. Sondagens sucessivas colocam cinco candidatos dentro da margem de erro, sem um favorito claro, num cenário que vários politólogos ouvidos pelo ECO descrevem como o mais competitivo da história da democracia portuguesa. Seguro, Ventura, Cotrim, Marques Mendes ou Gouveia e Melo podem passar à segunda volta marcada para 8 de fevereiro.
A comparação com 1986 — até agora o grande referencial histórico de imprevisibilidade — surge quase automaticamente. Mas os especialistas deixam um aviso claro: há pontos de contacto, sobretudo na incerteza, sem que exista uma verdadeira analogia estrutural entre os dois momentos.
Até hoje, 1986 foi a única eleição presidencial decidida numa segunda volta. Nesse ano, a disputa só se tornou verdadeiramente renhida após a primeira votação, quando o confronto passou a opor diretamente Mário Soares e Diogo Freitas do Amaral, acabando por ser decidido por pouco mais de dois pontos percentuais.
Na primeira volta de 1986, Freitas do Amaral partiu em clara vantagem, beneficiando da concentração do voto à direita, enquanto a esquerda se apresentou dividida. “Foi uma eleição que só se tornou renhida entre voltas, quando o sistema político se organizou em torno de dois polos”, recorda o constitucionalista Jorge Miranda, sublinhando que “o momento decisivo ocorreu depois da clarificação do campo político”.
O cenário atual é distinto. A competitividade surge logo à partida, com várias candidaturas dentro da margem de erro para passar à segunda volta. Para o politólogo António Costa Pinto, trata-se de uma consequência direta da transformação do sistema partidário: “Hoje não há uma bipolarização automática. O eleitorado está mais fragmentado e o voto útil tende a surgir mais tarde, o que comprime os resultados logo na primeira volta.”
Também o debate sobre o papel do Presidente da República ajuda a explicar esta configuração. Em 1986, a eleição foi lida como decisiva para o equilíbrio institucional, num contexto de governo forte liderado por Aníbal Cavaco Silva. O Presidente era então encarado como um possível contrapoder ativo, com margem para intervir politicamente.
Essa perceção alterou-se ao longo das décadas. “Os poderes do Presidente são os mesmos, mas a cultura política mudou”, observa o constitucionalista Vital Moreira. “Hoje espera-se sobretudo uma função de moderação e de garantia do regular funcionamento das instituições, o que reduz a carga plebiscitária das presidenciais.”
Essa evolução contribui para que a disputa atual se concentre menos num confronto ideológico direto e mais na aritmética eleitoral da primeira volta, marcada por indecisão, volatilidade e possíveis movimentos de última hora. Ao contrário de 1986, quando a clarificação só ocorreu entre votações, o desfecho poderá agora ser fortemente condicionado logo no primeiro momento.
Sendo uma eleição sem nenhum incumbente, não há um candidato que se destaque em relação aos outros.
Caso se confirmem as tendências, estas presidenciais poderão ficar marcadas como as mais equilibradas de sempre antes de uma eventual segunda volta, distinguindo-se das de 1986 não pela intensidade da polarização, mas pela proximidade dos resultados desde o início do processo eleitoral.
Sem um Presidente incumbente e com um número recorde de candidatos com hipóteses reais de chegar à segunda volta, a primeira volta destas presidenciais é apontada como a mais renhida de sempre.
Para Marco Lisi, do departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a explicação começa logo na ausência de uma figura dominante. “Sendo uma eleição sem nenhum incumbente, não há um candidato que se destaque em relação aos outros”, afirma. A este fator junta-se “o número mais elevado de candidatos, sobretudo os que têm hipótese de passar à segunda volta”, bem como a presença de outsiders, o que aumenta a competitividade e torna o desfecho mais difícil de antecipar.
Cinco candidatos, um empate técnico
As sondagens têm reforçado esse cenário de fragmentação. Marco Lisi refere que os estudos disponíveis indicam “uma grande competitividade entre cinco candidatos”, com ligeiras tendências divergentes: crescimento de António José Seguro e João Cotrim de Figueiredo e quebras relativas de Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes. Ainda assim, alerta, essas dinâmicas podem não ser suficientes para garantir um lugar na segunda volta, já que candidatos como Marques Mendes ou André Ventura partem de bases eleitorais mais sólidas.
A incógnita maior, acrescenta Lisi, está fora do alcance das sondagens: “O que vai fazer a diferença é a abstenção e os indecisos e é aí que se vai decidir a eleição”.
Também Bruno Ferreira Costa, professor de Ciência Política na Universidade da Beira Interior, sublinha que todas as sondagens colocam cinco candidatos dentro da margem de erro, algo inédito em presidenciais portuguesas: “Temos cinco candidatos com possibilidades reais de passar à segunda volta e esse cenário nunca esteve presente em sondagens ou eleições anteriores”. Para o politólogo, esta realidade resulta não só do elevado número de candidaturas (11), mas também de campanhas que “mimetizam a disputa de eleições legislativas”, com debates pouco esclarecedores e forte influência de dinâmicas mediáticas externas. “O cruzamento de apoios partidários — muitas vezes divididos entre vários candidatos — contribui para uma leitura mais complexa por parte do eleitorado e para um cenário de profunda divisão”, sublinha.
Temos cinco candidatos com possibilidades reais de passar à segunda volta e esse cenário nunca esteve presente em sondagens ou eleições anteriores.
Hugo Ferrinho Lopes, investigador associado do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, fala mesmo num “empate técnico alargado”. Nos agregadores de sondagens, observa-se uma concentração de intenções de voto muito próximas entre Ventura, Gouveia e Melo, Marques Mendes, António José Seguro e Cotrim de Figueiredo. Neste contexto, “pequenas variações — indecisos, mobilização no dia, voto estratégico ou dinâmicas mediáticas — podem alterar bastante a ordem de chegada”.
A conclusão é dupla: elevada probabilidade de segunda volta e enorme incerteza sobre quem lá chega — e em que posição. A primeira volta, mais do que escolher um vencedor, definirá um duelo e abrirá um novo ciclo de campanha.
Na mesma linha, André Azevedo Alves, professor de Ciência Política da Universidade Católica Portuguesa, considera provável que os candidatos que passem à segunda volta o façam com resultados a rondar os 20%. “As sondagens”, nota, “mostram uma quebra continuada de Marques Mendes e Gouveia e Melo, estabilidade de Ventura, crescimento consolidado de Seguro e uma forte dinâmica ascendente de Cotrim de Figueiredo” — sinais claros de uma corrida sem favoritos inequívocos.
O fantasma de 1986
A comparação com as presidenciais de 1986 surge de forma recorrente, mas com reservas. Marco Lisi considera que há “poucas analogias”, para além da imprevisibilidade sobre quem passa à segunda volta — hoje ainda maior do que então. “Não consigo encontrar muitas analogias, com exceção da imprevisibilidade de quem passa à segunda volta, que é maior do que costuma ser normalmente, mas nestas eleições é muito maior do que era em 1986”, afirma em declarações ao ECO.
Bruno Ferreira Costa acrescenta que, ao contrário do entusiasmo democrático e europeu que marcava 1986, o contexto atual é de desgaste e descredibilização da classe política, sem candidaturas capazes de se destacar claramente: “Temos agora um período de algum desgaste e forte descredibilização da classe política. Por outro lado, em 1986 tínhamos duas candidaturas fortes, nomeadamente numa primeira fase a de Freitas do Amaral e em crescendo a de Mário Soares, agora verificamos que nenhum candidato tem conseguido sobressair e se destacar, pelo que a imprevisibilidade é o mote de análise sobre quem estará na segunda volta”.
A diferença essencial é que, em 1986, a disputa estava mais rapidamente polarizada em torno de um eixo relativamente definido, enquanto agora o quadro parece mais aberto e competitivo ‘a cinco’ na frente, o que aumenta a incerteza na passagem à segunda volta.
Para Hugo Ferrinho Lopes, o paralelismo mais útil é a ideia de “duas eleições numa”: vencer a primeira volta não garante a vitória final, como demonstrou o desfecho entre Freitas do Amaral e Mário Soares. “A diferença essencial é que, em 1986, a disputa estava mais rapidamente polarizada em torno de um eixo relativamente definido, enquanto agora o quadro parece mais aberto e competitivo ‘a cinco’ na frente, o que aumenta a incerteza na passagem à segunda volta e torna mais difícil antecipar transferências de voto”, aponta.
“40 anos depois o contexto político é, obviamente muito diferente. Ao contrário de 1986, não é previsível que haja um vencedor claro na primeira volta — como foi Freitas, mas que não obstante foi derrotado na segunda volta. A direita tem hoje sociologicamente mais peso em Portugal mas curiosamente as profundas clivagens internas no seu interior — refletidas na elevada taxa de rejeição que Ventura ainda tem — fazem com que a esquerda possa voltar a conquistar a Presidência apesar de ser hoje claramente minoritária em Portugal”, considera André Azevedo Alves.
A direita tem hoje sociologicamente mais peso em Portugal mas curiosamente as profundas clivagens internas no seu interior — refletidas na elevada taxa de rejeição que Ventura ainda tem — fazem com que a esquerda possa voltar a conquistar a Presidência apesar de ser hoje claramente minoritária em Portugal.
Quatro décadas depois de 1986, o consenso entre os politólogos é claro: nunca como agora a primeira volta foi tão disputada e nunca como agora foi tão difícil antecipar quem seguirá para a decisão final em Belém.
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