Quem é o croata que ganhou a corrida a Centeno para ‘número 2’ do BCE?
Em 2014, dois anos após ter sido nomeado governador do banco central, Boris Vujčić enfrentava pedidos de demissão por parte de “lesados” que pediram dinheiro em francos suíços para compra de casa.

Há dois anos, num encontro de bancos centrais do Mediterrâneo, em Split, Croácia, Boris Vujčić contou a história de Diocleciano, imperador romano que há mais de 1.700 anos travou uma dura batalha contra a hiperinflação.
“Os seus antecessores, como muitos outros governantes na história, tiveram a brilhante ideia de aumentar a quantidade de dinheiro cunhando mais moedas. Faziam-no adicionando mais metais sem valor às moedas de prata. Como resultado, a moeda romana estava a perder valor, e o que se seguiu foi um período de hiperinflação”, começou por contar no seu discurso perante outros governadores, incluindo Mário Centeno, então governador do Banco de Portugal.
Para conter a inflação Diocleciano “estabeleceu um teto para os preços e salários” com a introdução do Édito dos Preços Máximos de 301. “Embora a violação fosse punível com a morte, esta medida encontrou forte resistência, e as mercadorias desapareceram dos mercados, criando um mercado negro ainda maior, o que levou à revogação do Édito”, contou Boris Vujčić para depois explicar o que os bancos centrais e governos devem aprender com a história e como lidar (ou não lidar) com a escalada da inflação — como se fazia sentir em 2024.
“O controlo de preços pode ser eficaz para um conjunto muito restrito de produtos e serviços e a curto prazo, uma vez que, a longo prazo, o controlo de preços distorce os sinais do mercado e leva à alocação ineficiente de bens e serviços. Curiosamente, esta lição continua a ser relevante até hoje”, começou por referir.
“Há apenas um ou dois anos, vários países introduziram diversas formas de controlo de preços em resposta aos choques globais nos preços da energia e dos alimentos. Esta foi, provavelmente, a medida política de curto prazo mais pragmática e viável naquele momento. Ainda existem alguns resquícios de controlo de preços, mas precisamos de garantir que não os utilizamos em excesso”, declarou.
Visto como um ‘falcão’, Boris Vujčić, 61 anos, vai ser o próximo ‘número dois’ do Banco Central Europeu (BCE) a partir de 1 de junho, sucedendo ao espanhol Luis de Guindos, isto depois de ter vencido a corrida a outros cinco candidatos, incluindo o português Mário Centeno.
Desde 2012 que lidera o banco central croata (depois de 12 anos como vice-governador) e foi um dos responsáveis que ajudou o país a aderir à moeda única em 1 de janeiro de 2023.
O argumento de que os chamados países do alargamento precisam de começar a ter uma representação mais relevante a nível comunitário e das suas principais instituições poderá ter ajudado decisivamente a candidatura de Boris Vujčić nesta eleição.
Este economista tem um currículo sobretudo local, com a sua formação a fazer-se em Zagreb, a capital do seu país, ainda que tenha sido professor visitante em instituições em Inglaterra, Alemanha e EUA.
O seu primeiro emprego foi enquanto professor universitário e entrou para o Banco Central da Croácia em 1996, para liderar o departamento de research económico, continuando por vários anos a ser professor.
Em 2014, dois anos após ter sido nomeado governador do banco central, Boris Vujčić enfrentou pedidos de demissão por parte de “lesados” que na década anterior tinham pedido empréstimos em francos suíços para comprar casa, mas acabaram por ‘sufocar’ com a valorização da kuna (moeda croata).
“É claro que não me vou demitir. Fui o único que alertou para os riscos relacionados com o franco suíço há 10 anos. Agora, aqueles que se calaram na altura querem responsabilizar-me”, respondeu então.
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