Seguro foi ao unicórnio contrariar “Estado castrador” e “prurido” com privados

Candidato entrou na Sword Health a desculpar-se por não vestir t-shirt e saiu a confessar um “sonho de pequenino”. Pelo meio, disse 'why not' às empresas e entusiasmou-se com inteligência artificial.

O candidato presidencial António José Seguro visitou a empresa Sword Health, no PortoJOSÉ COELHO/LUSA 6 fevereiro, 2026

Protagonista das eleições presidenciais – em que Virgílio Bento vê um confronto entre “uma visão progressista que olha para Portugal como um país de bem, que gosta de acolher os outros e nivela por cima; e uma visão de ódio, ressentimento e afastamento que puxa as pessoas para baixo”–, António José Seguro passou a última manhã da campanha a ser apaparicado pelo fundador e CEO da Sword Health, que o apresentou às centenas de colaboradores no Porto, onde mantém a sede tecnológica, como “o antídoto perfeito para o extremismo”.

Após uma prolongada visita por estes escritórios amplos, quentes e modernos – já depois da primeira volta das presidenciais, a unicórnio comprou a rival alemã Kaia por 285 milhões de dólares –, ouviu o empreendedor nortenho distribuir-lhe elogios (tal como nas autárquicas apoiou Carlos Moedas em Lisboa e foi mandatário de Manuel Pizarro no Porto) e sentou-se à frente de uma plateia composta por jovens profissionais da empresa para responder a perguntas. Bem-disposto, começou por pedir desculpa por não envergar uma t-shirt, como o anfitrião que tinha ao lado.

António José Seguro recebeu o apoio de Virgílio Bento, CEO da unicórnio Sword Health.Lusa

A startup é especializada no setor da saúde, que Seguro elegeu precisamente como prioridade na campanha eleitoral. E combina sensores de alta precisão para reabilitação física no domicílio com inteligência artificial (IA), que o candidato acha uma “ferramenta essencial que pode poupar dinheiro” e “uma oportunidade espetacular” também para ser introduzida no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Até para “libertar recursos” para melhorar a organização e fazer com que os portugueses consigam aceder a ele “a tempo e horas”.

A Sword Health tem tentado trabalhar com o SNS e chegou a oferecer ao INEM um sistema de atendimento automático de chamadas com recurso a IA, acabando a queixar-se com estrondo das dificuldades em integrar a sua solução no sistema de informação “frágil” e “obsoleto” daquele instituto público. Esta sexta-feira, a propósito da reorganização dos serviços públicos, Seguro assumiu “não [ter] nenhum prurido ideológico em relação aos privados”.

“Pelo contrário. O Estado tem de procurar as melhores soluções e ferramentas. Se elas estiverem no privado, why not [porque não]?”, defendeu.

Não tenho nenhum prurido ideológico em relação aos privados. Pelo contrário. O Estado tem de procurar as melhores soluções e ferramentas. Se elas estiverem no privado, why not [porque não]?

António José Seguro

Candidato presidencial

Por outro lado, quando o jovem engenheiro Jorge o questionou na plateia sobre a burocracia e a resistência à mudança no Estado, o favorito à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa desferiu um duro golpe aos custos de contexto, que atingiram o nível mais alto em dez anos e são queixa recorrente dos empresários portugueses.

“O Estado, que devia ser um aliado, é o castrador de quem quer investir. Cria prazos e processos a que não consegue responder em tempo útil. Pede sempre mais um papel na sua inércia e incompetência. Se fosse possível fazer uma auditoria para eliminar as burocracias, isso seria muito útil”, resumiu.

Na linha do que os patrões exigem ao Governo, que “passe das palavras aos atos” e vá “mais longe” na reforma do Estado, o candidato apoiado pelo PS defendeu que esta tarefa não se pode ficar apenas pela extinção ou fusão de organismos, que os resultados precisam de ser avaliados (“isto não vai lá por caprichos”) e que é preciso “introduzir uma disrupção no Estado para ser mais eficiente”. Lembrando que a função pública tem 700 mil pessoas, frisou que “fazer esta adaptação a uma nova cultura vai demorar tempo, por isso tem de começar já”.

Na quinta-feira, o Governo aprovou um regime excecional e temporário que prevê a isenção do controlo administrativo prévio, de modo a acelerar a reparação urgente e a reconstrução de casas nas regiões afetadas pelas tempestades dos últimos dias. No palco da Sword Health, Seguro apresentou-o como “uma prova de como o Estado tem de mudar muito”.

É que, alegou, se “o primeiro-ministro anunciou medidas excecionais para as medidas chegarem mais cedo, quer dizer que com as ordinárias esse apoio nunca mais chegaria”. “Então, que se passem as [regras] extraordinárias a ordinárias”, rematou.

Antes de as luzes se apagarem, de as cadeiras começarem a ser recolhidas e de dizer aos jornalistas que “a culpa não vai morrer solteira” e prometer “fazer perguntas” sobre a tempestade Kristin em Belém, o vencedor da primeira volta reclamou independência – “sou verdadeiramente livre e até ao momento ninguém me capturou” –, associou-se à rebeldia e ambição que via à sua frente na plateia – “sou um de vós, tenho o sonho desde pequenino que este país possa ser diferente” – e terminou em apoteose, entre palmas, com um trocadilho: “Quando há um risco muito grande, o melhor é fazerem um Seguro”.

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