‘Feirantes’ do calçado voltam a Milão com apoios em atraso
Industriais do calçado estão a caminho de Itália para participar na maior feira do mundo. Plano de promoção internacional para 2026 e 2027 prevê investimento de 20 milhões e envolve 120 empresas.
A indústria portuguesa do calçado está a caminho de Milão, onde a partir deste domingo conta com uma delegação composta por 39 empresas na MICAM, considerada a maior feira de calçado do mundo. Mais uma vez, os empresários de um setor, que no ano passado produziu 80 milhões de pares de sapatos e contribuiu com 854 milhões de euros para a balança comercial portuguesa, voltam a fazer as malas com demora na liquidação dos apoios à promoção internacional, embora haja promessas de que o “fluxo de incentivos” possa ser retomado nas próximas semanas.
Segundo adiantou ao ECO o diretor executivo da associação do calçado (APICCAPS), “em 2024 e 2025, as empresas tiveram de antecipar os custos dos processos de internacionalização”. “Por via de novas diretrizes de Bruxelas, há atrasos nos reembolsos, o que pressiona o fluxo de tesouraria das empresas e condiciona a atividade promocional do setor. No final, quem perde é o país”, lamenta Paulo Gonçalves.
Há atrasos nos reembolsos, o que pressiona o fluxo de tesouraria das empresas e condiciona a atividade promocional do setor. No final, quem perde é o país.
“Estamos em contacto regular com o Governo. Se o aumento do peso das exportações no PIB é um desígnio nacional, precisamos de um quadro normativo estabilizado e de novos estímulos à atividade exportadora das empresas”, acrescenta o responsável da entidade patronal que lidera e submete os projetos conjuntos de internacionalização neste setor que fechou 2025 com um ligeiro crescimento (0,8%) nas vendas ao exterior, num total de 1.718 milhões de euros.
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No âmbito dos projetos conjuntos de internacionalização, destinados ao apoio à participação em feiras e outras atividades de internacionalização, os beneficiários são as associações empresariais, isto é, não há pagamentos diretos às empresas. Aprovada a candidatura, o pagamento dos incentivos é efetuado na sequência da apresentação de pedidos de reembolso e sequente validação por parte da AICEP.
Questionada sobre o valor dos incentivos por devolver aos vários setores, fonte oficial do Compete 2030 respondeu que “até à presente data já foram efetuados pagamentos num valor total de 20,4 milhões de euros, correspondente a 39 pedidos de pagamento cujas verbas foram já transferidas para as entidades, encontrando-se em circuito de pagamento 2,8 milhões de euros”.
“Neste momento estão em análise cerca de 17 pedidos de reembolso, cujo pagamento será efetuado em breve”, prometeu.
Neste momento estão em análise cerca de 17 pedidos de reembolso, cujo pagamento será efetuado em breve.
Sobre os constrangimentos que estão em causa, o gabinete do Compete 2030, liderado por Alexandra Vilela, sublinhou ao ECO que “eventuais atrasos que se registem no pagamento do incentivo aos beneficiários, que neste momento são minoritários, estão relacionados com questões no âmbito da validação da regularidade da despesa e a sua elegibilidade”.
“Os pagamentos aos beneficiários estão a ser realizados em função da avaliação dos pedidos de pagamento apresentados e na medida em que estes reúnam as condições para emissão das respetivas ordens de pagamento”, indicou ainda, realçando que em 2025 foi implementada uma modalidade de adiantamento contra-garantia pública de 40% do incentivo aprovado, sem custos para os beneficiários e que “permite acelerar a disponibilização de tesouraria às entidades, mediante pedido apresentado pelas associações”.
“Fluxo de incentivos” a retomar nas próximas semanas
Alexandra Vilela, que em dezembro de 2024 substituiu Nuno Mangas na presidência do Compete, montou nos últimos meses um grupo de trabalho, no qual a APICCAPS participou, com o objetivo de “simplificar e agilizar” estes processos.
Manuel Carlos, presidente delegado da associação patronal do calçado, sublinhou esta manhã ao ECO que “o novo concurso referente a 2026 e 2027 já segue essa linha e prossegue com regras muito mais simplificadas”.
“Nesse sentido, feitos todos os esclarecimentos, com um diálogo muito construtivo com AICEP e Compete, que revelaram grande abertura, o projeto de 2025 foi aprovado e o de 2026 e 2027 está em vias de aprovação”, destaca o responsável da APICCAPS.
Manuel Carlos descreve ainda esta novidade como “um forte estímulo para as empresas” do setor, confiando que “está tudo organizado para que nas próximas semanas o fluxo de incentivos às empresas seja retomado”.
Plano de 20 milhões para contrariar fase “especialmente complexa”
Para o biénio 2026–2027, o investimento em promoção internacional vai superar os 20 milhões de euros, envolvendo mais de 120 empresas, de acordo com os dados fornecidos ao ECO pela associação patronal. E perto de uma centena integraram um total de 11 ações em mercados internacionais concretizadas logo nos primeiros dois meses deste ano, o que compara com as sete iniciativas no exterior realizadas no mesmo período do ano passado.
Num “esforço notável para procurar novos mercados e consolidar os existentes, num momento conjuntural especialmente complexo”, como enquadrou Luís Onofre, presidente da APICCAPS, nestes dois meses, as empresas nacionais aproximaram-se de clientes, distribuidores em oito mercados estratégicos: Alemanha, Colômbia Dinamarca, Espanha, Estados Unidos da América, França, Itália e Reino Unido.

Além de um reforço das iniciativas fora da União Europeia, em janeiro e fevereiro houve igualmente mais ações direcionadas ao subsetor dos componentes para calçado: constituído por 238 empresas, assegura 4.378 postos de trabalho e exporta anualmente perto de 72 milhões de euros. Aliás, uma comitiva de 29 empresários dedicados a este ramo de atividade esteve há poucos dias no mesmo recinto de feiras para a Lineapelle, também em Milão.
Com um plano estratégico montado para se tornar numa década “uma referência internacional no desenvolvimento de soluções sustentáveis”, o cluster do calçado contabiliza ter em andamento cerca de 600 milhões de euros de investimentos até 2030. Dois dos mais relevantes, enquadrados no PRR – Plano de Recuperação e Resiliência, têm conclusão prevista para este ano: 70 milhões de euros em sustentabilidade (projeto BioShoes4All) e 50 milhões de euros em automação e digitalização (projeto FAIST).
Conheça as marcas portuguesas com stands nesta edição da MICAM:
- Ambitious (Celita)
- Bianco (Last Studio)
- C.O.M. – Creation of Minds (Carité Calçado)
- Creator (Ibershoes)
- Cruz de Pedra
- Dark Collection (Mazoni)
- Felmini (J. Moreira)
- Fenacci (Ladrical)
- Fly London / Softinos / As Portuguesas (Kyaia)
- Helena Mar (La Salvezza)
- Pratik / Jefar
- Jooze / Pretty Love (Joseli Calçados)
- Lapierce / Uauh! (Passodado)
- Last Studio
- Lemon Jelly (Procalçado)
- Maray
- Marta Ponti (Malas Peixoto Soares)
- Mata / Men’s Devotion (Fábrica de Calçado da Mata)
- MLV Portuguese Shoes (Manuel Lima Vieira)
- Nano / Pinto di Blu (A. Hernâni)
- Overstate (Celita)
- Calçado Penha
- Portania (Ecco Conforto)
- Profession: Bottier (Ferreira Avelar & Irmão)
- SMR23 (Traçar Tendências)
- Softwaves (ComforSyst)
- Suave (Calsuave – Indústria de Calçado)
- Take a Walk
- Tentoes Trekking (Arda, grupo Carité)
- Valuni (Eurodavil – indústria de calçado)
- Walkys (Fábrica de Calçado Shoe-Me)
- Wedo / Maison Toufet (Cort-Gin – Ind Cortes e Sapatos Ginástica)
(O jornalista viajou para Itália a convite da APICCAPS)
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