À espera de postes, Nos ainda tem 5 mil clientes sem rede fixa

Rede móvel da Nos totalmente recuperada. No fixo, há postes que não são da operadora e 5 mil clientes permanecem sem rede. Empresa desconfortável por ser fornecedora do SIRESP sem poder de decisão.

A Nos tem ainda alguns clientes — menos de 5.000 — sem serviço devido aos efeitos catastróficos do comboio de tempestades que afetou Portugal desde o final de janeiro. Destes, uns 3.000 ainda não têm energia. O CEO da operadora, Miguel Almeida, avançou esta quarta-feira, 4 de março, que ainda poderá demorar algumas “semanas” a repor a totalidade da rede fixa, principalmente devido à queda de postes nas regiões mais fustigadas. O gestor admitiu também desconforto por ser fornecedor do SIRESP, recusando qualquer responsabilidade nas falhas que se verificaram por causa das tempestades.

“O que aconteceu no dia 28 de janeiro nunca tinha acontecido, pelo menos nos tempos modernos. Estou neste setor há 26 anos e nunca assisti a nada deste género. Estamos a falar de uma coisa para a qual nenhum operador do mundo está preparado. O nível de destruição é bastante significativo”, afirmou Miguel Almeida, numa conferência de imprensa para apresentar os resultados anuais do grupo Nos, garantindo que “todos os recursos possíveis e imagináveis, portugueses e não portugueses, foram alocados à recuperação das redes”.

“A rede móvel está completamente recuperada. A rede fixa ainda tem algumas zonas que ainda não estão recuperadas. E porquê? Estamos a falar de milhares de postes, estamos a falar de centenas de quilómetros de fibra que foram destruídos, estamos a falar de locais que ainda não têm energia à data de hoje. Não há telecomunicações sem energia”, explicou.

Fotografia partilhada pelo gestor nas redes sociais mostra postes derrubados que terão de ser reerguidosMiguel Almeida/NOS, via LinkedIn

Discussão sobre enterrar cabos é “demagógica e populista”

Outro aspeto a dificultar os trabalhos é o facto de “uma parte da infraestrutura” passiva, como os postes, terem “outros proprietários” que não a Nos. “Portanto, estamos também dependentes da reposição dessa infraestrutura passiva, nomeadamente precisamos de postes. Vai ser difícil chegar a casa de todos os clientes enquanto os postes não estiverem em cima. Recuperar esta quantidade de postes é uma tarefa hercúlea. Estamos a falar de mais umas semanas”, previu.

Questionado sobre a resiliência das redes de comunicações em Portugal, Miguel Almeida assegurou que as redes são “estruturalmente” resilientes. E acrescentou: “Essa questão tem sido discutida, poucas vezes com bom senso, nas infraestruturas e nas condutas, de reduzir a dependência de infraestrutura aérea, é uma discussão completamente demagógica e populista, isso não existe”, criticou.

“Só no caso da Nos, chegamos com fibra, que é a tecnologia mais avançada que existe, a 94% dos portugueses. Isso é possível porque temos um modelo de desenvolvimento das redes que é o que é. Os custos associados a condutas são completamente incomportáveis, isso não existe. Na Alemanha, esse país tão avançado, o número de alemães que têm acesso a fibra anda à volta dos 30-35%. Nós temos 94%”, afirmou.

“Acho que é uma discussão completamente errada. A questão é o que é que podemos fazer do ponto de vista de backups, que de alguma forma em momentos de contingência permita mitigar [os problemas]. Mas estruturalmente não há nada a fazer”, garantiu Miguel Almeida.

Microondas ajudam, mas taxas tornam investimento “impossível”

Todavia, o engenheiro lembrou que há uma tecnologia que permitiria aumentar a resiliência dos sites móveis: a ligação dos postos retransmissores por microondas, ao invés de fibra ótica. No entanto, teceu críticas ao Governo e à Anacom, o regulador do setor, por cobrarem taxas demasiado elevadas pelo espetro de microondas.

“A ligação de estações móveis por microondas só aumenta a resiliência das redes, neste caso da rede móvel. Infelizmente, o regulador e o Governo insistem em cobrar taxas impossíveis para o espetro de microondas, tornando o investimento em microondas praticamente impossível”, lamentou Miguel Almeida.

O CEO da Nos recordou que depois dos grandes incêndios de 2017 “houve uma série de discursos a favor da redução das taxas de microondas, precisamente para reduzir a dependência de fibra, mas nada aconteceu nesse sentido”. “Termos mais estações móveis ligadas por microondas em vez de fibra ajuda à resiliência em cenários destes e em cenários de incêndio, mas para isso é preciso haver condições para se investir. O que hoje se cobra do ponto de vista de taxas de espetro torna o investimento impossível. O Estado prefere obter estas receitas e taxação do que contribuir para a resiliência das redes”, condenou o gestor.

Sobre a possibilidade de as populações serem dotadas de comunicações via satélite, Miguel Almeida disse que essa “não é uma solução”. “É uma solução de emergência, de contingência, para um número muito restrito de clientes, apenas para comunicações de emergência. Não é uma solução para coisas desta dimensão. Agora se todas as juntas de freguesia tivessem lá uma ligação de satélite, nas seis ou 12 horas depois da catástrofe, podiam ter mantido telecomunicações. Insisto, nestas primeiras horas, num único sítio na junta de freguesia. Não serve para os clientes em geral”, disse, indicando que a comunicação por satélite “tem limitações muito profundas”.

Nos “desconfortável” com o SIRESP: “Não temos nada a ver” com os problemas

Na conferência de imprensa desta quarta-feira, o gestor também foi confrontado com os problemas do SIRESP, a rede de comunicações de emergência do Estado, que voltou a sofrer falhas na sequência das tempestades que assolaram o território continental. Recordando que a Nos não é a única fornecedora do SIRESP, Miguel Almeida atirou: “As opções tecnológicas que o SIRESP assumiu, não contribuímos, não participámos, não temos nada a ver com isso. A responsabilidade é do SIRESP.”

Na sequência de concursos públicos, a Nos “é quem fornece conectividade fixa aos sites e quem fornece o serviço de redundância via satélite” ao SIRESP, explicou na mesma ocasião o administrador executivo Manuel Ramalho Eanes. “Mas a redundância de satélite não é total, é parcial. E muito parcial. Mas isso é por desenho da arquitetura”, acrescentou o CEO, Miguel Almeida. No satélite, a empresa recorre a serviços de terceiros, nomeadamente a Eutelsat e a ESPASat, disse.

Todavia, a imagem negativa que passa para a opinião pública deixa o gestor bastante desagradado. Questionado se se sente confortável enquanto fornecedor do SIRESP, Miguel Almeida respondeu: “Perante as perguntas que aqui foram feitas e as suspeitas ou as convicções que havia sobre o nosso papel nesse ecossistema, a resposta é não.”

“Não estou confortável porque há pessoas que acham que temos responsabilidade no desenho da própria solução, que não temos. Depois, ficamos com um ónus sem ficar com a capacidade de decidir. Eu não tenho problema nenhum em servir o Estado. Pelo contrário, temos todo o gosto em servir uma infraestrutura crítica para o país. Agora, é aborrecido vir a estas coisas e as pessoas acusarem a Nos de ser responsável”, criticou.

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