BRANDS' ECO Nova economia da eletricidade exige armazenamento e flexibilidade
Entre a pressão da procura e o crescimento das renováveis, o armazenamento afirma-se como peça chave para garantir a estabilidade do sistema elétrico. Este foi o tema do Portugal Energy Storage Forum.
Na manhã do dia 28 de abril de 2025, e por várias horas, Portugal ficou às escuras. O apagão geral, que mais tarde se viria a confirmar ter sido provocado por uma falha em cascata com origem em Espanha, serviu para relembrar as fragilidades do sistema elétrico e agitou a discussão sobre independência energética no país e na Europa.
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Com o objetivo de identificar e debater as necessidades da rede e de reforçar o papel do armazenamento de energia enquanto ferramenta de estabilidade, a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN) organizou a primeira edição do Portugal Energy Storage Forum.
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Pedro Amaral Jorge (APREN) lembrou que "vivemos num mundo marcado por instabilidade geopolítica e volatilidade energética" -
No painel “Setting the scene” participaram Patrick Clerens (Energy Storage Europe) e David Minnis (Huawei Digital Power) -
Para debater o tema “Armazenamento de energia e flexibilidade do sistema elétrico” juntaram-se Pedro Furtado (REN), João Peças Lopes (FEUP), Jorge Esteves (ERSE), Pedro Carvalho (Instituto Superior Técnico) e Rui Gonçalves (E-Redes) -
Juan de Diós López Leiva (AEE) e Ignacio Cobo (AFRY) -
É preciso "tornar a Europa independente" ao nível da energia, lembrou Patrick Clerens (Energy Storage Europe) -
“Estamos num ponto de viragem”, avisou David Minnis, ESS CTO EU Region da Huawei Digital Power
“Vivemos num mundo marcado por instabilidade geopolítica, volatilidade energética e crescente competição entre blocos económicos”, começou por dizer Pedro Amaral Jorge, na abertura do fórum. Para o CEO da APREN, já estamos a assistir “à passagem da geopolítica do petróleo e do gás para a da eletricidade”, caminho desejável, mas ainda cheio de desafios.
A eletrificação dos consumos, o reforço das redes elétricas e o desenvolvimento de soluções de armazenamento e flexibilidade não são apenas instrumentos de transição energética, mas “pilares de uma nova economia”. No Portugal Energy Storage Forum, decisores públicos, reguladores, investidores e operadores de rede debateram os desafios e as soluções para acelerar o desenvolvimento do armazenamento de energia. O evento contou com a Huawei como Premium Partner, e a AFRY, EML, Engie e Triple Watt como Partners.
A rede está sob pressão
No novo paradigma do sistema elétrico, o armazenamento de energia surge como um dos elementos centrais. A crescente incorporação de renováveis, aliada ao aumento da procura, está a pressionar uma rede que enfrenta desafios estruturais e operacionais sem precedentes.
Temos de pensar como podemos tornar a Europa independente e com isso menos passível de ser pressionada
“Estamos num ponto de viragem” de uma das criações “mais complexas” da humanidade, alertou David Minnis, chief technology officer da Huawei Digital Power. Recordando o apagão que afetou a Península Ibérica no ano passado, apontou a maior introdução de renováveis como um dos fatores associados à diminuição da estabilidade da rede, mas não sem referir uma solução. O armazenamento, considerou, é essencial para evitar o colapso do sistema, mas a rede é o ponto central desta transição: “não é só sobre armazenamento, é sobre devolver estabilidade à rede”.
Esses serão passos essenciais para garantir o funcionamento de um sistema cada vez mais sobrecarregado. Os projetos de construção de centros de dados e de inteligência artificial (IA), um pouco por todo o mundo, vão aumentar exponencialmente a procura e a rede atual não está preparada, avisou David Minnis.
Para Patrick Clerens, secretário-geral da Energy Storage Europe, a rede continua a ser “a espinha dorsal do sistema elétrico”, mas já não pode ser pensada sem armazenamento. É preciso evoluir do conceito de flexibilidade de curto prazo para soluções de energy shifting, que permitam mitigar a sobrecarga do sistema, mas também reduzir custos, sublinhou.
O armazenamento é também apontado como essencial para a independência energética europeia, num contexto de elevados riscos geopolíticos e de cibersegurança. “Temos de pensar como podemos tornar a Europa independente e com isso menos passível de ser pressionada”, mas para isso é necessário garantir que a rede não é vulnerável a acessos externos.
Mercado vs sistema
Se por um lado é preciso equacionar a estabilidade da rede, por outro, é preciso considerar que este é apenas um dos vértices do problema. A tensão entre o funcionamento do mercado e as necessidades do sistema elétrico são desafios adicionais.
Os mercados locais de flexibilidade ainda estão a dar os primeiros passos, mas estamos numa fase de grande aceleração no consumo de baixa tensão
A complexidade diária da gestão da rede é uma das dificuldades. “O desafio é brutal. As pessoas não têm noção do que acontece todos os dias”, referiu Pedro Furtado, apontando a crescente dificuldade em acomodar a variabilidade de renováveis e o aumento do consumo.
Na visão do diretor de regulação e estatística da REN, embora o armazenamento tenha um papel a representar na regulação do mercado, há algumas dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo atual para suportar novos investimentos.
Ainda que fosse possível acomodar investimentos de grande escala, adquirir equipamentos não chega, e é preciso operacionalizar da melhor forma. Para que os serviços de flexibilidade local sejam viáveis, os sistemas de armazenamento têm de estar distribuídos pela rede, apontou Rui Gonçalves, diretor de regulação da E-Redes. “Os mercados locais de flexibilidade ainda estão a dar os primeiros passos, mas estamos numa fase de grande aceleração no consumo de baixa tensão”.
A ajuda do Estado faz sentido onde há falhas de mercado, mas não deve ser usada para construir um setor
Apesar dos avanços, permanecem incertezas quanto à evolução do sistema nos próximos anos. “O que vai acontecer em 2030? O consumo vai disparar ou não?”, questionou Pedro Furtado, sublinhando a dificuldade em antecipar o comportamento futuro da procura e, consequentemente, as necessidades de investimento em armazenamento.
Papel do Estado é crucial
Num contexto de forte crescimento das renováveis e de necessidade de investimento em armazenamento, o papel dos apoios públicos tem levantado questões sobre o equilíbrio entre estímulo ao investimento e funcionamento do mercado.
“A ajuda do Estado faz sentido onde há falhas de mercado, mas não deve ser usada para construir um setor”, começou por dizer Juan de Diós López Leiva, diretor técnico e industrial da Associação Empresarial Eólica (AEE). O apoio governamental pode ser importante para lançar o setor, mas é necessário saber como garantir a sustentabilidade do sistema a longo prazo.
Se pensarmos concretamente na realidade nacional e da vizinha Espanha, os apoios são bem-vindos. “Precisamos de ajuda do Estado na Ibéria”, defendeu Borja Dalmau. Para o diretor de armazenamento da União Espanhola Fotovoltaica (UNEF), os subsídios não só alavancam o setor, como dão aos investidores um sinal de confiança e de que o mercado está em desenvolvimento.
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