BRANDS' ECO Quando Loulé transforma cultura em valor
Tratar a cultura como investimento, e não apenas como despesa, pode gerar valor económico e territorial. Loulé está a procurar demonstrá-lo.
Há um erro de perspetiva que continua a atravessar os debates orçamentais em Portugal: tratar a cultura como uma rubrica de despesa social, quando ela é, antes de mais, um setor produtivo, capaz de gerar valor acrescentado, emprego, exportações e efeitos de arrastamento sobre o turismo, o imobiliário e a atratividade dos territórios.
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Os números globais não deixam grande margem para dúvidas quanto à dimensão do fenómeno. Um relatório oficial publicado pela UNESCO em 2022 estima que as indústrias culturais e criativas representam 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial e 6,2% do emprego global. Já a UNCTAD, num relatório publicado em 2024, mostra que o peso do setor no PIB varia entre 0,5% e 7,3%, consoante o país. Fica claro que a cultura não é um luxo reservado aos países ricos; é sim uma escolha de política económica, a qual tem consequências. De facto, existe hoje evidência empírica de que os países que investem na capacitação das suas indústrias criativas conseguem colher retornos em exportações, emprego qualificado e diferenciação económica, num setor que, curiosamente, apresenta uma resistência relativamente elevada à automação. Em suma, num mundo em que o capital, a tecnologia e até parte do trabalho se tornam cada vez mais móveis e replicáveis, a cultura permanece profundamente ligada à identidade, ao território e à criatividade humana, elementos diferenciadores num mundo cada vez mais global.

Na União Europeia, a dimensão económica do setor da cultura está igualmente longe de ser marginal. De acordo com o Eurostat, existiam cerca de 2,03 milhões de empresas culturais em 2022, o equivalente a 6,3% do total de empresas da economia empresarial europeia. No mesmo ano, estas empresas geraram aproximadamente 503 mil milhões de euros em volume de negócios e cerca de 199 mil milhões de euros em valor acrescentado. Também no emprego, os números são expressivos. Em 2025, cerca de 8,9 milhões de pessoas trabalhavam em atividades culturais na União Europeia, correspondendo a 4,3% do emprego total. É de salientar que não estamos a falar de emprego indiferenciado: quase dois terços dos trabalhadores culturais têm ensino superior. Estes números colocam a cultura ao lado de setores como a energia ou a construção em termos de dimensão económica. A diferença é que raramente vemos a cultura ser tratada com a mesma seriedade analítica ou com o mesmo grau de exigência estratégica.
A posição portuguesa nesta matéria é, no entanto, desconfortável. De facto, a Conta Satélite da Cultura do INE mostra que as atividades culturais representaram apenas 2,3% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) nacional em 2020, depois de já terem atingido 2,4% em 2018 e 2019. Segundo o próprio INE, Portugal apresentava o menor peso relativo da cultura no VAB entre os seis Estados-membros para os quais existiam dados comparáveis disponíveis. Esta não é apenas uma curiosidade estatística. É o retrato de um setor que continua subfinanciado, excessivamente fragmentado em microestruturas e demasiado dependente de apoios públicos incertos, em vez de assentar, também, em modelos próprios de sustentabilidade, capitalização e crescimento. Por aqui, continuamos demasiadas vezes a discutir cultura perguntando quanto custa ao Estado, quando o foco economicamente relevante é outro: quanto valor podemos criar com a estratégia certa? O paradoxo é, pois, evidente. Somos detentores de um património riquíssimo, criatividade que não fica atrás da de outros países, uma diáspora cultural relevante e um turismo que já ultrapassa 89 milhões de dormidas por ano. Temos, portanto, procura, ativos e reconhecimento internacional; “só” não conseguimos construir uma arquitetura económica capaz de monetizar tudo isto.
Como economista, vejo aqui uma oportunidade concreta de política económica: ligar cultura e turismo de forma deliberada, criando instrumentos fiscais e de financiamento que tratem a produção cultural como aquilo que ela também é: investimento em capital intangível, capaz de gerar retorno através de emprego qualificado, exportações de serviços criativos, valorização dos territórios e diferenciação do destino. Isto exige uma mudança de linguagem, mas sobretudo uma mudança de política. Menos lógica de subsídio pontual e mais lógica de investimento. Menos financiamento errático e mais previsibilidade plurianual. Menos programas dispersos e mais objetivos mensuráveis. Some-se, sempre a avaliação séria do impacto económico das políticas culturais.
Esta exigência de avaliação séria do impacto económico das políticas culturais em falta na política cultural portuguesa, tem hoje, em Loulé, um terreno de prova concreto. Depois de mais de duas décadas a tratar a cultura como investimento estrutural – em equipamentos, em programação continuada, em quadros técnicos qualificados, o município construiu, de forma participada, uma Estratégia Municipal de Cultura com horizonte a 2034 e decidiu candidatar a cidade a Capital Portuguesa da Cultura 2028. Não é um exercício de promoção territorial. É a tentativa mais ambiciosa, à escala municipal, de responder à pergunta deixada em aberto: quanto valor pode a cultura efetivamente criar quando tratada como política de desenvolvimento, e não como despesa?
Loulé carrega uma estratificação histórica pouco comum: villas romanas, a medina muçulmana de Al-Ulya, cuja malha de ruas estreitas ainda se lê no casario atual, e um convívio secular entre cristãos, judeus e muçulmanos que as atas de vereação de 1384 – as mais antigas do país, classificadas como Tesouro Nacional – documentam com rigor. A esta profundidade histórica soma-se uma geografia interna de contrastes: o litoral turístico, o barrocal de transição e uma serra que resiste ao despovoamento e ao envelhecimento. É esta diversidade, territorial e também social, o concelho conta hoje com residentes de mais de cem nacionalidades e cerca de 31% da sua população é estrangeira, que levou o município a recusar uma ideia de cultura reduzida a lazer ou a entretenimento turístico, e a assumi-la, na Estratégia Municipal de Cultura Loulé 2034, como “direito fundamental, bem comum, instrumento de coesão territorial e dimensão essencial do desenvolvimento sustentável”.
É por isso que Loulé trabalha a cultura de forma holística, como fator de desenvolvimento simultaneamente humano, territorial e económico, e não como três agendas paralelas. Do ponto de vista humano, o processo de construção da estratégia envolveu diretamente mais de mil residentes e quinze sessões de laboratórios cidadãos, e sustenta-se hoje numa rede de proximidade que quase triplicou o apoio ao associativismo cultural, de 18 para 44 associações apoiadas entre 2013 e 2025, com o investimento municipal a crescer de 164.600 para 884.095 euros no mesmo período. Só em 2025, a biblioteca, o museu, as galerias e o arquivo municipais receberam, em conjunto, mais de 365 mil visitas e desenvolveram cerca de 1.200 ações de mediação e educação cultural: sinal de que o acesso à cultura é tratado como infraestrutura de cidadania, tão essencial como a água, a escola ou a mobilidade.
Do ponto de vista territorial, a estratégia aposta na articulação de uma rede de equipamentos distribuída pelo concelho, do Cineteatro Louletano ao futuro Centro de Artes de Loulé, do Quarteirão Cultural à reabilitação do Casino Velho de Quarteira ou Centro de Educação e Cultura de Quarteira, os polos da Biblioteca e do Museu no interior do concelho, o centro interpretativo da Penina, pensada precisamente para combater a concentração da oferta cultural no litoral e ligada ao Geoparque Algarvensis, geoparque Mundial da UNESCO. É uma política que trata a cultura como instrumento de coesão entre serra, barrocal e litoral, e não apenas como atrativo para visitantes.
E é, cada vez mais, também uma política económica. O programa Loulé Criativo apoia artesãos, designers e pequenos empreendedores culturais na profissionalização, na comercialização e na internacionalização dos seus produtos; mais de metade dos visitantes aos equipamentos culturais municipais são já hoje estrangeiros (66% no Museu, 56% nas Galerias), fazendo da cultura uma porta de entrada internacional para o território. E, não por acaso, a avaliação de impacto da candidatura a Capital Portuguesa da Cultura 2028, que envolve um investimento municipal previsto de sete milhões de euros entre 2027 e 2030, a par de uma dotação nacional de um milhão de euros para o município vencedor, foi entregue à Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, em parceria com o CinTurs, precisamente para medir, com rigor científico, os efeitos diretos, indiretos e induzidos sobre o emprego, o investimento e a economia criativa regional.
É esta abordagem holística – cultura como direito, como fator de coesão territorial e como motor económico, em simultâneo – que torna o caso de Loulé relevante para além das suas fronteiras. Se a candidatura a Capital Portuguesa da Cultura 2028 for bem-sucedida, o concelho ganhará recursos e visibilidade acrescida; mas o essencial já está em curso, independentemente do resultado: um território do extremo Sul do país a demonstrar, com indicadores públicos e avaliação independente, que investir em cultura é investir, ao mesmo tempo, em pessoas, em território e em economia: três dimensões que, longe de se excluírem, se reforçam mutuamente.
Este artigo expressa apenas a opinião do seu autor, não representando a posição das entidades com as quais colabora.
Dália Paulo é museóloga e programadora cultural. É Diretora Municipal na Câmara Municipal de Loulé. É em representação do Município de Loulé, Vice-Presidente da Associação Geoparque Algarvensis, e vogal da Associação Musical do Algarve/ Orquestra do Algarve. Integra o Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Património, é Assistente Convidada da Universidade do Algarve, onde leciona na área da museologia e interpretação e gestão do património. Fora do âmbito profissional, a Dália é apaixonada por poesia, por livros, por viagens, pelo “seu” Sporting e pela sua filha Constança. E sonha ter um dálmata.
Luís Serra Coelho é Professor Catedrático e Diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve e É membro integrado do Centro de Estudos e Formação Avançada em Gestão e Economia da Universidade de Évora e membro associado do Centro de Investigação em Turismo, Sustentabilidade e Bem-Estar da Universidade do Algarve. É Doutor em Gestão pela Universidade de Edimburgo e Membro da Ordem dos Economistas e da Ordem dos Contabilistas Certificados. Fora do âmbito profissional, o Luís adora passear os seus três cães, assistir às vitórias do Sporting e desfrutar de momentos com amigos e família.
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