Walking Dead. BPI junta-se ao clube dos mortos vivos na bolsa portuguesa

A lista de mortos vivos na bolsa portuguesa não pára de aumentar. O BPI juntou-se ao clube de zombies depois da OPA do CaixaBank. Euronext assume vontade de regenerar mercado. Mas há interesse?

Não faltam zombies no mercado nacional. (Ilustração de Raquel Martins)Raquel Sá Martins

A sétima temporada de Walking Dead regressa mais logo à antena da Fox. A série norte-americana retrata o instinto de sobrevivência do Homem num mundo dominado por zombies. É mais ou menos esse o sentimento dos investidores na bolsa portuguesa. O BPI juntou-se ao vasto clube de mortos-vivos na praça nacional. É um Walking Dead à portuguesa.

As cotadas são consideradas como zombie quando apresentam uma escassa liquidez e uma baixa dispersão de capital (reduzido free float), o que leva a que centrem menos atenção de investidores e analistas (havendo poucos ou nenhuns a cobrirem essas cotadas). Na bolsa portuguesa, não faltam mortos vivos: Vista Alegre, Luz Saúde, Estoril Sol, Cimpor, Sonaecom, Pharol… um clube ao qual se juntou recentemente o BPI, depois da Oferta Pública de Aquisição (OPA) do CaixaBank ter deixado apenas cerca de 7% do capital disponível para negociação.

O BPI era um dos títulos que despertava maior interesse por parte dos investidores“, diz a equipa de analistas do Banco BiG. “Não perspetivamos a entrada de novas empresas em bolsa, o que acaba por exponenciar o perfil histórico-cultural relativamente anémico do mercado de capitais português”, acrescenta.

O cenário é um pouco desolador. Além de um menor número de empresas cotadas, que foram saindo da bolsa ora por via de aquisições e fusões, ora por via de falências, muitas das que ainda resistem no mercado de capital apresentam um nível de liquidez pouco interessante do ponto de vista do investidor.

De acordo com os dados compilados pela Bloomberg, um quinto das cotadas nacionais apresenta um free float abaixo de 15%, um nível abaixo do qual um investidor corre o risco de ficar com as ações “estancadas” na sua carteira sem que se vislumbre um potencial comprador durante um bom período de tempo. É esse o limite estabelecido pela Euronext para uma cotada sonhar com a subida ao principal escalão bolsista nacional, o PSI-20.

São zombies que não assustam o BiG: “Ainda há sólidas empresas, em diferentes setores de atividade, que deverão continuar a atrair interesse de investidores nacionais e internacionais”.

"O BPI era um dos títulos que despertava maior interesse por parte dos investidores. Não perspetivamos a entrada de novas empresas em bolsa, o que acaba por exponenciar o perfil histórico-cultural relativamente anémico do mercado de capitais português.”

Banco BiG

É preciso recuar até dezembro de 2014 para chegarmos à última Oferta Pública de Venda (OPV) que levou uma empresa nacional à bolsa. Foram os CTT, depois de um processo de privatização do Governo de Passos Coelho na altura da troika, numa operação que rendeu um total de 909 milhões de euros aos cofres do Estado.

Antes, em fevereiro de 2014, também a Espírito Santo Saúde alcançava o mercado de capitais. Mas da mesma forma como entrou e gerou entusiasmo em torno de um novo capítulo na bolsa portuguesa, em poucos meses foi alvo de uma OPA da Fidelidade, dos chineses da Fosun. Mudou de nome, passou a chamar-se Luz Saúde e hoje em dia é controlada em 98,7% pela seguradora sino-portuguesa.

Apocalipse no PSI-20

A Espírito Santo Saúde era uma das jóias do Grupo Espírito Santo. A queda do império Espírito Santo em 2014 representou o momento apocalíptico para bolsa portuguesa. Criou um cemitério para onde foram BES, Espírito Santo Financial Group e outras sociedades do grupo. O processo arrastou consigo a Portugal Telecom, na sequência de um investimento a “fundo quase perdido” de 900 milhões de euros em papel comercial da Rioforte. Foi divida em duas: a Meo (PT Portugal) foi vendida aos franceses da Altice e a PT SGPS, que ressurgiu com o nome Pharol.

A cotada liderada por Palha da Silva é um dos zombies que vão deambulando num PSI-20 desmembrado. Apesar do vibrante arranque de ano que está a apresentar, não há analista que acompanhe a Pharol. Isto porque a antiga PT SGPS funciona como um “paradeiro” de uma posição de 22% da brasileira Oi. Tal como é a Semapa, a holding de Pedro Queiroz Pereira que detém a Navigator.

Sem uma regeneração da bolsa à vista, tornar o mercado de capitais atrativo para as empresas — e atrair o entusiasmo dos investidores — deverá representar uma das tarefas cruciais do novo presidente do Euronext, Paulo Rodrigues da Silva. Pelo menos foi essa a principal frente de atuação de Maria João Carioca no seu curto mandato à frente da Euronext Lisboa.

Em entrevista ao ECO, logo após ter assumido a presidência da gestora da bolsa de Lisboa, Carioca disse estar a trabalhar no sentido de trazer mais empresas para a bolsa, admitindo preocupação com a pouca profundidade e baixa liquidez do mercado nacional. A bolsa precisa desesperadamente de novas cotadas? “Desesperadamente é uma expressão muito, muito muito forte. Acho que mais do que precisar de mais empresas, a bolsa portuguesa precisa muito de consolidar as histórias de qualquer empresa que esteja no mercado“, sublinhou a gestora que está de saída para a Caixa Geral de Depósitos.

"Acho que mais do que precisar de mais empresas, a bolsa portuguesa precisa muito de consolidar as histórias de qualquer empresa que esteja no mercado.”

Maria João Carioca

Presidente da Euronext Lisboa

Sobre a presença de empresas zombies, Carioca lembrou que algumas assumem esse estatuto por decisão dos próprios acionistas, que preferem manter a porta do mercado de capitais aberta em vez de retirar a cotada definitivamente da bolsa. Reforçou que o mercado tem sempre de ser visto numa perspetiva de longo prazo. “Temos de ser capazes de conviver com estes ciclos deprimidos garantindo que os mecanismos de mercado continuam a funcionar e que não deitamos o bebé fora com a água do banho“, referiu.

Vagueando na bolsa

Um quinto das cotadas nacionais apresenta um free float abaixo de 15%. Cotadas como Pharol e Semapa funcionam como “paradeiros” de participações noutras empresas e estão na principal montra nacional. Conheça alguns zombies que vagueiam na bolsa nacional, um clube ao qual se juntou este mês o BPI.

CaixaBank “seca” BPI

A OPA do CaixaBank secou quase por completo a dispersão do BPI em bolsa. Os espanhóis ficaram com mais de 84,5% do banco português. Só que a Allianz não participou na oferta, deixando o BPI com um free float de cerca de 8%, razão pela qual a Euronext decidiu excluí-lo do PSI-20.

Continuará na bolsa? Sem hipótese de realizar uma OPA potestativa, Gonzalo Górtazar, presidente do grupo catalão, afirmou que a intenção é manter o BPI na bolsa. Mas abriu a porta à saída do mercado de capitais. “Temos de analisar se a liquidez é suficiente”. E “que alternativas temos”, precisou o responsável espanhol.

Pharol vê a luz

O que torna a Pharol num morto vivo não é tanto a baixa dispersão em bolsa. É antes o facto que a empresa existir apenas como um paradeiro de uma participação de 22% na Oi, a operadora brasileira que enfrenta o maior processo de recuperação judicial da história do Brasil.

Apesar da sua condição zombie, as ações têm estado bem vivas desde o início do ano. Apresentam o melhor desempenho em Lisboa — avançam mais de 80% em 2017 — acompanhando a evolução da Oi, que prossegue o seu plano de reestruturação perante o interesse de vários fundos na sua aquisição.

Luz (sem) Saúde na bolsa

Apenas 1,3% da Luz Saúde ainda deve estar disperso em bolsa, depois de a Fidelidade ter reforçado a sua posição ao longo dos últimos meses, na sequência da OPA realizada em 2014. A Fidelidade é detida pelos chineses da Fosun, que estão cada vez mais perto de assumir a totalidade do capital da empresa liderada por Isabel Vaz.

Cimpor deambula desde 2012

Desde que foi alvo de OPA por parte da brasileira Camargo Corrêa, em 2012, a dispersão da Cimpor em bolsa nunca foi suficiente para retirar a cimenteira portuguesa do estado “moribundo” que se apresenta como cotada — enquanto empresa, a Cimpor mantém viva a sua atividade. Menos de 5% do seu capital está disponível para negociação entre os investidores.

Sonaecom perdeu vida com saída da Optimus

Fundiu-se a Optimus com a Zon, nasceu a Nos, mas a Sonaecom perdeu vida. A empresa do universo Sonae ainda forçou uma saída da bolsa depois de uma OPA sobre os minoritários. Mas a operação não foi bem-sucedida. Hoje em dia, restam apenas 7,5% de capital da Sonaecom em bolsa. Está em vista o abandono do mercado de capitais.

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