Altice, as telecoms e os media. Ou será tudo o mesmo?

Arranca esta quarta-feira o congresso anual da APDC e a compra da TVI pela Altice é o elefante na sala. Telecomunicações e media são os setores em destaque, onde nem a Google fica de fora.

Transformação digital. É esse o tema que volta a marcar o congresso da APDC este ano. E quem melhor para falar deste fenómeno do que o setor dos media? Naquela que é já a 27ª edição do Digital Business Congress, o elefante na sala vai ser a compra da TVI pela Altice, que deverá pintar os dois principais debates do evento: o do Estado da Nação dos Media (que conta este ano com a participação da Google) e o do Estado da Nação das Comunicações (que junta Meo, Nos, Vodafone e CTT na mesma mesa). Fará sentido dois debates no futuro?

Importa perceber a importância deste evento anual da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC). É dos mais relevantes ao nível tecnológico, pontuando setores como o das tecnologias da informação (TI), telecomunicações e media. É notório por juntar, em cada painel, os players mais relevantes do país para a discussão que é proposta. É dos poucos locais em que é possível assistir aos líderes de grandes empresas a debater em público, muitas vezes com poucos filtros. Contas feitas, o congresso reúne no CCB, em Lisboa, quase 10% do produto interno bruto do país.

Os holofotes estarão voltados esta quarta-feira para o debate do Estado da Nação dos Media, pelas 17h30, onde Carlos Magno, o presidente do regulador da ERC, abordará um pouco da atividade do regulador ao longo do último ano. É um discurso que merecerá atenção especial, na medida em que é esta entidade que se encontra atualmente a avaliar o negócio da compra da TVI — e que o pode chumbar, se assim o entender. Além disso, o regulador encontra-se com poderes reduzidos por falta de nomes para o próximo mandato (da forma que está, o parecer relativo ao negócio terá de ser aprovado por unanimidade, independentemente do sentido do mesmo).

O painel conta ainda com um debate onde deverá participar Rosa Cullell, líder da Media Capital (dona da TVI); Francisco Pedro Balsemão, líder da Impresa (dona da SIC); Gonçalo Reis, líder da RTP; Rolando Oliveira, administrador da Controlinveste; e Bernardo Correia, o líder da Google em Portugal. Já lá vamos à parte em que a Google surge inserida num painel sobre media. Para já, um dos aspetos de relevo será perceber a posição do líder da Impresa, Francisco Pedro Balsemão, sobre o negócio da concorrente Media Capital, na medida em que o gestor já foi ouvido pela Autoridade da Concorrência (AdC) no âmbito do dossiê Altice/TVI.

Rogério Carapuça, presidente da APDC, fotografado no congresso do ano passadoMIGUEL A. LOPES/LUSA

Na quinta-feira, estará o setor das (tele)comunicações no centro das atenções, mas o assunto em destaque deverá ser o mesmo. A primeira dose é servida logo às 9h30, com um debate acerca de regulação. Mas é à tardinha, pelas 17h00, que chega o prato principal — que volta a saber a media. Trata-se do debate do Estado da Nação das Comunicações, com a presença das três principais operadoras de telecomunicações do país e dos CTT, a antiga empresa pública, agora privada, que gere o serviço universal do correio. O painel abre com a primeira intervenção pública de João Cadete de Matos enquanto novo presidente da Anacom e, só por isso, o debate já seria relevante que baste. Mas a Anacom chumbou a venda da TVI à Altice na semana passada, numa decisão não vinculativa que surpreendeu o setor, o que dá ainda mais expressão ao painel.

O painel prossegue com um debate, normalmente aceso mas muito bem-disposto, entre o líder da Vodafone Portugal, Mário Vaz; o líder da Nos, Miguel Almeida; a nova líder da PT, Cláudia Goya, que é estreante; e o líder dos CTT, Francisco de Lacerda, que abordará o negócio do correio. Tendo em conta que as operadoras concorrentes da Meo, detida pela Altice, também já foram ouvidas pela AdC no âmbito do negócio da TVI/Altice, espera-se que este seja um dos temas em discussão. Cada parte terá uma palavra a dizer.

A convergência entre telecomunicações e media está na ordem do dia não só em Portugal. As telecoms estão a apostar nos conteúdos e a adquirir empresas de media. Estas últimas têm atravessado uma profunda reestruturação com o surgimento do digital: as vendas em papel estão a cair e tornou-se obrigatório ter uma forte presença na internet, onde as receitas com publicidade são menores. E porquê? Porque os anunciantes preferem optar pelas plataformas como o Facebook e a Google, que detêm hoje a fatia de leão da quota de crescimento ao nível das receitas com publicidade. Simultaneamente, o principal modelo de negócio das empresas de comunicação social.

É por este motivo que a Google surge lado a lado com a Media Capital, Impresa, Controlinveste e RTP no debate sobre o estado dos media em Portugal. O ECO questionou Bernardo Correia, diretor da multinacional em Portugal, acerca da presença da Google neste painel. O líder da Google Portugal disse que “a ideia de participar neste painel é mostrar como a Google pode ajudar os media na sua transição para o digital”. “Não somos uma companhia de media nem pretendemos sê-lo. Não queremos ser vistos como um concorrente mas como um aliado”, explicou, por email. Acrescentou também: “A Google quer ser parceira da indústria de notícias nesta transição [digital]. É por isso que estamos a colaborar há muito com esta indústria para lhes direcionar tráfego e aumentar as receitas e o envolvimento com as audiências.”

E concluiu: “A inovação e as parcerias são fundamentais para termos uma indústria de notícias de sucesso, sustentável e diversificada.” Sabemos assim que a Google não se considera uma empresa de media e prefere ser vista como uma parceira, ao invés de uma concorrente destas empresas. No congresso da APDC, ficaremos a saber se os grandes grupos de media portugueses partilham da mesma opinião.

A par de tudo isto, serão muitas as altas figuras do Estado a marcarem presença neste congresso. Desde logo, Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, que fará a abertura do evento, ao lado de Maria Manuel Leitão Marques, ministra da Presidência e da Modernização Administrativa. No último fim de semana, o chefe de Estado já se tinha mostrado “muito preocupado com o panorama do jornalismo em Portugal” num debate sobre o futuro do jornalismo, em Lisboa.

APDC vai apresentar casos de sucesso na transformação digital

A inércia face à transformação digital é, geralmente, apontada como uma das causas da crise no setor dos media. Ora, para além dos diversos painéis, a APDC apresenta anualmente um estudo sobre esse fenómeno. Naquilo que a associação considera “uma iniciativa inédita e verdadeiramente colaborativa”, vai ser apresentado o estudo “A Economia Digital em Portugal 2017 – Casos de Transformação Digital”. O ECO teve acesso antecipado ao índice do estudo e a uma parte do mesmo, onde a associação apresenta inúmeros estudos de caso de empresas portuguesas de sucesso no âmbito da transformação e adaptação ao mundo digital.

O trabalho é transversal aos diversos setores da economia, com enfoque também no mundo das startups e do empreendedorismo. Numa nota introdutória, Rogério Carapuça, presidente da APDC, aponta que “este estudo constitui um excelente ponto de partida para conhecer aquilo que está hoje a acontecer em Portugal nesta matéria”. “A transformação digital está a acontecer todos os dias nas organizações e na sociedade. Para a compreender é necessário estudar os casos concretos que são bons exemplos da mesma. Foi isso que decidimos fazer em 2017. Identificar, caracterizar e descrever um conjunto muito alargado de casos das mais variadas origens”, refere o presidente.

E conclui: “Os verdadeiros protagonistas desta grande transformação em Portugal são as empresas, os organismos públicos, as instituições sem fins lucrativos e os indivíduos. Este é um desafio que o país e os portugueses não podem perder, pois ele será o mais transformador de todos os que até hoje conhecemos.”

Ao longo destes dois dias, também passarão pelo CCB o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues; o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor; e o ministro da Cultura, Luís Filipe de Castro Mendes. Diversos secretários de Estado também têm discursos marcados em alguns dos painéis do Digital Business Congress 2017. O ECO fará a cobertura do evento esta quarta e quinta-feira.

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Altice, as telecoms e os media. Ou será tudo o mesmo?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião