BRANDS' TRABALHO A era do botsitting já chegou às empresas
A IA prometeu aumentar a produtividade. Mas há uma nova realidade emergente: colaboradores que passam cada vez mais tempo a supervisionar, corrigir e validar o trabalho produzido pela mesma.
Durante anos, a narrativa em torno da Inteligência Artificial (IA) foi relativamente simples: automatizar tarefas, aumentar a produtividade e libertar as pessoas para atividades de maior valor acrescentado. À medida que as organizações aceleraram a adoção de assistentes virtuais e agentes inteligentes, a promessa parecia clara. Menos tarefas operacionais. Mais tempo para pensar, criar e decidir.
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Mas existe uma realidade menos discutida que começa a ganhar expressão dentro das empresas. Apesar de cada vez mais capazes, os sistemas de IA continuam a necessitar de supervisão humana, o que significa que os conteúdos que geram precisam de ser validados, as análises que produzem exigem verificação e as recomendações que apresentam requerem contexto e interpretação. Em muitos casos, a utilização da IA não eliminou o trabalho humano; transformou-o.
É neste contexto que surge um conceito cada vez mais relevante: botsitting. De forma simples, podemos defini-lo como o tempo e o esforço dedicados por colaboradores a monitorizar, corrigir, orientar e supervisionar sistemas de IA.
A dimensão deste fenómeno já não é negligenciável. Um estudo recente divulgado pela Harvard Business Review (agosto, 2026), concluiu que os trabalhadores dedicam, em média, 6,4 horas por semana ao botsitting, o equivalente a praticamente um dia completo de trabalho. Mais surpreendente ainda: este tempo representa 37% do total do tempo dedicado à interação com a IA, ligeiramente acima dos 36% gastos na utilização da tecnologia para produzir trabalho.
Estes números revelam que a tecnologia não está apenas a automatizar trabalho, mas também a criar uma nova camada de trabalho invisível. E esse trabalho exige competências que nenhuma tecnologia consegue substituir plenamente: pensamento crítico, capacidade de análise, conhecimento do contexto, julgamento e responsabilidade. Em última análise, exige discernimento.
O novo desafio da liderança
À medida que a utilização da Inteligência Artificial se intensifica, a questão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser uma questão de confiança. Afinal, o valor gerado por estas ferramentas depende cada vez menos da qualidade da resposta produzida e cada vez mais da capacidade humana para avaliar se essa resposta é correta, adequada e segura.
O desafio torna-se ainda mais relevante quando percebemos que nem todos os erros produzidos pela IA são evidentes. Alguns são subtis. Outros parecem totalmente plausíveis. E é precisamente por isso que representam um risco maior. Quanto mais confiamos na tecnologia, mais importante se torna a capacidade humana para questionar, validar e decidir.
Esta reflexão traz novas responsabilidades para a liderança. Quem é responsável quando um sistema comete um erro? Como medir o desempenho de profissionais que dedicam uma parte significativa do seu tempo a supervisionar agentes digitais? Que competências devem ser desenvolvidas para garantir uma utilização segura e eficaz da IA? E como evitar que os ganhos de produtividade prometidos sejam absorvidos por novas camadas de validação e controlo?
São perguntas para as quais muitas organizações ainda não têm respostas claras.
Medir o que ainda não estamos a medir
As organizações que conseguirão extrair maior valor da IA não serão necessariamente aquelas que implementarem mais ferramentas. Serão aquelas que compreenderem melhor esta nova relação entre pessoas e tecnologia. Tal implica redesenhar funções, desenvolver novas competências, rever métricas de produtividade e preparar líderes para gerir equipas onde humanos e agentes inteligentes trabalham lado a lado.
Na EY, trabalhamos diariamente com organizações que procuram transformar a adoção da IA em resultados sustentáveis. Isso passa não apenas pela implementação de tecnologia, mas também pelo redesenho de modelos operativos, pela preparação das equipas, pela definição de mecanismos de governance e pela gestão da mudança necessária para integrar a IA de forma responsável no trabalho do dia-a-dia.
Porque o verdadeiro potencial da IA não depende apenas da tecnologia que implementamos, mas da capacidade que temos para combinar tecnologia, processos e talento humano de forma responsável, sustentável e geradora de valor.
Talvez seja esta a verdadeira revolução da IA. Não a substituição do trabalho humano, mas a sua transformação. Uma transformação silenciosa que já está a acontecer dentro das organizações e que desafia cada profissional a evoluir, adaptando-se a novas formas de trabalhar, decidir e colaborar. Porque, no final, a tecnologia pode acelerar a mudança, mas serão sempre as pessoas a determinar o seu impacto.
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